Alerta à sociedade

Vera Lúcia Poeiras Assunção Salle
  Qual de nós já não perdeu uma noite de sono com medo de algo ou de alguém? De um possível assalto a caminho do trabalho, da escola ou mesmo de um passeio. Quantas vidas foram interrompidas, limitadas por causa de um tiro perdido ou mesmo a propósito. Como é triste quando você escuta num noticiário ou mesmo constata por si próprio que existem pessoas passando fome, que roubam para sobreviver ou que entram no mundo do crime por não ter tido uma estrutura familiar sólida, com princípios de sobrevivência moral e espiritual.
  A cada dia mais e mais pessoas estão vivendo as conseqüências dessa triste realidade. O que está sendo feito para melhorar essa situação? Mais policiais? Mais armamento? Mais meios de segurança? Tudo isso em vão. Desenvolve-se uma armadilha, o criminoso supera isso com sua habilidade e inteligência. Criam-se presídios, vem a superlotação, a condição subumana de sobrevivência, a falta de atividades, a mente vazia; as fugas aumentam e o pavor da população também.
  Os noticiários atêm-se à maior parte do tempo a fatos aterrorizantes, com atrocidades que nos assustam. Não será a hora de revermos as nossas atitudes? Será que estamos colaborando com nossos irmãos que talvez não tiveram a nossa sorte? Quando falo de sorte, não é só a financeira, mas sim a moral, aquela que quando deitamos, não sentimos remorsos por ter agredido nosso irmão, e que mesmo não tendo todas as mordomias que a sociedade oferece, estamos felizes por sermos cristãos.
  Luta-se tanto contra os criminosos, qual o resultado positivo que tivemos até agora? Por que não lutamos junto com eles? Oferecendo nossa ajuda para trazermos ao mundo maravilhoso da decência, da dignidade, da moralidade. Por que não lutar com a base da família que é o pai e a mãe de um inocente, dando oportunidade de condições básicas de sobrevivência, para que com essa tranqüilidade consigam trabalhar em paz e trazer o sustento para a família?
  É hora de acordarmos, de nos unirmos em prol de uma realidade que está se tornando amedrontadora. Não sabemos como vão sobreviver nossos filhos e netos. Esperar por uma solução pública pode ser muito tarde. Vamos cuidar do nosso bairro, da nossa cidade, do nosso estado, do nosso país. Se pelo caminho encontrarmos pessoas que estão no poder porque confiamos nelas, vamos pedir ajuda também, caso contrário vamos arregaçar as mangas e nos unirmos como irmãos. Pedimos aos criminosos, aos desesperados, aos traficantes, aos que de alguma maneira não estão conseguindo viver de maneira digna, que nos apresentem soluções para podermos viver felizes na simplicidade da vida. Precisamos muito de vocês para conseguir um resultado positivo para todos.
VERA LÚCIA POEIRAS ASSUNÇÃO SALLE é bacharel em Psicologia e empresária em Londrina



‘Aqui mora gente feliz’

Leila Rute Oliveira Gurgel do Amaral
  Quem já não se deparou com esta frase sugerindo que a casa é o espaço onde reina felicidade e amor? Infelizmente esta não tem sido a realidade de muitas famílias brasileiras. Convivemos com crianças que são negligenciadas, desamparadas, destituídas de afetos e cuidados. Infâncias subjugadas por abusos sexuais, negligências, violências físicas e psicológicas, imperando no lar, sentimentos de ódio e rancor.
  Conforme estatísticas, estima-se que a cada minuto uma criança é agredida no Brasil (revista ‘‘Veja’’, 2000). Sabe-se contudo que os dados são subestimados, o que nos traz uma preocupação ainda maior. Discorrer sobre violência contra a criança é denunciar práticas veladas, ideologias firmadas, responsabilidades abandonadas. Talvez tal reflexão possibilite a explicação dos obstáculos encontrados em efetivar ações profiláticas mais contundentes no que concerne à violência contra a criança.
  Disciplina, obediência e limites são temas que têm despertado atualmente, grande interesse. Muitos pais perderam as referências norteadoras da educação, ficando imersos num grande conflito no que tange às práticas disciplinadoras. A realidade tem mostrado pais que, ao bater usam objetos provocando vários ferimentos, perdem o controle, violentando assim seus filhos, mas escondem-se por detrás da justificativa de que estão educando.
  Atualmente o direito ao desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social da criança está estabelecido legalmente. Dispomos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que tem como objetivo assegurar os direitos infantis. Mas o que dizer da violência psicológica, tão pouco percebida, tão pouco reconhecida? Como fazer valer este direito da criança? A violência psicológica, embora em geral acompanhe outros tipos de violência, chama-nos a atenção porque quando isolada, há uma tendência de desmerecimento de sua gravidade.
  Poderíamos resumir a violência psicológica como aquela ‘‘tortura’’ quando o adulto constantemente deprecia, ameaça, aterroriza a criança causando-lhe grande sofrimento mental. Este tipo de violência destrói da mesma forma que a violência física. As feridas podem não estar no físico, mas indubitavelmente estão no psiquismo infantil, trazendo repercussões futuras.
  Que educação estamos dando aos nossos filhos? Que tempo temos disposto para este fim? Quem serão os futuros adultos em nossa sociedade? Como estamos pensando nossas práticas educativas? Estarão elas conduzindo nossas crianças para a superação das adversidades, para buscas de estratégias ou para a insegurança e alienação?
LEILA RUTE OLIVEIRA GURGEL DO AMARAL é professora do departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade Estadual de Londrina


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