Um mal que a mãe causa ao filho

Walmor Macarini
  É penoso para a mãe perder um filho por morte natural, por assassinato ou outra forma violenta. Mas nos casos em que a culpa é imputada a alguém que não foi punido, a busca odiosa e obstinada pela condenação envenena a atmosfera que cerca o caso e faz muito mal, sobretudo à pessoa que morreu – entenda-se a sua continuidade corpórea, onde e como se encontre. Porque nada morre e tudo vivifica, e essa forma individual de quem morreu e entra em outra dimensão passa a sofrer com o clamor de justiça que emana da mãe, parentes, amigos. Isto não lhe dá sossego e o mantém angustiado e atrelado à cena da tragédia que o vitimou.
  Se uma mãe ama de fato um filho que morreu em tais circunstâncias, deve permitir que ele suba, no sentido de que siga seu caminho na nova condição em que se encontra, porque já não é deste mundo. É doloroso o caso mostrado terça-feira neste Jornal, da mãe que vai ao local onde o filho morreu atropelado (por alguém que se desconhece, porque fugiu) e fica clamando por justiça.
  Alguém mais iluminado deveria fazer ver a esta mãe, que ostentava um cartaz dizendo que ‘‘continua procurando o assassino’’, que essa procura não é função dela. E porque o filho certamente não deseja ver a mãe terrena nessas condições, nem quer punição alguma para quem tirou a vida do corpo físico dele, mas essa revivência constante da tragédia, por parte da mãe, dificulta-lhe a elevação, porque a força mental de quem o puxa para baixo o retém acorrentado ao fato. A menos que tenha muita leveza, continuará atraído por essa corrente. A própria mãe também se retarda em sua evolução.
  ‘‘Não quero vingança, quero justiça’’, ela diz. Não faz diferença. Ela deve pensar-se sincera no que afirma, mas no fundo alimenta uma grande carga de indignação, como fica evidente pela sua manifestação e pelas palavras escritas no cartaz. O caso dessa mãe não é o único. A busca de ver na cadeia o assassino ou o motivador da morte do filho é demonstração de um mórbido desejo de vingança. A pessoa mal imagina que isto é um sal na própria ferida. É difícil para ela compreender isto se não atingiu um grau mais alto de evolução, que significa entender a razão da vida e da morte e porque certas coisas acontecem.
  De nada adiantará a quem se foi que o autor da morte esteja sofrendo no cárcere ou em liberdade. Todas as coisas encerram em si mesmas a solução natural. Certo é que esta mãe, assim agindo, está torturando o filho. Eis que ele fica cativo da dor da mãe e não se liberta, porque ela o traz freqüentemente ao local da tragédia.
  Escrevo estas linhas, como sempre faço em episódios semelhantes (e que se são constantes) com o sentido de auxiliar essa mãe. As pessoas mais esclarecidas e hábeis para essa missão precisam conversar com ela, orar por ela e lançar-lhe luzes de entendimento, para que essa carga de ira se atenue e assim ela liberte o filho e liberte a si mesma.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


Basta à hipocrisia!

José Luis de Oliveira Camargo
  Em sua edição de 12/6, a Folha de Londrina veiculou reportagem a respeito de morte de dona de casa causada por complicações de saúde que teriam necessitado de vaga em UTI. Nessa reportagem o secretário Municipal de Saúde, Silvio Fernandes, diz que o fato será apurado mediante uma série de medidas administrativas, das quais a primeira é verificar se houve ‘‘erro médico’’.
  A classe médica está cansada de ser tratada com vilã ou bode expiatório de uma política de assistência à saúde sem resultados.
  ‘‘O médico pertence a uma comunidade de profissionais que representa, pela natureza de sua atividade, pelas características do trabalho e pelas circunstâncias do atendimento, a esperança de seres humanos em obter a cura para a doença, o lenitivo para a dor, o esclarecimento da dúvida ou o simples conforto para a inquietação’’ (professor René Ariel Dotti em artigo num jornal do Estado em 21/10/2004).
  A insuficiência gerencial precisa ser assumida e, principalmente, resolvida. Necessitamos de mudanças na gestão da saúde que a leve a sair do demagógico e do popularesco; essas circunstancias têm trazido sérios riscos para a comunidade.
  O médico, ao praticar seu sagrado ato do atendimento, está a serviço da vida das pessoas e o faz apesar das más condições de trabalho, do serviço público sucateado e da má remuneração.
  Esse profissional ainda é o lenitivo, é a esperança, esclarece dúvidas e traz conforto. Mas, tem sido quase impossível trabalhar dentro dessas características, porque o fundamento para um trabalho competente não nos tem sido oferecido por quem gerencia.
  A grande maioria dos médicos consegue, executando seu trabalho, ter a consciência tranqüila do dever hipocrático cumprido. Talvez não ocorra o mesmo com aqueles a quem compete administrar com sabedoria, lisura, competência e, mesmo procurando fazê-lo, comete deslizes conceituais e interpretativos em relação à própria classe.
  O médico assume as responsabilidades civil, penal e ética inerentes a seu trabalho, mas não pode ser acusado de praticar infração culposa em função de erros, de impropriedades administrativas ou gerenciais do sistema público em que está inserido.
JOSÉ LUIS DE OLIVEIRA CAMARGO é médico em Londrina


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