Conversa: o melhor remédio

Moacir Costa
  A comunicação é um dos principais pilares de sustentação de um relacionamento. Sem conversa, sem troca, sem atenção, não há chance de formar boa parceria. Muitos casamentos terminam por causa disso. O casal começa a ter problemas, mas ao invés de tentar resolvê-los, se fecha ainda mais. Começam as agressões mútuas, as farpas, as ironias. Quando a mágoa e o ressentimento se instalam, o silêncio que impera é incômodo e pesado; às vezes, a hostilidade e a raiva são descarregadas.
  O melhor caminho é tentar resolver os problemas, assim que eles surgirem. Sem jogar poeira para baixo do tapete, fica mais fácil manter limpa e esclarecida a relação. É claro que existem períodos em que um ou outro, por razões como o estresse ou algum outro problema emocional, estão mais fechados para o diálogo. É importante compreender que se trata de uma fase passageira e depois tentar novamente a aproximação para uma conversa franca.
  Complicado é querer conversar sobre questões mais íntimas com o(a) parceiro(a) que acaba de chegar do trabalho ou está assistindo TV. Melhor esperar uma oportunidade mais apropriada, para que o(a) outro(a) não se irrite ou se feche ainda mais.
  A boa conversa é um hábito a ser trabalhado diariamente, depende de treinamento e aprendizado. Para aquele casal que só sabe falar dos filhos, é a oportunidade de procurar motivações em leituras, filmes, saídas a dois, para resgatar os interesses do início do namoro, a cumplicidade e as vibrações que sempre tiveram em comum.
  O casal que ainda não tem filhos e que só fala do trabalho também deve ficar de olho no universo mais íntimo. Carreira é importante, mas não é tudo. Por que não discutir os sonhos, as aspirações, por que não planejar juntos metas e passos em outras esferas da vida?
  Vale lembrar que a comunicação não é apenas verbal. Um gesto de carinho, um olhar significativo, um sorriso aberto valem às vezes mais do que mil palavras.
  Quando o casal consegue conversar também com o corpo através do toque, da postura mais receptiva; além de manter um diálogo rico e construtivo, as chances de se manterem felizes são muito maiores.
  A conversa franca, carregada de compreensão e afeto é um bom aditivo para restabelecer o desejo adormecido.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo, coordenador do Projeto Amar Bem e autor do livro ‘‘Mulher - A conquista da liberdade do prazer’’ - Ediouro.
n Caro leitor, caso tenha dúvidas sobre sexo ligue para 0800-770-6543, de 2ªà 6ª, das 10 às 18 horas. O atendimento é realizado por médico ou psicólogo. Querendo saber mais acesse o site: www.projetoamarbem.com.br.


A Igreja é mãe. Que mãe?

Mary Neide Damico Figueiró
  No mês de maio, um jornal publicou uma entrevista com um padre, na qual a repórter perguntava como ele vê a questão de que, segundo pesquisa, a grande maioria dos católicos brasileiros declarou que não segue a orientação da Igreja quanto ao uso de anticoncepcionais e de preservativos. Sua resposta foi: ‘‘Encaro com muita tranqüilidade. A missão da Igreja não é falar o que as pessoas querem ouvir. A Igreja é mãe e mestra, e assim sendo, tem que falar tudo o que deve ser falado. Um pai ou uma mãe nem sempre consegue agradar os filhos em tudo, mas nem por isso vai deixar de dizer o que tem de ser dito. A Igreja fala, se os filhos obedecem ou não, é problema de cada um’’.
  Fazem sentido todas estas afirmações, principalmente, a de que ‘‘um pai ou uma mãe nem sempre consegue agradar os filhos em tudo, mas nem por isso vai deixar de dizer o que tem de ser dito’’. Pode-se dizer que aí está uma verdade incontestável. O posicionamento assumido pelo padre pode ser válido para várias situações, porém, infelizmente, quando se trata das questões ligadas à vivência da sexualidade, as palavras ditas por ele conduzem a uma visão deturpada do papel da mãe e do pai.
  Uma boa mãe ou um bom pai é aquele que olha para seu filho e filha vendo-os como uma pessoa que também tem capacidade para pensar e formar opinião e por isso, ao invés de simplesmente falar, ditar o que deve ou não ser feito, dispõe-se a ouvir, a dialogar, a possibilitar que seu(sua) filho(a) assuma-se como uma pessoa por inteiro, afetiva e intelectualmente. Crianças e o jovens precisam, sim, de um educador amoroso e sensato que faça a mediação com o mundo. Pessoas autônomas moralmente são aquelas que aprendem a tomar decisões pautadas em valores que conseguem elaborar por si próprias, através do diálogo com os adultos, do pensar e do olhar crítico para o mundo e não, simplesmente, agem de acordo com o que os outros lhe ditam para fazer.
  As crianças tendem a ver o pai e a mãe como pessoas perfeitas, que sabem tudo e que nunca erram. Quando vão crescendo, descobrem que isto não é verdade e é muito saudável que o descubram, pois só assim terão condições de também tornarem-se adultos saudáveis. E, vendo a questão por outro lado, um filho ou filha, se souber questionar, com sua mãe ou pai (ou com sua própria Igreja-mãe), as regras que tentam lhe passar, ao invés de seguir obedientemente e sem pensar, pode ajudá-los a rever seus posicionamentos, a ressignificar as vivências e a acompanhar o mundo em mudança. Aí está uma relação de amor de via dupla. Penso que precisamos de uma Igreja mãe e mestra que não apenas fale, mas que esteja aberta ao diálogo.
MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ é psicóloga e professora do departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina


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