ESPAÇO ABERTO
Circuito e a modernidade
José Gaspar Novelli
Nos anos 70 Londrina tinha aproximadante 300 mil habitantes. Achávamos que éramos a realização do grande projeto de desenvolvimento brasileiro. Testemunhas do progresso inexorável. A riqueza da agropecuária seria só o começo. Seríamos, no momento certo, colhidos pelos ares da indústria e daí nos aproximaríamos da fortuna de nosso grande irmão do norte: São Paulo.
Nesse contexto, convivíamos com uma figura pitoresca: o Circuito. Este era seu apelido e, provavelmente, nunca tenha encontrado uma designação tão próxima de um comportamento.
Circuito apresentava alguma disfunção neurológica que provocava sobressaltos e tremedeiras espasmódicas e regulares. Portanto, algo da perfeição mecânica do mundo para ele não funcionava poderiam ser válvulas, resistores, capacitadores. Logo, havia um detalhe que confundia nossas cabeças, e obviamente nós crianças assumíamos mais esta dúvida: como ele conseguia, em segundos, com uma simples tesoura, criar preciosidade como cirandas de meninos e meninas, castelos medievais. Algo próximo ao que Tim Burton retratou depois em Edward Mãos de Tesoura.
Não fazia sentido aparente que daquela mente não só brotasse tamanha habilidade, mas também que fosse povoada de visões tão ricas que seriam transformadas em carros, animais, jardins, pessoas. Circuito geralmente surgia nos almoços dominicais dos restaurantes da cidade. E também pontificava no aeroporto.
Era recorrente a mais óbvia e prosaica das questões: o que havia acontecido de errado com ele? As respostas vinham de todos os lados, desde os de cunho médico até as mais intimidadoras, como estudar após o almoço ou mexer com fogos de artifício. Até mesmo imputavam-lhe heranças da rosa de Hiroshima.
Circuito era a antítese do que os almoços dominicais festejavam naquele contexto. Ele confundia, não trazia lógica; ele inquietava, não apaziguava; ele criava, não reproduzia; ele provocava dúvidas, não trazia resposta. Enfim, ele nos divertia sem culpa. Circuito era uma trinca no projeto da modernidade econômica. Quase como o símbolo vivo da contracultura naquelas terras.
Talvez hoje, após a ressaca da industrialização na modernidade, com seus danos ecológicos e sociais inclusive o da busca da produtividade sem limites no ambiente de trabalho Circuito fosse reverenciado como algum reconhecimento. Circuito faz falta. Por todo o encantamento de suas alegorias, por ser portador de sonhos que se realizam e por sua vida de mascate. Felizmente havia também ele naqueles almoços de domingo. Obrigado, Circuito, depois de tantos anos!
JOSÉ GASPAR NOVELLI é bancário e londrinense radicado em Brasília
Passageiros iguais na mesma nave
Walmor Macarini
Não há inocentes nesse processo de turbulência que ora vivemos no Brasil, envolto em corrupção, em queda da qualidade moral, em violência e em misérias sociais. Nessa ebulição todos estamos passando por uma grande provação, em rota de despertamento e de purificação. Revolvendo águas imundas fazemos aflorar os organismos vivos que nelas chafurdam. Todos somos figurantes e todos somos cúmplices, ou não estaríamos nesta mesma nave que baila no espaço. Viemos para cá voluntariamente ou fomos atraídos por uma idêntica qualidade que nos unia, porque todos da mesma linhagem e ademais por laços cármicos. Cada qual no lugar em que cabe, entre as muitas moradas. Nada é por acaso.
Os homens da Terra não são nem maus nem bons, mas apenas resultado das próprias semeaduras ao longo das existências. É preciso considerar isso, ou ninguém chegará a compreensão alguma. Corruptos, tiranos, malfeitores de todos os naipes, e aqueles que reagem com idêntica ira, estão imersos na mesma energia. Tudo o que se faz com ódio e estamos vivendo numa grande arena de ódios mútuos opera na mesma consonância da energia que move os males que queremos remover. É como tentar limpar a sujeira utilizando água suja.
Isto não significa abandonar o mundo à própria sorte, mas há que mudar essa água. Esse processo deve começar em cada um. Cada indivíduo que se considere a parte sã da sociedade já foi tudo aquilo que hoje condena nesses desviados. Foi preciso aqui voltar, em condição eventualmente inversa, para resgatar débitos passados. Estamos passando pela moenda do refinamento. Pode ocorrer de repetirmos os mesmos erros, e assim a missão se alonga.
Se ingressamos na fogueira com o ódio ardendo em chamas, só iremos robustecer a temperatura. Para entender essas coisas será preciso afastar-se um pouco do furor dessas labaredas, nos colocarmos à parte e entender que fogo se combate com água e esta pode ser usada com jatos fortes, mas... será água e não fogo. Os ódios que emanam das pessoas, ante os desmandos, estão na mesma consonância da força que os perversos utilizam. Têm a mesma densidade.
Amar os inimigos, como nos ensinou um sábio mestre, não é certamente abraçá-los e dar-lhes um beijo e sim não revidar com as mesmas armas dele. Ao invés de ficarmos cuspindo fogo, qual dragões, temos de repensar como apagar esse fogaréu que nos rodeia no dia-a-dia e que vai queimando esperanças e nos aniquilando. Cada qual que faça a sua parte, e todos sabem fazê-la, bastando a resolução de deter a ira e utilizar uma mangeira de água para aplacar o fogo e não um lança-chamas. Orar e vigiar. Isto quer dizer meditar serenamente sobre as coisas e policiar a própria conduta individual.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina
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