A mãe é sempre a culpada

Cássia Maria Carloto
  Em reportagem deste jornal sobre o debate que discutiu a violência entre menores, novamente vemos repetida uma fala que já quase se tornou um mantra, quando analisamos os problemas sociais. A culpa é da família, e esta só tem a presença da mãe, porque só ela é sempre citada.
  Os processos de educação e de socialização, aqueles pelos quais os indivíduos aprendem e apreendem o mundo não se realizam apenas a partir da presença, do comportamento e das falas da figura materna. Não é porque muitas vezes a mulher/mãe está mais presente fisicamente e afetivamente, que ela se torna a responsável por tudo que a criança se torna quando adulta.
  As relações sociais que configuram nossa formação incluem outros elementos e instituições que produzem essa socialização. Outra questão é de que família se fala, o que é uma família desestruturada? A família não é uma formação ou produção da natureza. É uma construção histórica e, ao longo da história, sempre existiram vários arranjos familiares.
  Parece que o modelo que existe (nas cabeças e não na realidade), é o padrão propaganda de margarina, com papai saindo para trabalhar e mamãe arrumada logo cedo, sorridente e feliz cuidando de seus filhinhos (um menino e uma menina, claro que brancos). Outro mito é que as mulheres se inseriram no mercado de trabalho há pouco, prejudicando a família. De novo, pergunto: de que mulher se está falando?
  As pesquisas mostram que as mulheres pobres, sempre trabalharam e nos trabalhos mais precários e mal pagos. Na libertação dos escravos, foram as primeiras a irem para as ruas vender quitutes, lavar e passar roupas. No processo de industrialização foram as primeiras a serem exploradas nas fábricas.
  Depois de anos discutindo nos esquecemos de perguntar não só o que a família pode fazer pelas crianças e adolescentes, mas o que as políticas públicas podem fazer pelas mulheres, homens, adultos e crianças para não produzirmos um mundo violento? Por que não investimos em equipamentos sociais como creches de 0 a 6 anos em período integral para todas as crianças? Por que não falamos em ensino fundamental em período integral com atividades de apoio escolar, esportes, artes? Por que não falamos em lazer em todas as regiões da cidade, com cinema, teatro, esporte? Por que não falamos em direito ao trabalho com salário digno e jornadas dignas para mulheres e homens?
  Acho que é fácil culpar a família porque é bem mais difícil responder estas perguntas e atuar e implementar estas ações. Está sendo desencadeada em âmbito nacional uma luta por creche. Um direito básico e que tem uma repercussão imensa na boa educação das crianças e na prevenção da violência.
CÁSSIA MARIA CARLOTO é professora do departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Londrina


Honestidade começa em cada um

Walmor Macarini

  As pessoas não desejam propriamente que os corruptos se convertam em honestos, mas sim vê-los na cadeia. Também não querem, como condição primeira, que o dinheiro público subtraído seja devolvido e sim que os culpados sejam levados para atrás das grades. Há uma espécie de prazer mórbido em ver o acusado (de qualquer delito) sofrer na masmorra ou cair em desgraça. Isso se irradia e alimenta práticas do gênero, porque é uma força da mesma qualidade.
  Pais, escola, igreja, não cultuam muito o ensinamento da honestidade aos adolescentes, direcionando-os mais para o sentido de que o mundo é um cenário de competição e que os mais espertos vencem. Há uma certa cultura nesse rumo. O jeitinho brasileiro, que pode ser benéfico para muitas situações, também incursiona por caminhos da desonestidade, pequena que seja.
  Quem comete um pequeno delito é capaz de cometer um grande. Se encontramos na rua um real e o deixamos lá, e todos os que não são donos desse dinheiro fizerem o mesmo, aquele que o perdeu voltará à trilha por onde passou e o recuperará. Ninguém acredita que isso possa ocorrer, pelo simples fato de que ninguém que veja um real no chão, que é propriedade alheia, deixe de apropriar-se dele.
  Por isso que os governantes corruptos e outros ladrões do dinheiro dos outros são assim, eis que egressos desse meio. Se a sociedade pratica atos desonestos, gerará homens públicos iguais, empresários iguais, trabalhadores iguais, assim como todo um conjunto social idêntico. Chupar um grão de uva no interior do supermercado não deixa de ser um roubo, embora de baixa densidade. Não importa se o estabelecimento também rouba o freguês em forma de lucros e juros abusivos. Cada qual que faça bem feita a sua parte, porque para modificar uma nação há que começar em cada indivíduo.
  Quando o guarda nos pede propina para acobertar alguma infração, comete um ato corrupto, e se a concedemos somos corruptos iguais. Se todos se recusarem a pagar, momento chegará em que não haverá mais guarda corrompido, e assim por diante. Todos têm uma porção de desonestidade, a começar das pequenas mentiras de cada dia, e se mais delitos não cometem não é por consciência senão por receio de serem descobertos.
  Sim, existem aqueles que são legitimamente honestos. Estes formam a legião dos que pedem licença até à planta ao arrancar-lhe uma folha para fazer um chá. Sem dúvida, estes serão os salvadores do mundo, pelo que irão irradiando como exemplo, até que todos sejam iguais. Melhor então do que ficar praguejando os corruptos é tirar da mente esse lixo e começar a visuá-los melhorando-se, ao tempo em que cada um de nós deverá buscar melhorar-se e assim ir aumentando essa corrente. O admirável mundo novo que todos almejam começa por aí.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


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