ESPAÇO ABERTO
Realidade distante
Junker de Assis Grassiotto
Há muitos e muitos anos numa visita à Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, me surgiu uma imagem inesquecível: o professor Henrique Simonsen tinha do país uma visão a partir da praia de Botafogo. Assisti nos últimos dias à inauguração da Daslu em São Paulo, mais um bunker da elite, num anseio de se proteger e viver num mundo à parte, longe das ruas.
Dia 10 último compareci a um evento para conhecer e discutir a realidade política-econômica nacional. Em função da presença do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, do lado de fora alguns manifestantes expressavam opiniões sobre o governo; do lado de dentro, se reunia parte representativa da sociedade londrinense. O economista-chefe do Bradesco, brilhantemente, disse que o país ia muito bem: a dívida externa tinha sido equacionada; a dívida interna caminhava satisfatoriamente; a inflação estava controlada; as exportações propiciavam ótimos saldos; o país crescia; a crise política atual fazia parte do processo de aperfeiçoamento democrático. A platéia sorria, sem entender bem. A apresentação terminou de forma especial: alguém perguntou qual era o endereço do país abordado. Constrangimentos à parte, não vale a pena comentar a resposta.
Assisto às denúncias do mensalão e às defesas dos homens do governo, fechados em seus castelos. Cada um dos envolvidos só olha para o próprio umbigo, num salve-se quem puder. Homens como Lula, Dirceu e Genoino, esquecendo suas biografias, desprezam a história. Envolvem-se num jogo diversionista de palavras, tentando sair de foco. Me vem à mente a história daquele cineasta que precisava de uma atriz para representar uma mendiga e não encontrava ninguém com o perfil desejado. Então, escolheu uma pedinte que o encantou, vindo a fazer enorme sucesso, se consagrando. Na seqüência, a chamou de novo para outro papel semelhante e qual não foi sua frustração ao perceber que ela não servia mais às suas pretensões: tinha perdido a identidade.
Conclusões: 1) a elite brasileira continua de costas para o povo achando que ao se fechar na Daslu, nos shoppings ou nos condomínios de luxo está resolvendo seus problemas, não está; 2) os financistas olhando o país de forma míope pensam que vêem a realidade, não vêem; 3) os políticos, que chegaram ao poder por conhecer os anseios da população, mudaram. Cabe aqui profunda reflexão para não ser atropelado pelos fatos. Aliás, o que de um certo modo já vem acontecendo em função do desalento, aumento da miséria e, conseqüentemente, da criminalidade. A frustração venceu?
JUNKER DE ASSIS GRASSIOTTO é engenheiro civil em Londrina, doutor em arquitetura e urbanismo e presidente do Sinduscon-Norte
Dia do Meio Ambiente deve ser comemorado?
Henrique Leite Chaves
No último dia 5 de junho foi comemorado o Dia Mundial do Meio Ambiente. Será que esse dia deveria ser comemorado? Em toda a nossa história o meio ambiente nunca esteve tão ameaçado e cobrando de nós a fatura da destruição.
Até meados do século XIX, a população e as tecnologias disponíveis permitiam que o meio ambiente suportasse intervenções como desmatamentos ou queimadas. Com a revolução industrial e a explosão demográfica, os ecossistemas foram seriamente ameaçados. Agora o planeta responde com sintomas cada vez mais evidentes, como o efeito estufa que, a grosso modo, poderia ser comparado à uma febre. O problema é que esta, ao invés de depurar o organismo, provoca conseqüências cada vez mais nefastas para todos.
Só depois que cientistas diagnosticaram mudanças climáticas, o mundo passou a se conscientizar sobre a necessidade de mudar as formas de produção e consumo; e protocolos e acordos globais foram firmados, como o de Kyoto. Será que as iniciativas preconizadas serão suficientes para reverter a situação?
No Brasil, a questão ambiental se torna um dilema: como conciliar, por exemplo, o desenvolvimento dos estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste com a necessidade de preservar os ecossistemas ainda intocados? Com certeza, não será com leis draconianas que a sustentabilidade será atingida.
O Brasil, considerado o estereótipo mundial do país devastador de florestas, vem dando exemplos importantes de desenvolvimento sustentável, como a criação, dentro do Protocolo de Kyoto, do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo-MDL, proposta originalmente brasileira que prevê incentivos financeiros para redução das emissões de gases estufa, bem como do seqüestro de carbono. Além disso, a agricultura brasileira vem ganhando seguidas batalhas na OMC contra os países desenvolvidos, se tornando cada vez mais ambientalmente correta. Há 20 anos, os 45 milhões de hectares plantados produziam 800 milhões de toneladas de sedimento, que iam parar nos rios e reservatórios, dando um prejuízo anual de US$ 1 bilhão ao Brasil. Hoje, em 25 milhões de hectares é usado o plantio direto, que reduz em até 90% a erosão do solo, além de permitir um seqüestro de carbono de 0,7 toneladas por hectare, anualmente, contribuindo para a redução do efeito estufa.
Mas, não basta apenas fazer a coisa certa. Para que haja qualquer compensação ao produtor rural, o processo deve ser certificado. Este é o caminho inexorável para o desenvolvimento: produção econômica, social e ambientalmente sustentável, devidamente certificada. Várias iniciativas louváveis já estão sendo tomadas no Brasil e nos fazem vislumbrar uma pequena luz no fim do túnel.
HENRIQUE LEITE CHAVES é engenheiro agrônomo em Londrina e assessor da Agência Nacional de Águas
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