Eu tinha alguma esperança

Gerson Araújo
  Ao exercer um mandato eletivo sofri na pele a impiedosa e sistemática oposição do PT. Só quem passou por isso avalia a dimensão do poder que este partido sempre teve de mobilizar a opinião pública para os seus interesses, impedindo toda e qualquer tentativa que quem estivesse no poder pudesse realizar as necessárias reformas para o desenvolvimento.
  Acreditava que, fazendo parte do jogo político, havia até alguma legitimidade na atitude dos militantes que, como qualquer partido, almejava o poder. No entanto, sempre discordei dos ‘‘meios’’ que eram utilizados para o alcance dos ‘‘fins’’.
  Tanto fizeram, tanto denegriram a imagem dos outros partidos que a população julgou que a ‘‘salvação da Pátria’’ estava em experimentar esta nova opção que sempre se intitulou a única.
  E aí a minha ‘‘alguma esperança’’. Imaginei que, como o novo governo não teria a famigerada oposição petista, muitas das necessárias reformas (combatidas veementemente durante o governo FHC) poderiam ser viabilizadas, já que pelo menos seriedade e honestidade (tão propaladas) fossem uma realidade.
  Mas, nem precisou muita oposição, o próprio partido, através de seus líderes, se encarregou da autodestruição, já que o pilar que poderia sustentar a governabilidade, se demonstrou muito frágil, ou melhor, podre no seu significado mais amplo, tomando a todos nós de surpresa.
  Creio, portanto, poder concluir o seguinte: se o Partido dos Trabalhadores, ao longo do governo passado, não fosse vítima da volúpia do poder, apenas pelo poder, tivesse dado apoio às reformas que ainda se fazem necessárias e ajudasse, como partido sério, a aprovar os projetos positivos, o Brasil estaria, hoje, entre os países do primeiro mundo.
  É duro constatar que um grupo pode ser culpado duas vezes: uma por impedir o desenvolvimento e outra por não ter estrutura moral e competência para realizar quando lhe é dada a oportunidade.
  No entanto, algo de positivo: a democracia, a duras penas, nos ensinando o caminho do amadurecimento político.
GERSON ARAÚJO é pastor evangélico, ex-vereador e membro do Diretório do PSDB em Londrina


O PT como destruidor de utopias

Janaina Carla S. Vargas Hilário
  A sociedade contemporânea vive sob o estigma da democracia plena. No entanto, a apatia frente à política, assim como uma desconfiança em relação aos políticos é presente de forma significativa. Esse estado de impassibilidade se agravou com o descontentamento em relação ao governo do Partido dos Trabalhadores, uma vez que grande parte da sociedade brasileira nele depositou muita esperança.
  O PT tem traduzido, desde a sua formação em 1980, a fé numa política menos corrupta e mais justa. Sua criação está contextualizada num período marcado por ‘‘novos movimentos sociais’’, ‘‘nova esquerda’’, ‘‘novo sindicalismo’’, assim o partido foi consolidado através da apropriação do fenômeno e do impacto do ‘‘novo’’. Surgiu enquanto expressão dos movimentos populares, dos sindicatos dito combatentes, autônomos e independentes do Estado.
  O PT do passado foi contestador de uma política eleitoralista, clientelista e populista, ao mesmo tempo em que criticava a esquerda ortodoxa e os partidos de caráter socialista autoritário influenciados pela ex-URSS. O partido reuniu em seu seio cristãos a marxistas, contou com a contribuição de militantes da Teologia da Libertação e de intelectuais que lutavam por uma sociedade socialista, justa e igualitária.
  No entanto, esse PT do passado, que se dizia ser um ‘‘partido de massa’’, na defesa de uma política de classe autônoma transformou-se em um partido de alianças com grupos situados ideologicamente do lado oposto. E a ética que fazia parte do PT das origens foi destruída pela cúpula dirigente.
  O que vemos atualmente no cenário político é um novo PT regido por valores e regras muito diferenciadas daquelas que originou o partido. O discurso radicalizado abriu espaço para o discurso da negociação. A instituição partidária dilapidou seu capital moral, seus princípios. Deslocou-se de um eixo de esquerda para um eixo mais de centro e focou sua campanha no marketing político, no marketing eleitoral, em vez de fazer uma campanha propriamente política. O lema ‘‘representar os trabalhadores’’ foi substituído pelo se adequar às políticas neoliberais, capitalistas, e até corruptas.
  O PT voltará a ser o PT de antes? Talvez ele sobreviva nos sonhos daqueles, que de fato, acreditaram no Partido como um meio de estabelecer a justiça nesse país, ou seja, não os que ocupam cargos, mas os que possuem uma história de militância incorporada pela ética e pelo solidarismo.
JANAINA CARLA S. VARGAS HILARIO é mestranda em História Política e professora de História do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) em Cornélio Procópio


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