Fome Zero e a agricultura

Mylton Casaroli Neto
  O governo brasileiro prega veementemente a depauperação, em caráter de urgência, da fome que desserve, humilha e até mesmo dizima muitos brasileiros. Há uma grandiosa campanha atingindo diariamente vários setores e classes da sociedade solicitando uma mobilização no intuito de auxiliar o governo nessa tão benquista empreitada.
  O que causa a fome é a impossibilidade de acesso à comida por parte daqueles que sofrem esse problema na carne. O resultado dessa equação é simples: acaba-se com a fome disponibilizando comida aos famintos. A principal e primordial atividade produtiva de geração de alimento é a agricultura. A comida, seu produto, existirá se a atividade existir lucrativamente. Quanto mais desenvolvida for essa atividade, maior será sua produção, ou seja, haverá mais comida para aqueles que não a tem.
  Estamos vendo nos dias atuais uma total falta de apoio à atividade agrícola. Foi realizado recentemente por agricultores de todo o Brasil um movimento em Brasília (o ‘‘tratoraço’’) solicitando a colaboração do governo no desenvolvimento da atividade, mas não foi dada a devida atenção por parte daqueles que podem resolver o problema.
  Sendo a agricultura uma atividade produtiva literalmente vital para a sobrevivência humana, como pode o governo num discurso de combate à fome permitir o sucateamento da única atividade que interfere diretamente no resultado dessa ação? Já se fala em diminuição da produção por parte dos próprios agricultores que não mais possuem recursos para atuar como antes o faziam. Qual é o interesse nessa queda de produtividade?
  Abramos nossos olhos para esse cenário que está ditando as regras do agronegócio brasileiro. Os governantes suportam as atividades mais inóspitas, como o pagamento de mesadas a políticos e o financiamento à corrupção e à ilegalidade, e não se atentam às reais necessidades do setor agrícola, que com muito esforço, dedicação e vontade de desenvolver uma atividade ambiental, econômica e socialmente correta, alimenta a sociedade, sustenta a balança comercial brasileira e coloca o país em uma posição de potência mundial do agronegócio. E tudo isso sem o devido apoio daqueles que se dizem capazes e responsáveis pelo desenvolvimento nacional em época de eleição.
MYLTON CASAROLI NETO é administrador de empresas em Londrina


Violência e Educação

Devaldo Gilini Júnior
  Erradicar a violência das escolas custa, por mês, o equivalente a uma caixa de lápis de cor. Com investimentos de R$ 4 a R$ 6, por aluno, e muita disposição de pais e professores, é possível afastar a insegurança, acabar com as depredações e ainda reduzir os índices de homicídios entre jovens que moram perto das instituições. É o que garante a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) que apóia um programa que mantém as escolas abertas durante os fins de semana, com atividades de lazer e recreação.
  Atualmente, sete milhões de brasileiros vão à escola nos finais de semana para dançar, cantar, jogar futebol, fazer teatro e outras atividades em 6 mil escolas do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Sergipe e Piauí. Minas Gerais, Espírito Santo e Santa Catarina estão na mira do programa.
  A situação do jovem no Brasil é grave. As principais causas de morte (70%) são devidas a fatores externos (homicídios, acidentes de trânsito e suicídios). Entre 1991 e 2000, a taxa de homicídio entre a população juvenil saltou de 66,5% para 98,8% por 100 mil mortos - índices bastante superiores aos de países em estado de guerra declarada.
  É o mesmo que acontece em Londrina e nas grandes cidades do Paraná, onde a maioria das vítimas de homícidio é jovem entre 16 e 24 anos de idade. E não adianta aumentar o número de policiais nas ruas. A presença deles é importante para dar segurança, mas não evita os assassinatos ligados principalmente ao tráfico de drogas. É preciso um envolvimento maior da sociedade, é necessário mais empregos e tudo aquilo que estamos cansados de saber.
  Por que então não começamos com a abertura das nossas escolas (estaduais e municipais) que estão mais próximas dos bairros que têm pouca ou nenhuma área de lazer nos finais de semana? É um projeto que custa pouco e tem um retorno muito grande. Os números mostram que as escolas de Pernambuco, por exemplo, conseguiram melhorias de 83% nos casos de indisciplina, furtos e brigas entre os alunos, 66,7% nas ocorrências de uso de drogas e quase 100% nos episódios de vandalismo e depredação da escola. Isso reflete na sociedade como um todo, diminuindo o número de furtos, roubos e homicídios na região e, conseqüentemente, afastando o tráfico.
  Em São Paulo, outros números importantes: diminuição dos índices de violência em 35% nas escolas estaduais de agosto de 2003 a agosto de 2004; apropriação, recuperação e manutenção do espaço físico escolar pela comunidade; resgate da convivência familiar na escola e ampliação dos horizontes culturais dos participantes; maior envolvimento dos educadores com os alunos e as questões escolares.
  O Programa Escola da Família, do governo do estado de São Paulo, concede bolsas de estudos para graduação em troca de trabalhos assistenciais prestados pelos estudantes universitários nas escolas públicas estaduais durante os finais de semana. Será que esse programa não poderia ser realizado em todo o País?
DEVALDO GILINI JÚNIOR é editor da Folha de Londrina


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