ESPAÇO ABERTO
As diferenças podem ser superadas
Moacir Costa
Homens e mulheres têm muitas diferenças. Diferem nas atitudes, na maneira de pensar e agir e principalmente no comportamento sexual. Algumas mulheres contam que o companheiro chega em casa depois de um dia estafante de trabalho e consegue resumir a jornada em duas ou três frases. Elas sentem necessidade de uma conversa mais elaborada, detalhada. É por isso que respondem com uma verdadeira dissertação a como foi o seu dia?
As mulheres adoram saber das novidades, conversar, contar segredos. São características femininas, que aparecem logo na infância. Os homens, ao contrário, são de poucas palavras e não conseguem compreender o gosto feminino pela conversa afiada. Isso, às vezes, gera desentendimento entre o casal, especialmente quando a mulher cobra uma maior presença e participação. Outra queixa comum das mulheres é a falta de carinho e a desatenção com detalhes importantes, como a data de aniversário do casamento ou o dia que se conheceram. Para elas é fácil guardar a data do primeiro beijo, da primeira transa, do primeiro filme visto juntos, pois valorizam e cultivam muito os aspectos afetivos da relação.
Os homens costumam se queixar que as mulheres não se interessam muito por sexo. Dizem que não são desejados como gostariam ser e que elas raramente tomam a iniciativa. Uma avaliação nesses últimos 5 anos com 95 homens mostrou que mais da metade deles - 65% - não se sentem sexualmente desejados, principalmente aqueles que passaram dos 40 anos. Apesar de serem valorizados como pais, cidadãos e profissionais, mas não como amantes.
Muitas mulheres têm fantasias e às vezes desejo sexual, mas não procuram os seus parceiros. A iniciativa é bem mais fácil quando se tem 20, 25 anos. A mulher cinqüentona dificilmente toma a iniciativa. Ela é receptiva eroticamente, e quando estimulada chega a ter orgasmos múltiplos, mas se mostra inibida em falar que deseja sexualmente seu parceiro ou que está a fim de um encontro íntimo.
Algumas mulheres acreditam que os homens acima de 40 anos, se mostram mais desejosos depois do surgimento do Viagra há 7 anos e mais recentemente do Cialis, que garante maior vigor sexual do homem por até 36 horas. É importante lembrar que esses medicamentos melhoram o desempenho sexual especialmente quando ocorre estimulo da mulher. Nessas circunstâncias o benefício passa a ser do casal. Apesar das diferenças entre homem e mulher, elas podem ser superadas.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo e autor do livro Mulher - A conquista da liberdade do prazer (Ediouro)
n Caro leitor, caso tenha dúvidas sobre sexo ligue para 0800-770-6543 (gratuitamente), de 2ªà 6ª, das 10 às 18h. O atendimento é realizado por médico ou psicólogo. Querendo saber acesse o site: www.projetoamarbem.com.br
O choque das crenças
Marcos Antônio Lopes
Nos meados do século 18 o historiador e filósofo escocês David Hume afirmava que o fanatismo religioso era o princípio mais cego, obstinado e ingovernável capaz de atuar sobre a natureza humana. Alguns dos maiores críticos modernos do fanatismo religioso (Montaigne, Hobbes, Swift, Voltaire, Diderot) convergem na constatação de que a mente fanática se autoconcebe como agente de uma iluminação superior. Fanáticos religiosos, em diferentes épocas, se proclamaram instrumentos da revelação de uma vontade sobrenatural.
O autêntico fanático, o fanático religioso exemplar, se assim se pode referir, é o indivíduo que não percebe barreiras para a sua trajetória rumo ao triunfo de sua causa. Exemplos desta cegueira seletiva são numerosos e basta citar os homens-bomba, em Israel e no Iraque. Em sua auto-representação, tomar-se-ão por figuras modelares da virtude, segundo os princípios de sua profissão de fé. No distante século 16, o século da Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), Montaigne zombava dos inquisidores, que torturavam uma pobre velha epilética na crença de castigarem uma feiticeira possuída pelo diabo.
O espírito de proselitismo, o impulso irrefreável para promover conversões, aparece como fenômeno recorrente na história. Segundo Montesquieu, este mal passou dos antigos egípcios e judeus aos cristãos e muçulmanos de seu tempo. A demência que nasce desse espírito progride impulsionada por um eclipse total da razão humana. Ora, dizia o filósofo, aquele que deseja que eu professe a sua crença morreria feliz se se visse forçado a professar a minha. Encarnando o espírito pacifista que seria uma marca entre os intelectuais do século 18, Montesquieu afirmou que a história andava cheia de guerras de religião, e que não era a multiplicidade de religiões que ocasionava estas guerras, mas o espírito de intolerância que animava aquela crença que se acreditava dominante.
Com o advento da Reforma, católicos e protestantes eram mais hostis entre si do que em relação aos muçulmanos. Tanto assim que, no século 17, chamado a defender regiões protestantes da Europa contra a invasão dos turcos, o rei ultracatólico francês Luís 14 respondeu com sarcasmo que as Cruzadas estavam fora de moda. De lá para cá, com a secularização da política e o surgimento do Estado laico, a crença religiosa se contraiu para uma esfera que lhe é específica, e as guerras de religião escassearam. Porém, nas regiões do globo em que esse processo não se efetivou (Irã, Paquistão, Índia, por exemplo), o choque das crenças ainda arrasta as sociedades para o precipício. Como no tempo de Montaigne.
MARCOS ANTÔNIO LOPES é historiador, professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina e autor de Para ler os clássicos do pensamento político (Editora FGV)
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