ESPAÇO ABERTO
Almocreve, flanelinha e guardador
Reinaldo Mathias Ferreira
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) no livro Memórias póstumas de Brás Cubas (capítulo XXI) tem uma passagem deliciosa em que aparece a figura do almocreve. Almocreve é palavra de origem árabe que designa a pessoa encarregada de, mediante pagamento, arrear, alimentar e conduzir animais principalmente de carga. Enfim era quem, no século XIX, cuidava dos animais de montaria para quem os quisesse deixar protegidos e saciados da sede e da fome.
Com o advento dos automóveis em número sempre crescente, desapareceu o almocreve e surgiu a figura do flanelinha: geralmente criança que, mediante gorjeta (e não cobrança), fazia rápida limpeza dos veículos parados nos semáforos ou estacionados. Tanto os almocreves quanto os flanelinhas tinham ocupação útil porque se dedicavam no trabalho de cuidar.
Os flanelinhas cresceram e, já homens feitos, viraram guardadores de carros. Estão por toda parte de dia ou de noite onde haja qualquer concentração. São autônomos: tornam-se donos de espaços públicos e muitos deles são audaciosos e violentos ao cobrarem do condutor o direito de estacionar. Com as exceções de praxe, são inúteis e não raro são arrombados ou roubados veículos sob seus cuidados. Como exercem função não regulamentada, não podem ser responsabilizados mesmo com o pagamento exigido muitas vezes antecipadamente.
Há também os guardadores oficiais, com vínculo empregatício (Zona Azul, Zona Verde, Zona Amarela - a cor muda de cidade para cidade). Estes tentam fazer o melhor que podem a preço não abusivo e com o trabalho se ocupam e colaboram com as entidades a que pertencem. Entretanto, sua função é apenas recolher o dinheiro da hora parada, renovar o cartão quando alguém desrespeita a obrigação de desocupar a vaga, orientar algum motorista na manobra. Estes, também, não têm nenhuma responsabilidade sobre o bem alheio. Por isso, em muitos lugares foram substituídos por máquinas: os famosos parquímetros. Os guardadores são mais uma restrição ao direito não só de ir e vir, mas de permanecer.
Quem precisa fazer uma consulta ou visita a um doente, ir a uma festa, a uma apresentação teatral, ao circo ou à quermesse e não quer ficar mal-humorado antes pela abordagem dos guardadores fará melhor negócio se optar por um táxi. Fazendo a conta, verá como sai menos caro, é menos perigoso, cabem quatro pessoas e ainda pode escolher o carro e/ou o motorista, além de ser atendido por profissional na hora desejada.
REINALDO MATHIAS FERREIRA é escritor e professor em Londrina
O tamanho da crise
Cristovam Buarque
Em 1992, a crise do presidente Collor ameaçava ser apenas um pequeno pé de página nos livros futuros da história do Brasil. Em 2005, a crise já ameaça capítulos inteiros: o presidente Lula e o PT, os símbolos e projetos de esquerda para o Brasil. A crise atual é muito maior do que a crise anterior, por uma simples razão: Lula é muito maior do que Collor. A primeira foi uma crise política conjuntural, a segunda é uma crise histórica, pois reduz a chance de mudanças estruturais no País.
Na origem, não há como comparar o tamanho da crise, porque Lula não é Collor, o PT não é o PRN; as pessoas que rodeiam o presidente e o governo têm história, princípios, propósitos completamente diferentes daqueles que rodeavam Collor. As conseqüências também não são comparáveis: o fracasso de Collor significava apenas o fracasso de um engodo; o fracasso de Lula significará o fracasso de uma esperança. Na origem, a crise política atual é muito menor. Em termos históricos, porém, ela é muito maior.
Por isso, a responsabilidade do próprio presidente Lula e de cada um dos líderes nacionais, do governo ou da oposição, é muito maior, do que em 1992. Se fracassarmos agora, descaracterizaremos um partido que chegou a reunir 800 mil militantes, combativos, comprometidos, com sonhos. Ameaçaremos a crença de que é possível completar a Abolição e a República, colocando no poder um representante dos antigos escravos, capaz de conduzir as mudanças que libertariam os pobres do Brasil. Destruiremos um símbolo que uniu esse partido e empolgou a população, dando-lhe esperança de que o Brasil seria capaz de avançar, de sair do eterno ciclo de república incompleta que não completa a abolição. Quebrar a barreira que separa a minoria aristocrática e privilegiada de maioria popular, excluída. Inverter as prioridades que há séculos canalizam os recursos nacionais em benefício de poucos. Transformar a sociedade para construir uma nação integrada, da qual todos se sentissem parte, sem exclusão.
Esses objetivos, que outros países souberam construir, nos foram apresentados, durante toda a nossa história, com uma utopia impossível, uma etapa postergada para algum momento no futuro distante, uma proposta demagógica para os períodos eleitorais. Por isso essa crise é tão grande, do ponto de vista de suas conseqüências históricas, embora do ponto de vista da origem, moral e política, seja menos grave do que a crise de 92.
Lula e o PT, juntamente com outros partidos de esquerda, ainda representam a possibilidade não somente de sonhar - única possibilidade deixada pela direita para os militantes de esquerda - mas também de construir o sonho. Daí nossa responsabilidade: não deixar de sonhar que ainda é possível construir o sonho. Para tanto, a crise política e moral não pode ser relegada. Ela existe, independente da realidade, porque a opinião pública perdeu a confiança no PT, e a confiança no presidente Lula já está ameaçada. A crise deve ser enfrentada com transparência, com autocrítica, com esperança. Sobretudo, com responsabilidade histórica.
CRISTOVAM BUARQUE é professor da Universidade Nacional de Brasília e senador pelo PT-DF
- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].





