ESPAÇO ABERTO
Segurança Pública: demandas e políticas
Dario Natan Bezerra
Assaltos prodigiosos, homicídios por motivos fúteis, formação de poderosas quadrilhas para operar contrabando, tráfico de drogas, seqüestros e roubo de carros e cargas têm comumente sido temas das principais manchetes dos mais destacados jornais brasileiros.
Em determinados municípios é comum a existência de áreas proibidas, controladas por facções criminosas, onde a polícia não entra pacificamente. É o ambiente onde a população envolvida por laços familiares, por amizade ou por submissão, é confundida com os marginais periféricos aos operadores do crime organizado.
A banalização noticiosa dos resultados das ações criminosas e das operações policiais, através da mídia e do julgamento leviano e demagógico levados a efeito por apresentadores de consumo, dissimula o caos que vai aumentado sua área de abrangência, atingindo gradativamente as classes sociais mais privilegiadas, sem, contudo, deslocar-se de sua origem, mantendo a classe mais empobrecida da população refém da ignorância e do medo; da exclusão social e da fúria dos órgãos encarregados de manter a ordem pública.
Às vésperas das eleições os candidatos ao Poder Executivo apregoam entusiasticamente as prioridades de seus planos de governo, quase sempre as mesmas: saúde, educação, emprego e segurança. No entanto, quando se instalam no poder, outros desafios roubam a atenção das prioridades de campanha. As discussões dos problemas relacionados com a Segurança Pública ficam relegadas aos órgãos públicos específicos, que se contrapõem aos argumentos das organizações não-governamentais (ONGs) que reivindicam melhores resultados na contenção da violência sem uso de truculência e com respeito aos direitos do cidadão com a justificativa de que o crime está muito bem organizado e suprido de tecnologia e armamento e o Estado não.
Enquanto não se equaciona uma fórmula capaz de inserir nas prioridades de governo um programa de recuperação social, que não se restrinja a aumentar o número de varas criminais, presídios, cadeias e policiais para conter a violência, tenhamos muito cuidado e paciência. Que a espera não seja eterna!
DARIO NATAN BEZERRA é major subcomandante do 3º Grupamento de Bombeiros em Londrina e pós-graduando em Ciência Política e Desenvolvimento Estratégico da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (Adesg)
Devastação da Amazônia: até quando?
Nelio Roberto dos Reis
Esta frase de Marcus Tullius Cicero, orador e cônsul romano contra Lucio Sergio Catilina, conspirador do império romano, no primeiro século após o nascimento de Cristo, revela indignação, A mesma que tenho hoje, contra a ministra do Meio Ambiente, Marina da Silva. Em dois anos (2003 e 2004), foram desmatados na Amazônia 26 mil quilômetros quadrados de floresta. Para se ter idéia da magnitude do estrago, isso representa 30% da Áustria ou 45 vezes o tamanho de Cingapura. Trazendo para dimensões paranaenses, um tamanho aproximado ao de toda a bacia do Rio Tibagi.
O que a sra. ministra fez em relação a isso? Gritou? Reclamou? Contestou? Não, ela não disse uma única palavra. Não estou querendo dizer aqui que haja desonestidade da ministra, mas sim uma terrível demonstração de despreparo para ocupar o cargo. Esse fato é imensuravelmente pior que o tal mensalão, pior do que os dólares que sr. Maluf mandou para Suíça e ainda muitas vezes pior do que a violação do Painel pelo ACM. Daqui a cem anos, ninguém se lembrará dessas falcatruas, mas todo o mundo sentirá na pele a falta da Floresta Amazônica.
Estamos alterando e destruindo os ambientes que criaram a diversidade de formas de vida por mais de um bilhão de anos. A diversidade genética é parte da herança do Homo sapiens e estamos desperdiçando rapidamente. Apesar de sua extraordinária riqueza, as florestas tropicais estão entre os ecossistemas mais frágeis do mundo. Em geral, o mundo tropical está indo na direção de uma extrema fragmentação, o que é sempre acompanhada por uma extinção em massa das espécies. Quando uma floresta é reduzida de 100 km2 para 10, acontece em média uma extinção imediata. Está provado, que quando um hábitat perde 90% da sua extensão, perderá eventualmente metade das suas espécies. Resumindo, 10 mil espécies por ano são extintas. Imaginem, 24 mil km2, o que acaba de acontecer na Amazônia?
No Paraná as matas foram destruídas sem conhecermos o que existia aqui. A ciência está descobrindo novas utilizações para a diversidade biológica que podem aliviar o sofrimento humano. Por isso, é perfeitamente possível que tenhamos destruído na Amazônia devastada uma planta que poderia ter o princípio ativo que curaria o câncer. Por que, não? Por que a ministra foi nomeada para um cargo tão importante? Até quando teremos que nos sujeitar a tão despreparados ministros?
Parodiando Shakespeare, no romance de Rei Lear, digo: O arco está tenso, apontado na direção correta, cuidado que aí vem flecha! Sinceramente, espero que a ministra receba muito mais flechas na direção da sua razão e inteligência, pegue suas malas e volte para o seu lugar de origem, pois não pode ela ser conivente ou alheia à destruição do nosso bem maior. O homem deveria tomar consciência do fato de que não tem o direito moral de conduzir à extinção uma espécie animal ou vegetal.
NELIO ROBERTO DOS REIS é professor de Ecologia naa Universidade Estadual de Londrina
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