ESPAÇO ABERTO
Um conveniente esquecimento histórico
Julio Cesar Campano Floriano
A crise da crise que leva à crise da política. A crise econômica que leva à crise social. Na bolsa de valores, a crise de hipertensos enlouquecidos com os riscos de uma crise política. Ainda tem a crise do mercado, este ser poderoso que não gosta de ser incomodado pela crise alheia, senão, crise! A crise dos ideais de uma juventude sem rumo. A crise dos intelectuais. A crise das instituições, da família, das religiões e das culturas transformadas em puras mercadorias enlatadas. A crise do trabalho. A crise de nervos.
Há quem entenda que a crise é indício de mudanças. E há quem defenda certamente, que nem sempre essas mudanças superam positivamente os antigos ideais. Quando já se tornou banal e demode insistir nas idéias de uma sociedade justa e igualitária, e justamente quando avançam silenciosamente, disfarçados de crise ou anestesia non sense todos os poderes do imobilismo, insistimos no esquecimento. Não é fácil, dizem que a crise não dá trégua. Mas se temos consciência de uma época de crise, não podemos perder a consciência da história. E esta se faz de crises, inúmeras. Mas também se faz de lutas, inúmeras. Lutas cotidianas, que não devemos separar de uma luta mais ampla, se não quisermos novamente incorrer no esquecimento da história e traição da consciência,
Para muitos, o último dia 17 de junho pode tratar-se de mais um dia, ou de um fragmento de luta. Faz dois anos que Anderson foi assassinado. Assassinado não apenas pela arrogância dos tubarões do transporte coletivo (tubarões nacionais) ou pela estupidez da Polícia Militar do Paraná e conveniência da Prefeitura Municipal de Londrina. Mas agora também foi assassinado pelo nosso esquecimento. E junto, assassinamos muitos outros Andersons que estiveram presentes, ora como coadjuvantes, ora como atores das lutas que se sucedem na história. E disfarçamos tudo isso de crise, diariamente.
Nada mais do que podemos chamar de crise de consciência, porque esquecemos da história. Não existiu apenas um Anderson que lutou. Mas Andersons na Bahia, Andersons em Floripa. Mas há Andersons que lutam nos sindicatos, nos movimentos por terra e moradia. Mas a infinidade de crises obscurece tudo isso. Sejamos corajosos. Existe apenas uma crise estrutural na sociedade. E se nós, que pretendemos ter consciência das lutas para ir além desta crise, qual for, não podemos nos esquecer: na história, todos devemos ser Andersons!
JULIO CÉSAR CAMPANO FLORIANO é sociólogo coordenador de programas Educacionais no Departamento de Educação do Trabalhador na Prefeitura Municipal de Santo André
Quem matou João Marcos?
Cláudio Marques da Silva
Os sonhos de um jovem londrinense de 19 anos foram brutalmente interrompidos há exatos dois anos. Sônia Maria, a mãe, sabe que nunca mais ouvirá a voz de seu amado e dedicado filho. O normal são os filhos sepultarem os pais e quando esta ordem é invertida de alguma maneira os pais literalmente sepultam-se junto com o filho que se foi. O mundo perde a beleza, a vida torna-se um mar de tristezas e recordações. Perder um filho no gozo de plena saúde é incompreensível, ainda mais quando o assassino se ausenta do local sem prestar socorro.
As investigações sobre a morte de João Marcos serão árduas e dificilmente se identificará o culpado. Temos pistas, mas a marca do veículo já é um dos obstáculos. Fosse um Fusca 69 ou Chevette 78 com certeza tudo seria mais fácil. Mais fácil seria ainda se, ao contrário, um jovem entregador de pizza viesse a atropelar e matar um motorista distraído que acabou descer de uma Sportage. Teria sido imediatamente preso. Embora culposo, com o apoio de nossa hipócrita sociedade arrumaríamos algum tipo de dolo.
Algumas autoridades adoram inovar em matéria de Direito quando o investigado é pobre, in dúbio, pau no réu. O coordenador-geral da Promotoria de Investigações Criminais de Curitiba ao comentar a Operação Londrina Segura afirmou que haverá investigações sérias na cidade. Em que pese a impropriedade da afirmação, uma vez que não existe ou pelo menos não deveria existir investigações sem seriedade, esclarecer a morte de João Marcos já seria fechar com chave de ouro esta operação. Dizem que o motorista é uma autoridade. Mas quem será? Não é um policial militar, nem investigador e muito menos delegado de Polícia, se fosse já estariam presos. Estes, sem correção salarial desde 1995 podem até atropelar alguém, mas usando uma lambreta ou um jegue. O veículo envolvido custa entre R$ 80 mil e R$ 120 mil.
O simples fato de algum policial ter um veículo deste já seria motivo para decretação de prisão preventiva, e que no caso de policiais pode ser solicitada via fone. Londrina, como já disse anteriormente, é de fato o centro inovador da cultura jurídica. Acredito também que esta covarde autoridade não seja um juiz. Promotor de Justiça, nem pensar. Ele é o fiscal da lei. Embora estes só possam ser investigados por seus pares, o que considero uma aberração, não acredito que seriam capazes de tamanho ato de covardia. Ora, se não é um delegado de Polícia, juiz ou promotor, quem seria esta tão covarde, abominável e insana autoridade?
Caso você tenha presenciado a cena ou saiba de algum detalhe que possa elucidar este crime não se acovarde. Pense que seu filho poderia estar no lugar de João Marcos. Aos pais da vítima posso dizer que a verdade virá à tona. Não desistam. Creio que a Promotoria de Investigações Criminais de Londrina com todo o seu efetivo considerará uma questão de honra desvendar mais este crime tão insano e covarde.
CLÁUDIO MARQUES DA SILVA é delegado de Polícia da Comarca de Nova Fátima
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