ESPAÇO ABERTO
Nem paraísos, nem artificiais
Edcesar Vicente Leite
Gostaria de manifestar minha posição contra algumas concepções demonstradas pelo estudante de Teologia Jonathan Menezes no artigo Paraísos artificiais, publicado neste Jornal (15/6).
Gostaria de entender por que tanta discriminação por parte dele e de muitos outros sociólogos contra os moradores em condomínios fechados? Em que estes são responsáveis pela criminalidade, violência e injustiça social? Seriam eles bandidos, autoridades corruptas ou ladrões do dinheiro público que se escondem em tais paraísos?
Acredito que nem todos são conscientes e honestos e muitos são alienados, porém em proporção não muito diferente daqueles que moram em favelas, cortiços ou bairros mais humildes. Aliás são nestes mesmos condomínios que residem as mentes pensantes deste país, a maioria dos juízes e delegados que trata com respeito e dignidade a Justiça da nossa cidade, os honrados professores de nossas universidades, os grandes profissionais liberais que auxiliam em muito o desenvolvimento da ciência, tecnologia e cultura, trabalhos estes que são significativos para os menos favorecidos.
Também nestes condomínios residem os que auxiliam voluntariamente as comunidades carentes, os envolvidos com obras e projetos beneficentes, os misericordiosos de coração, os que mantêm creches e outras instituições por pura responsabilidade social e amor cristão. Estes paraísos artificiais na maioria das vezes são na realidade parecidos com paraísos, mas longe de serem artificiais. Não conheço nenhum morador deste paraíso que se ache enclausurado, prisioneiro ou infeliz.
Com relação à filosofia do eles que se matem, acho uma colocação muito infeliz, preconceituosa e pouco embasada, já que não podemos e nem devemos rotular e impor a estes moradores uma imagem de injustos, desprovidos de compaixão, ignorantes e alienados. Também não vejo mal algum procurar ascensão social, classificado pejorativamente pelo colega como anseio de ser elite. Sabemos que este anseio, vaidoso e medíocre, existe em todas as classes sociais e também não pode ser generalizado dentro de uma só classe.
Chamar também de apartheid social tal situação não é só radical e extremista quanto fora de contexto e preconceituoso. O combate à criminalidade, violência e injustiça social provém da mobilização de um povo, cada um com suas capacitações, agindo com dignidade e caráter, exigindo do poder público seus deveres, independente de classe social ou de onde o indivíduo more. A transformação da sociedade ocorre quando nos mobilizamos, saímos da situação de conforto e agimos com compaixão frente ao nosso semelhante, sem perdermos tempo com críticas superficiais e atuando efetivamente para que a mudança ocorra.
EDCESAR VICENTE LEITE é médico do Trabalho em Londrina
O ensino pode ser mercadoria?
Eloir Martins Valença
Neste momento em que o ensino superior volta a ser debatido com tanta veemência, gostaríamos de trazer a discussão de um problema, que embora de caráter nacional, se vê exacerbado em nossa cidade: docentes de instituições particulares de ensino superior vêm sendo demitidos pela simples razão de portarem títulos de doutorado ou mestrado. Isto não seria uma contradição visto que a formação em nível de pós-graduação ser o que prepara o professor universitário para exercer suas funções, fazendo portanto a diferença? Estas instituições não deveriam valorizar estes profissionais ao invés de demiti-los?
Esta questão está diretamente vinculada à qualidade do ensino superior. Se o objetivo das universidades for simplesmente fornecer diplomas para que médicos, dentistas, engenheiros, professores e outros profissionais se licenciem para exercer suas atividades, então pouco importa a qualidade de ensino que oferecem. Mas cabe aqui uma pergunta: você iria a um médico mal formado e desatualizado? O que define, afinal, a qualidade no ensino superior?
Leis brasileiras definem que a competência de uma instituição de ensino superior para formar profissionais qualificados está diretamente vinculada à sua própria competência para fazer pesquisa e extensão, pois esta é a única maneira de formar profissionais atualizados, críticos e comprometidos com a sua realidade social.
Mas quais os motivos que levariam as instituições privadas locais demitirem seus docentes qualificados? A razão, infelizmente, é uma só: elas estariam se conduzindo apenas como uma empresa. Assim seu objetivo maior é o lucro e esses docentes acabam custando mais caro à instituição. Eles são mantidos somente até o reconhecimento dos cursos pelo MEC e, em seguida, descartados. Ressalte-se ainda que esses doutores e mestres, se qualificaram enquanto atuavam em instituições públicas e, assim sendo, a sua qualificação não custou sequer um tostão à instituição privada.
O MEC, ao apresentar o seu projeto de reforma universitária, justifica que é preciso reformar a universidade para impedir a mercantilização do ensino superior e também para garantir a qualidade desse nível de ensino. Londrina que se orgulha de ser um centro de excelência de ensino superior, deve estar atenta aos fatos que ora denunciamos, sob a pena de, a médio e longo prazo, ser criticada pela má qualidade de suas instituições de ensino superior particulares. A educação somente é a mola propulsora do desenvolvimento de uma cidade/estado/país quando ela não é tratada como mercadoria ou simples objeto de lucro. Fiquemos sempre atentos!
ELOIR MARTINS VALENÇA é presidente do Sindicato dos Professores das Escolas Particulares de Londrina e Norte do Paraná (Sinpro)
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