ESPAÇO ABERTO
Londrina x Joinville
Christian Steagall-Condé
São Paulo não pode parar. Esse foi o slogan desenvolvimentista repetido por décadas num passado não muito distante pela capital industrial de nosso ilustre estado vizinho (de quem nos desmembramos há muito).
O resultado desse ufanismo deslumbrado, inconseqüente e pueril é um megacarcinoma urbano, um monstro gigantesco de cem quilômetros lineares de área construída contínua, engolfando recursos naturais, destruindo potenciais paisagísticos e drenando cenários de águas límpidas, sem limites visíveis. Aliás, como convém a um gigante estúpido como o que a bela (se procurarmos ali pelo seu centro) Paulicéia Desvairada se tornou. Mas, afinal, alguém tinha mesmo que ser a locomotiva desse país.
Ficarmos em quarto ou quinto lugar, quer seja para Joinville ou Peabiru, é café pequeno. Se o preço do progresso for esse mar de profundas besteiras que estamos nos afundando, de flanelinhas ameaçadores, tão absolutamente inúteis quanto preocupantemente perigosos, à falta sistemática de lazer gratuito e entretenimento para nossos co-habitantes menos favorecidos pela cultura, dinheiro ou ambos.
É mais do que na hora de reunirmos esforços, corações, mentes e inteligências no debruçar de nosso plano diretor, grão de areia no deserto de idéias que estamos atolados, inclusive com o apoio dos vereadores, sempre tão populares e, historicamente, com mandatos tão duráveis como pãezinhos quentes de nossas padarias.
Menos é mais, já ensinava um dos maiores arquitetos do mundo. Resta saber se poderemos fazer muito mais, com os muito menos que ainda temos que carregar nas costas via pagamento de impostos pornográficos, tendo que arcar acumulativamente com os estudos de nossos filhos, manutenção das estradas, da segurança de nossas próprias vidas, empresas e patrimônios, do silêncio sempre quebrado de nossas noites, de um trânsito que alimenta funerárias seriais e dos salários imperiais de um bando de desacreditados inúteis que mal sobreviveriam com seus próprios argumentos caso fossem empregados num simpático botequim de vila.
CHRISTIAN STEAGALL-CONDÉ é arquiteto em Londrina
Hegemonia da mídia impressa
Omar Taha
Os recentes acontecimentos ligados à denúncia de corrupção no Congresso Nacional e a grande repercussão obtida com a divulgação dos fatos mencionados, culminando inclusive com a demissão do primeiro-ministro, digo Chefe da Casa Civil, José Dirceu, ensejam a volta de uma discussão quer já se tornou cíclica nos meios da imprensa.
Trata-se das conseqüências do poder da mídia em termos gerais, ressaltando-se neste texto a aprente hegemonia da mídia impressa em relação às outras. O fato merece reanálise na medida em que o propalado crescimento de outras mídias - dentre estas a mídia web - e a possível obsolescência pela qual passaria a se verificar nos canais de comunicação que se utilizam de veículos impressos não ocorreu.
Ao contrário....Todos os principais fatos relacionados à disputa de poder político no Planalto e Congresso Nacional têm sido veiculados prioritariamente, de forma incisiva e com grande repercussão, através da mídia impressa. A força da mídia impressa pode ser atestada nos episódios recentes tanto pelo poder de investigação, trabalho nos textos, pesquisas detalhadas, abrangência e ilustração das matérias, além de tratamento analítico primoroso. Um trabalho de grande rigor profissional.
Destaque-se, dentre as mídias impressas o papel das revistas semanais, surpreendentemente ou não para alguns, fazendo a pauta de praticamente todos outros meios de comunicação, há alguns meses - anos talvez.
Alguns elementos podem explicar esta vertente, além da própria qualidade técnica dos produtos envolvidos que passaram por evolução significativa nos últimos anos, estruturando suas redações e buscando no mercado excelentes profissionais, aprimorando a qualidade gráfica dos seus produtos e, a característica inusitada dos próprios atores deste processo buscarem estes veículos para divulgarem suas denúncias.
É óbvio que existe uma discussão ética sobre a possível instrumentalização destes veículos para se obter determinados resultados políticos e/ou empresariais e isso não passa despercebido pelos grupos de leitores cada vez mais críticos, reflexivos e participativos.
Pode-se questionar neste momento: por que o deputado foi buscar, por exemplo, a Folha de S.Paulo e não o jornalismo do Terra ou a TV Band para fazer suas denúncias ? Por que raramente a mídia internet, tão ágil, tão veloz, fura as outras mídias, a não ser como espelho das redações de jornais e revistas, mesmo assim com repercussão infinitamente menor?
Em discussão o papel hegemônico da mídia impressa, particularmente as revistas semanais, como formadora de opinião e catalisadora de informações vitais para o processo político no País.
OMAR TAHA é médico e empresário em Londrina
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