Rezemos um pai-nosso

Gaudêncio Torquato
  A máscara caiu por completo. O PT, após as denúncias feitas pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson, de que pagava um ‘‘mensalão’’ de R$ 30 mil a deputados do PL e do PP, está indo para o banco dos réus. Não há como negar as evidências. Já soma mais de 50 o número de pessoas - incluindo o presidente Lula, o governador Marconi Perillo, de Goiás, parlamentares e pelo menos cinco ministros de Estado - que teria conhecimento da engenharia financeira montada pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares, para cooptar votos na Câmara. A questão a ser investigada, seja na CPI dos Correios ou noutra, terá como escopo o modus faciendi da operação, na medida em que o fato, em si, está assinalado no conjunto declaratório de fontes múltiplas. O ditado popular arremata a conclusão: onde há fumaça, há fogo.
  O ‘‘dilúvio’’ que se abate sobre o Partido dos Trabalhadores (soa mal) joga lama no corpo parlamentar, ao arrastá-lo para uma lavagem de roupa suja e exibir aos olhos da opinião pública uma teia de negócios escusos, que acabará maculando a imagem da instituição política. Péssimo para o PT, ruim para os políticos, um dano à democracia representativa. É incrível, porém verdadeiro. A sigla que, por anos a fio, cristalizou o ideário da ética e da moral, da justiça e da cidadania, começa a ser confundida com o preceito tão execrado na política como o voto de permuta, o do ut des (apoio político em troca de dinheiro), que o velho Bobbio considerava uma das maiores pragas da democracia. O depoimento de Roberto Jefferson no Conselho de Ética foi devastador. Este mesmo deputado recebeu um cheque em branco do presidente Lula.
  Outro sofisma petista é incutir a idéia de que ‘‘quem faz o mal são os outros’’. O PT só faz o bem. Lembra a pergunta feita por Carl Jung a um rei africano sobre a diferença entre o bem e o mal. Às gargalhadas, o soba respondeu: ‘‘Quando roubo as mulheres de meu inimigo, isso é bom. Quando me rouba ele as minhas, isso é mau.’’ Ou, ainda, a questão exposta por Alexander von Humboldt a índios da Amazônia para não comerem os colegas. Os índios responderam: ‘‘O senhor tem razão. Não podemos compreender que mal há nisso, pois os homens que comemos não são nossos parentes.’’ Esse duplo padrão ético, apontado pelo magistral intérprete do ethos nacional, o embaixador Meira Penna, continua a guiar o PT. Quem faz mal ao governo Lula? São os outros, que não são seus parentes, na visão do PT.
  As denúncias de Jefferson sobre corrupção por parte do PT são até mais graves que a acusação do propinoduto dos tempos de Collor, feita por seu irmão Pedro. Ali, os dutos ligavam o bolso privado ao cofre público. Aqui, os túneis ligam bolsos e cofres em fluxos diversos. Por enquanto, são apenas denúncias. E se forem comprovadas? O que se há de fazer? O que fará a Câmara? Condenará o presidente do PTB? Cassará os parlamentares que receberam o ‘‘mensalão’’?
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da Universidade de São Paulo e consultor político


Londrina e a Sanepar

Luiz Eduardo Cheida
  A Prefeitura de Londrina não precisa comprar uma frota de ônibus e contratar um exército de motoristas para acontecer o transporte coletivo. Também não é necessário investir em caminhões e garis, afim de que a coleta do lixo ocorra.
  Mas, nas duas situações, é fundamental que a gestão seja da prefeitura. Para esse e outros serviços similares, criei a CMTU quando fui prefeito.
  O município não precisa executar serviços que estejam disponíveis no mercado, desde que estabeleça regras e exerça controle. É imperativo que a gestão pública sobre eles seja garantida. O mesmo ocorre com a Sanepar.
  Há 30 anos, o prefeito José Richa e a Câmara de Vereadores entenderam que o valoroso SAS deveria dar lugar a uma estatal similar. Isso ocorreu por inúmeras razões, dentre elas, a constatação de que a cidade não dispunha de tecnologia nem recursos para isso. Após três décadas, a situação é a mesma.
  Eu mesmo, ainda como prefeito, quis sanear a região em que mais morriam londrinenses por doenças infecciosas e parasitárias. O município não dispunha de recursos. As pessoas continuavam a morrer. No fim, construí 60 quilômetros de esgoto (distância de Londrina a Cornélio Procópio) ao obter UU$ 5 milhões do Banco Mundial. A cidade não tinha recursos. O Estado não queria investir. As pessoas iam continuar morrendo.
  Hoje, R$ 350 milhões é de que precisamos para obter 80% de esgoto tratado. A cidade não tem. Mas, a Sanepar, atualmente investindo aqui R$ 50 milhões e mantendo 21 mil cidadãos em tarifa subsidiada, tem e quer investir. Vamos dizer não?
  Temos que dizer sim. Estamos tratando com aquela que é considerada, em toda a América Latina, a melhor empresa pública do setor. Mais que isso: depois de corajosamente retomada dos que a pretenderam privatizada, uma empresa verdadeiramente pública.
  Assim mesmo, insisto: o município, em um futuro contrato de concessão, deve delegar a execução e manter a gestão dos serviços. Isso equivale, através da CMTU, ditar a tarifa de água, sinalizar os planos de expansão, resolver as eternas ligações clandestinas que maltratam nossos mananciais e investir em ações ambientais urgentes.
  Com certeza, a Câmara de Vereadores e o Executivo terão esta sensibilidade.
LUIZ EDUARDO CHEIDA é secretário de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos


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