ESPAÇO ABERTO
Amnésia ideológica no PT
Jonathan Menezes
Diante dos últimos acontecimentos políticos em Brasília e dos desdobramentos nas demais instâncias do país, vislumbramos hoje uma das agitações mais ambíguas da história política brasileira. O maior paradoxo, a meu ver, está no fenômeno auto-induzido de debilitamento do Partido dos Trabalhadores, que outrora fora o maior partido de esquerda da América Latina, mas que atualmente, segundo a senadora, ex-petista, Heloísa Helena, não passa de uma ferramenta política da propaganda triunfalista do neoliberalismo.
A cúpula diretiva do PT hoje é composta por ditos ex-revolucionários de esquerda, que com uma avidez ingênua ou programática (quem sabe?), lambuzam-se e abusam do poder, de corpo e alma, abraçam a vaidade de seus interesses particulares, sobrepujam os adversários que cruzam seu caminho (eliminando ou anulando os de dentro cooptando e contemplando os de fora do partido), e cospem nos direitos estabelecidos na constituição democrática da República, como tantos outros fizeram na história. Assim, a antiga virgem imaculada, padroeira defensora da ética e dos direitos dos trabalhadores, abandona sua beatitude para aos poucos se tornar dona de uma grande e rentável máquina de prostituição.
O PT protagoniza de forma patética os antagonismos do poder capitalista combatidos fervorosamente no passado por seus mais ilustres militantes (hoje ilustres canalhas, como o ex-ministro José Dirceu) e por tantos outros anônimos que se dispersaram na massa dos 56 milhões que acreditaram em Lula, dividindo-se entre os arregimentados e amordaçados pela partilha do bolo do poder, e as minorias dissidentes do partido, que persistem na mobilização contra as ingerências governistas, lutando para preservar as bandeiras históricas idealizadas no projeto de uma esquerda socialista e democrática, que vem sendo edificado há mais de duas décadas.
Esses sonham e caminham sós, enfrentando o descrédito de suas utopias e contemplando o desinteresse geral pela política crescer, posto que o realismo tem vencido a ludibriada esperança. Têm de encarar ainda a amnésia política e ideológica da base governante de seu partido, cuja práxis faz valer a frase profética dita por Heloísa Helena dois anos atrás, antes de ser escorraçada do PT pelos mesmos companheiros com os quais lutou pela construção desse partido. Ela disse, em matéria publicada na Veja on-line (29/01/2003), que partidos nascem e morrem. Podem continuar vivos do ponto de vista legal, mas estar sepultados em sua razão de existir.
JONATHAN MENEZES é estudante de Teologia na Faculdade Teológica Sul-Americana em Londrina
Golpes às moscas
Gaudêncio Torquato
Ao denunciarem o tal golpismo das elites, fabulação criada para blindar o governo Lula, livrando-o da saraivada de escândalos de corrupção, os dirigentes do PT e agregados estão comendo mosca. Não entendem o significado de elite. O engraçado é que, além de papar o inseto, apagam da história o formulador do conceito de elite, um italiano coincidentemente de sobrenome Mosca. Vejam. Gaetano Mosca, em 1896, ensinava que todas as sociedades, das primitivas às mais cultas e fortes, possuem duas classes de pessoas: a dos governantes e a dos governados. A primeira, menos numerosa, cumpre funções públicas, monopoliza o poder e goza as vantagens inerentes a ela, enquanto a segunda, bem mais numerosa, é dirigida e regulada pela primeira, de modo mais ou menos legal, arbitrário ou violento. Complementando a idéia, mais tarde, outro pensador, Vilfredo Pareto, estendeu o conceito, falando de uma classe superior, que detém o poder político e o poder econômico, a que deu o nome de elite.
O maior poder de fogo na área política provém das armas do governo do PT, sob o comando de Lula. E a artilharia econômica sai da forja tocada pelo guerreiro Antônio Palocci, que mantém a estrutura econômico-financeira do País em ponto de estabilidade, com núcleos pra lá de satisfeitos. Conclusão: se há um golpe das elites, estaria sendo engendrado nas ilhas do arquipélago petista. Estaríamos às voltas, então, com o primeiro caso no mundo de um haraquiri político, para lembrar aquela forma de suicídio japonês em que os guerreiros rasgam o ventre à faca. É possível que, ao falarem de golpe para desestabilizar o governo popular de Lula, PT, MST, CUT, UNE, UBES e outras letras que chafurdam sobre o termo elite (até a velha ABI está dentro) tenham desejado, na verdade, atirar nos opositores que começam a fazer barulho no grande circo que se forma em torno das CPIs e do Conselho de Ética da Câmara. Se for este o caso, comem mosca mais uma vez, esquecendo que o debate, o poder crítico, a liberdade de expressão e o jogo dos contrários são a vitamina da democracia.
Não era essa a artimanha golpista que o PT usava antes de chegar ao poder central, com os refrões fora FMI, fora FHC? Estamos, pois, diante de algo que se chama caradurismo, falta de pejo. A desfaçatez é tão grande que até os meios de comunicação estão arrolados no golpismo. E, para arrematar a blindagem, o próprio presidente Luiz Inácio aparece, messiânico, fazendo a auto-apologia da ética e da moral, dizendo que nenhum governo, em toda a história da República, chegou a fazer nem 20% do que ele faz para combater a corrupção. Que coisa esdrúxula, hein?
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da Universidade de São Paulo e consultor político
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