O calor de um relacionamento amadurecido

Moacir Costa
  Por trás de uma queixa de desempenho sexual nos ‘‘cinqüentões’’ e ‘‘cinqüentonas’’ existe, com muita freqüência, uma questão difícil de ser trabalhada: o entendimento das inúmeras mudanças que aconteceram na vida do casal. Quando os dois sempre foram de pouca conversa, é comum o tempo desencadear ressentimentos que antes não existiam, fazendo com que a tristeza e a apatia se instalem entre os lençóis.
  Vendo o outro como ele é - Um dos grandes responsáveis pela falta de desejo é a expectativa que um continua a depositar no outro. Se sempre esperaram que o parceiro resolvesse todos os problemas, continuam responsabilizando-o pelas próprias insatisfações. Portanto, uma das primeiras atitudes para renovar o relacionamento amoroso, é começar a conversar, assumindo que ninguém, a não ser a própria pessoa, pode ser responsabilizada pela felicidade ou monotonia do casamento.
  Avaliando os sentimentos - Na maioria das vezes, o casal também não percebe que as dificuldades podem estar ligadas ao novo papel que passam a desempenhar na sociedade. Aposentados, ambos acham-se improdutivos e não sabem reverter às perdas que sofreram em seu próprio benefício. Ou seja, aproveitar o tempo livre para fazer o que gostam, passear, curtir novamente a possibilidade de estarem juntos sem os compromissos de um jovem casal. Também não aprenderam a tirar proveito das rugas e gordurinhas que se instalaram no corpo: provavelmente mais redondinha, a cinqüentona se esconde do marido, e este, com medo de falhar na hora H, desiste até de acariciar a companheira. Resultado: quando o casal vai para a cama, a hostilidade toma o lugar do que poderia ser uma nova forma de amar.
  Reaprendendo a namorar - Uma ótima alternativa para ativar o envolvimento e despertar a fantasia adormecida com o tempo, é assimilar as mudanças do corpo e o novo papel que a sociedade lhes impõe como sinais de amadurecimento, conquistas de uma vida bem vivida. O casal que envelhece junto tem a seu favor um dos mais valiosos tesouros: a certeza de terem conseguido superar os inevitáveis contratempos do dia-a-dia a que todo casal está exposto. De posse dessa conquista, podem estabelecer um novo tipo de relacionamento, baseado muito mais no contato afetivo, do que nas altas performances da juventude. E, com isso, descobrir uma nova forma de viver a sexualidade, de forma tão intensa e prazerosa como nos primeiros anos do casamento.
  É importante lembrar que as descobertas de novos medicamentos que facilitam o desempenho sexual, associada a abordagens psicológicas focadas na vida afetiva e sexual, tem aumentado o prazer.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta, coordenador do Projeto Amar Bem e autor do livro ‘‘Mulher – A conquista da liberdade do prazer’’ (Ediouro)


31 anos de guerra

Luiz Carlos Ferraz Manini
  Permito-me começar o presente texto com a expressão cara a Eric Hobsbawn, historiador inglês que vê entre as duas guerras mundiais um período ininterrupto de hostilidades e violência. A pertinência de discutir este assunto situa-se na presença, entre o atual mês e os que se seguem, de inumeráveis datas rememorativas dos acontecimentos que marcaram estes episódios.
  O século XX foi uma era de massacre e destruição; foi o início da era da guerra total. A guerra, até 28 de julho de 1914, significava o enfrentamento de duas ou mais nações em campos de batalhas com objetivos definidos, os quais, após uma série mais ou menos curta de agressões, podiam ser alcançados através de acordos. De 1914 a 1945, veremos a conformação de um novo tipo de conflito: a guerra que se contentava somente com a vitória total, com a aniquilação completa do adversário, e que também envolvia um esforço total, com toda a administração e a economia voltadas para os escopos de guerra.
  Tal momento é marcado pelo surgimento de ideologias que se pautavam pelo holismo, ou seja, só teriam sucesso se alcançassem o mundo todo, como a ideologia democrática, o frenesi bolchevista ou o ultradireitismo, que será o responsável por uma aliança incomum (capitalistas e comunistas se juntaram para derrotar os fascismo alemão e italiano). Surgem correntes de pensamento que identificam o mundo como separado entre povo civilizado e hordas bárbaras, e cada qual interpretará o outro na perspectiva degenerativa. Deste modo, para que o mundo civilizado triunfe, é necessário a aniquilação do inimigo.
  O que herdamos deste conflito? Houve logicamente progressos, no campo econômico e tecnológico, apesar das visíveis perdas em ambos os lados envolvidos no conflito. Mas o que se tornou natural para nós foi o exercício da violência. Esta perdeu o caráter de alternativa extrema e entrou no parâmetro de atitude normal, opção perfeitamente aceitável. O discurso surgido no pós-guerra foi não o de que os soldados que estropiavam seus inimigos o faziam por um real ódio, mas por cumprimento de obrigações. A impessoalidade da guerra tornou-os frios, tornando as vidas alheias meras estatísticas; rapazes imberbes e moças grávidas eram apenas alvos, e não mais seres humanos.
  Hoje vemos exemplos claros dessa herança, em abusos policiais, em assassinatos por desejo de receber um seguro, em brigas domésticas que terminam em queixas na delegacia. O mal tornou-se banal, e cada vez mais nos tornamos vítimas deste processo. Por isso, Hitler, Mussolini e mesmos os libertadores da Europa não devem ser esquecidos, para que tenhamos a real dimensão do que estamos nos transformando.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina


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