Defesa sanitária animal: um alerta

Eduardo Fernandes Costa
  O Brasil é hoje o maior exportador mundial em mais de sete produtos agropecuários, como carne bovina e de aves, açúcar, laranja, café, soja e frutas, gerando um saldo na balança comercial da ordem de US$ 34 bilhões. Em 2004, o país exportou 1,939 milhão de toneladas de carne bovina, gerando receita de US$ 2,457 bilhões. No mesmo ano, foram exportadas 507 mil toneladas de carne suína que somaram US$ 774 milhões. Já as exportações de carne de frango geraram US$ 2,595 bilhões com o embarque de 2,424 milhões de toneladas. As exportações totalizaram em 2004 US$ 96,475 bilhões, e os sete produtos agropecuários citados contribuíram com aproximadamente 36% do total das exportações. O segmento carnes contribuiu com cerca de 4%: US$ 3,826 bilhões.
  No primeiro trimestre de 2005, o país exportou 224,6 mil toneladas de carne bovina que renderam US$ 470,5 milhões; as exportações de carne de frango somaram US$ 685 milhões no mesmo período (o país já ocupa 43% do mercado internacional). Essa performance deve-se principalmente a uma condição sanitária única no mundo: o Brasil consolidou-se como país nível um para risco de Encefalopatia Espongiforme Bovina (FEB), ou ‘‘Vaca Louca’’, ou seja, risco desprezível; a Influenza Aviária ou ‘‘Gripe do Frango’’ é exótica aqui; e estamos livres da Peste Suína. Há que considerar os esforços para a manutenção dos estados exportadores reconhecidamente livres da febre aftosa, mesmo com vacinação. Tais condições permitem a comercialização de carnes para mais de 150 países.
  No orçamento da União deste ano foram aprovados R$ 960 milhões para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, recursos estes contingenciados (retidos) devendo sobrar R$ 626 milhões, ou 65% do total. Destes R$ 626 milhões, R$ 212 milhões estão destinados à Embrapa, restando então, R$ 414 milhões. Para as ações da Secretaria da Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento o secretário Gabriel Maciel informou que está autorizado a gastar R$ 65 milhões. Também em recente matéria publicada, de autoria de Otávio Cançado, assessor especial do presidente da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) estão previstos, pelo governo federal, R$ 177 milhões (aproximadamente US$ 70,8 milhões) para as ações daquela secretaria, sendo que parte deste recurso foi bloqueado já no início deste ano pela equipe econômica.
  Estes dados apontam para um investimento em defesa sanitária animal, neste ano, ao equivalente a menos de 0,01% do total exportado em carnes pelo país no ano passado. É preciso preservar a saúde desta ‘‘galinha dos ovos de ouro’’. Faz-se necessário investimentos por parte do governo para que o país mantenha o status conquistado. Os investimentos anunciados para as ações de defesa sanitária são um risco não apenas para o rebanho nacional, mas para a própria balança comercial.
EDUARDO FERNANDES COSTA é médico veterinário em Londrina


A corrupção como ‘virtude’

José Mario Angeli e Jozimar Paes de Almeida
  A sociedade brasileira acompanha uma série de ações da Polícia Federal desmontando quadrilhas organizadas que roubam o dinheiro público e sonegam impostos. Se não bastasse isso, agora aparece a denúncia de corrupção dos Correios e do mensalão, envolvendo a base de sustentação do governo e o partido do Presidente (PT), dessa forma, as denuncias se aproximam do Palácio do Planalto.
  A interpretação que se faz da corrupção é que se trata de um ‘‘defeito de caráter’’ da pessoa e, que ‘‘todo mundo é igual mesmo’’ sem perceber que este fenômeno mais que moralizante e eminentemente político.
  A noção de corrupção que está sendo passada para a sociedade no atual momento político é ambígua e, por isso mesmo, ela tem sido uma das chaves na prática e na linguagem corrente. Da violação do painel eletrônico do Senado, da comissão parlamentar de inquérito dos anões do orçamento, do Banestado, dos Correios e do mensalão, ou seja, dos grandes escândalos dos órgãos governamentais, passando pelas políticas públicas, tudo tem sido alvo de corrupção. Nunca se falou tanto em ética em nossa sociedade como agora. Existem aqueles representantes que chegam a pensar na necessidade de editar um ‘‘pacote ético’’ para que o Congresso se liberte dos freqüentes escândalos.
  A corrupção tem-se mostrado como um elemento da política brasileira ainda que aparentemente isso possa parecer paradoxal, pois corrupção é quase sempre vista como desvio de normas éticas, quando o desvio passa a ser padrão, isso indica que ela é decisiva na construção do capitalismo definidor de práticas sociais na política e na sociedade, portanto ‘‘virtude’’ da classe dominante e dirigente e negadora da historicidade dos dirigidos e dominados.
  A negação política da corrupção permite reduzir a política à ética na política. Pois, assim desliza-se do campo da luta social e do conflito, para o das boas almas e do consenso na sociedade, deixando de ser a forma social dominante e o modo de produção capitalista como causadores do processo corruptível, mas a forma pelo qual esse modo é implementado: o da ordem capitalista dominadora.
  A corrupção não só é um desvio de justa conduta e, portanto, ela deva ser combatida, mas é, sobretudo, a forma ‘‘virtuosa’’ inerente à estrutura opressiva e acumulativa na sociedade que se sustenta na representação política. Neste sentido, um dos quesitos que a reforma política deverá contemplar é sem dúvida a não reeleição dos ocupantes de cargos nos órgãos executivos e legislativos em todos os seus níveis, para que minimamente ela venha a ser combatida.
JOSÉ MARIO ANGELI e JOZIMAR PAES DE ALMEIDA são, respectivamente, professores do departamento de Filosofia e de História da Universidade Estadual de Londrina


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