Lula lá: Três saídas para a crise
Cezar Bueno
Os últimos acontecimentos na arena política, envolvendo denúncias de compra de votos de parlamentares por parte da base aliada do governo Lula, poderá gerar uma crise político-institucional de contornos sociais imprevisíveis. No atual momento é possível vislumbrar três desfechos possíveis o desfecho político da crise:
a) O pedido, por parte dos partidos de oposição capitaneados pelo PSDB E PFL, de abertura de impeachment contra o presidente Lula. Aqui residem dois obstáculos: autoridade moral do congresso, contra o qual, recaem as mais graves denúncias de corrupação. Acresce-se a isso a possibilidade do atual vice-presisente, José de Alencar assumir o comando político da nação e arrastar como vice o atual presidente da câmara dos deputados, Severino Cavalcante. Numa situação deste tipo o novo presidente, poderia tomar drásticas medidas no campo econômico, contrárias ao modelo neoliberal conduzido por Paloccci, fortalecer vínculos com as forças armadas e reacender o combustível político do nacional-desenvolvimentismo. O êxito deste empreendimento poderá converter Alencar o novo candidato quase imbatível nas próximas eleições presidenciais;
b) Costura política de um amplo acordo de governabilidade, incluindo o PSDB, PFL e parte do PMBD, partidos que pretendem lançar candidatos próprios no próximo pleito presidencial. A condição para este acordo passaria pelo prolongamento do atual mandato do presidente Lula e o fim do instituto da reeleição presidencial. Nestas circunstâncias partidos como o PT, PCdoB, e setores ideológicos à esquerda, poderão falar de golpe orquestrado da direita, que na falta de um nome viável para enfrentar o presidente Lula nas próximas eleições, aproveitou-se do momento de instabilidade política para exigir o fim do instituto da reeleição que eles mesmos criaram;
c) manifestações populares pela manutenção do presidente Lula e por mudanças de rumo da política econômica em curso. Neste caso, partidos de esquerda, setores do PMDB, sindicados, movimentos estudantis, MST e outras organizações sociais sairiam às ruas exigindo a imediata renegociação dos termos da dívida externa, redução das taxas de juros e uma política oficial de amplo incentivo ao capital produtivo.
No campo político-ideológico venceria um governo de cores centro-desenlvovimentista, no primeiro caso; o neoliberalismo retornaria sem disfarces, no segundo; uma composição política de centro-esquerda triunfaria, no terceiro caso.
Cezar Bueno é professor de sociologia: Unifil e PUC-Londrina


Desaquecimento
Antonio Delfim Netto
Já são bastante nítidos os sinais de desaquecimento da economia , devido ao desestímulo causado em setores importantes do empresariado diante da dificuldade do governo em corrigir sua política monetária . Não se trata ainda de desistir dos investimentos mas de um adiamento nos empreendimentos que ajudariam a manter o crescimento econômico num ritmo um pouco acima dos medíocres 3% atuais . Muitas empresas continuam tocando os projetos , mas claramente diminuíram o ritmo de sua execução, com isso deixando de ampliar a capacidade de produção , contagiadas pelo excesso de cautela ou falta de definição do governo . Isso nos leva não apenas à perda do ano de 2005 , mas à perspectiva de uma queda ainda maior no dinamismo da economia em 2006 . Essa política de reduzir o ritmo do crescimento para obter meio por cento de resultado na inflação vai destruir os avanços que o país obteve para se livrar da armadilha que tolhe a economia brasileira desde 1995 .
Uma Dívida Líquida de 52% do PIB e uma carga tributária de 38% do Produto trabalham fortemente como fatores inibidores dos investimentos e da própria redução mais rápida da inflação . Na medida em que o Banco Central despreza a real oportunidade de reduzir os juros (como na última decisão do Copom que manteve inalterada a Selic , com o juro real subindo para 14% ao ano),enredamo-nos na armadilha que vai fazer a economia brasileira patinar mais alguns anos.
Vejo muita comemoração pelo avanço das exportações que sem dúvida é importante , mas as pessoas parecem esquecer que ele foi produzido pela desvalorização cambial de 1999 , depois de longos períodos de retrocesso, ajudado pela elevação dos preços das comodities (efeito da baixa taxa de juros internacional e da desvalorização do dólar americano) e a própria expansão do comércio mundial . O problema é que a atual política de juros altos nos empurra na direção contrária ao crescimento do nosso comércio exterior e da economia , uma repetição da tragédia de 1994/1998 .
Insisto que só vamos começar a nos libertar dessa armadilha realizando um forte movimento na direção do equilíbrio fiscal , para antecipar a necessária baixa na taxa de juro . Temos que mostrar a perspectiva real de zerar o déficit nominal , pela via do corte das despesas de custeio do Estado brasileiro que não cabe mais dentro do PIB! Acredito que voltaremos a ser um ''país normal'' , um país em crescimento, um país com a carga tributária ''normal'' , se insistirmos na solução do problema fiscal , na redução da relação Dívida/PIB e na ênfase exportadora .
Não há necessidade de insistir que esta é uma receita de difícil execução , porque é mesmo , se fosse fácil já teriam feito , mas não vejo melhor alternativa ...
ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PP-SP

mockup