Por que tantos risos?

José Soares Filho
  Foi surpreendente ler a notícia de um réu que pegou seis anos de prisão após tentar matar o seu vizinho. O que impressiona neste caso, é que num país de uma justiça extremamente morosa, o réu foi julgado, condenado, está preso e tudo isso em menos de um ano. Não deveria ser motivo de surpresa ver a Justiça cumprindo o seu papel, mas será que a mesma agilidade e imparcialidade é observada no julgamento dos mais abastados deste país? Quanto demora para que um rico seja julgado e condenado?
  Vejamos o caso da Suzane Ricchthofen, acusada de participar, juntamente com namorado, do assassinato dos pais. A mesma irá responder o processo em liberdade, mas seu namorado não. O que impede que os dois tenham os mesmos direitos, não será por acaso o dinheiro? Olhem também para a tranqüilidade e jeito risonho, jocoso com que o deputado federal Roberto Jefferson (PTB) se expressa na CPI dos Correios. Será esta tranqüilidade devido ao fato deste conhecer todas as incoerências, facilidades, favorecimentos e resultados práticos da nossa Justiça ou por que há mais de 180 milhões de palhaços no salão que não sentem nem o cheiro do mensalão?
  O acusado se apresenta como que dono da situação, como que tendo o controle dos seus próprios inquiridores, como que sabendo detalhes que dão a ele os trunfos para manipular, intimidar e sair triunfante do espetáculo. Apesar de confessar abertamente os seus crimes, não está nem vermelho. Vergonha parece ser algo dispensável neste país onde tudo termina em pizza, onde as pessoas que têm dinheiro e influência, roubam, matam e depois desfilam pelas ruas livres e arrogantes com todos os direitos de um cidadão com certidão criminal negativa, como que dizendo: vocês têm que me engolir!
  Não será nenhuma surpresa se amanhã Roberto Jefferson for aclamado como candidato à presidência da República. Não é mesmo nojenta esta realidade brasileira. Enquanto formos um povo passivo que não se indigna de maneira prática com as desigualdades, continuaremos aplaudindo bandidos, rindo da própria desgraça, rindo das crianças que morrem desnutridas nas periferias deste país, porque o dinheiro que poderia ser usado para diminuir diferenças foi para a campanha de políticos miseráveis, continuaremos rindo como os ‘‘ricos’’ que não têm do que reclamar, continuaremos rindo quando deveríamos chorar, quando não deveríamos cessar de clamar por justiça. Enquanto este país continuar sendo um país cuja Justiça tenha uma visão míope quanto à igualdade de direitos, viveremos à margem das grandes civilizações, continuaremos sendo a nação medíocre que em muitos aspectos somos e além de tudo comendo banana e arrotando caviar, achando que somos o máximo porque ganhamos a Copa das Confederações em cima da Argentina.
JOSÉ SOARES FILHO é pastor batista em Jandaia do Sul


Caminhos para o caos

Carmem de Almeida da Silva
  Há uma série de facetas maldosas, além do propósito visível de desinformar a sociedade, na disseminação pela mídia, por algumas lideranças médicas, da versão segundo a qual teria sido derrubada pela Justiça a Resolução 271/202, do Conselho Federal de Enfermagem, que trata do direito conferido legalmente ao enfermeiro, especificamente em programas e rotinas de saúde, de fazer diagnósticos e prescrever medicamentos.
  Na ânsia de tornar público o lado da história que mais lhes interessava, essas lideranças divulgaram decisão adotada em instância inferior que, esta sim, viria a ser derrubada por sentença do desembargador Antônio Ezequiel, da 7ª Turma do TRF da 1ª Região, ao sustentar não só a legalidade daquelas práticas pela categoria dos enfermeiros como - sensível aos supremos interesses da sociedade - a necessidade de os enfermeiros continuarem exercitando-as.
  O que aqueles senhores, na sua paranóia corporativista, não entendem, ou fingem não entender, o magistrado deixa claro nos autos, do alto de sua clarividência: ‘‘Pelo fato de a enfermagem representar mais de 80% do efetivo que atua nos programas de saúde pública implementados até a presente data, a interrupção dos serviços oferecidos à população por essa categoria acarreta lesão à ordem administrativa, porque causa impacto na execução e no funcionamento dos programas de saúde pública dos governos federal, estadual e municipal, e conseqüentemente colocando em risco a saúde e a vida da população, tendo em vista que esses programa já existem há 15 anos’’.
  Não havendo fatos concretos que justifiquem essa restrição, é o caso de indagar qual seria o intento dos defensores dessa idéia absurda e abstrusa, além de mais uma arremetida maldosa contra membros de uma carreira honrada e trabalhadora, na busca desatinada de novas fatias do mercado.
  Qualquer que seja a resposta a essa pergunta, não será tão grave quanto o caos que iria se instalar na área de saúde se a Justiça não barrasse - como tem feito até agora - as tentativas de alguns dirigentes, dentro da própria Saúde, de impedir que a enfermagem cumpra o seu papel como defensora intransigente da causa social e um dos principais executores das políticas públicas nessa área.
CARMEM DE ALMEIDA DA SILVA é presidente do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) no Rio de Janeiro


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