Namoro não tem idade

Moacir Costa
  Há quem acredite que beijos fogosos são reservados apenas aos casais jovens, que abraços apertados não ocorrem entre os mais velhos, que sexo, então, é um tema distante, algo que não faz parte da vida de quem tem mais que 50 anos...
Ledo engano. O namoro não tem idade, regras, preconceitos ou limites. O namoro é a livre expressão do amor, é a alegria compartilhada a dois, com risos, carinhos, convivência, troca, conversa e parceria.
  Namorar é isso: sair de mãos dadas pela rua, encontrar-se na porta do cinema, caminhar juntos na praia, dançar até cansar, beijar muito, fazer um jantar à luz de velas, preparar o quarto como um refúgio romântico e o banho como uma sessão de aromas e prazeres, fazer sexo, dormir abraçado...Infelizmente, muitos casais, mesmo com pouco tempo de vida em comum, 3 a 5 anos, têm o relacionamento afetado por falta de vibração, carinho e intimidade. Existem outros casais que passam por isso apenas depois de 20, 30 anos de convivência e uma minoria vai adiante, com boa química e companheirismo.
O quadro é típico: os dois pouco conversam, preferem ficar em sofás separados para assistir tevê, beijam-se pouco ou raramente trocam carinhos. Em restaurantes ou bares, se mantêm calados e distantes, ainda que estejam um do lado do outro. Esta falta de vibração e sintonia vai esfriando o relacionamento e a vida sexual, deixando o casamento a um passo do fim. O que fazer quando a intimidade acaba e a monotonia e a indiferença tomam conta do relacionamento? É fundamental que o casal não se acomode nessa situação e passe a conversar mais para buscar as raízes dessa falta de vibração. A partir daí poderão surgir novas idéias ou propostas para aquecer a relação.
  Enfim, tudo que seja capaz de alimentar o desgastado relacionamento é válido, fazendo com que o prazer de estar na companhia do outro reacenda a alegria e torne o sexo mais vibrante. Quando o homem apresenta insegurança sexual e falhas de ereção, pode ser de grande ajuda o tratamento com medicamentos específicos para esse fim, como o Cialis, que restaura a potência sexual. Mas, quando todas essas tentativas não dão resultado e o que se tem é um relacionamento desgastado e infeliz, às vezes a melhor opção é o casal buscar ajuda psicológica para entender a extensão do problema e visualizar o melhor caminho para a reaproximação ou a separação.
  É bom lembrar que casais que namoram, tenham eles quaisquer idades, atravessam crises e passam por problemas, mas não sucumbem às dificuldades. O olhar cúmplice e a palavra amiga são maiores do que os conflitos. O sexo pode ter seus altos e baixos, até mesmo depois de um período de mudanças, mas até isso é visto com humor e otimismo. Isso tudo não tem idade, nem padrão, nem fórmula. Cada um deve achar a sua receita. O importante mesmo é namorar e curtir cada momento de alegria e prazer com quem se ama.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo


Teatro e preconceito

Fernando Stratico
  Dizem que de boas intenções o inferno está cheio. Certamente cheia de boas intenções esteve a peça teatral ‘‘A Luta do Negro e dos Cães’’, texto de Bernard-Marie Koltès, apresentada pelo grupo alemão Folksbühne, no Cine Teatro-Ouro Verde, como parte da programação do FILO. Neste espetáculo uma aparente proposta de discussão sobre racismo e barreiras culturais é articulada.
  A peça conta a história do assassinato de um operário negro, morto a tiros, por ter cuspido perto dos pés de um funcionário branco de uma firma francesa de construções. Esta firma desenvolve empreendimentos em pleno território africano. O espetáculo todo gira em torno do conflito entre as duas partes: os funcionários da firma francesa e o negro Alboury, revoltado pela morte do irmão e pelo sumiço de seu corpo. O texto de Koltès apresenta uma interessante reflexão sobre as relações entre os povos e também sobre as barreiras culturais. Trata-se de uma certa purgação da exploração colonialista francesa na África.
  O maior problema da encenação reside, no entanto, nas representações que são feitas sobre o africano. Este é interpretado por um ator branco, que num determinado momento aparece vestido como um gorila. Esta imagem do negro como macaco provoca risos e reforça a depreciação das características físicas da pessoa negra, e de modo algum denuncia a visão eurocêntrica que deprecia o ‘‘outro’’ estrangeiro. Em outro momento o mesmo ator pinta o rosto de preto, como nos antigos filmes hollywoodianos. Esta imagem de ator branco sendo pintando de negro, usando peruca encaracolada, estufando os lábios e arregalando os olhos, certamente tira risadas de uma platéia pouco crítica, mas ao mesmo tempo ofende e desrespeita os afrodescendentes. O grupo não economiza em representações estereotipadas e piadas fáceis. O negro Alboury cospe para todos os lados, come insetos pegos no ar, ao invés de beber o caro uísque ofertado pelo branco, ele lava os pés descuidadamente. Como resultado, alguns incautos na pláteia - felizmente poucos - deliram com este retrato infame.
  Soma-se a isso a representação do negro como símbolo sexual, na verdade um problema principalmente do texto. Mais uma vez o negro é retratado pela sensualidade selvagem, pela paixão animalesca que desencadeia. O que, em última instância, quer dizer ‘‘o negro somente é bom quando serve para o sexo’’. O grupo alemão parece desconhecer completamente o debate sobre imperialismo e dominação cultural que se avoluma nos países europeus. Ao contrário, o grupo trata o tema com extrema falta de cuidado, e parece não avaliar a própria extensão de suas abordagens. Por outro lado, é lamentável que o FILO tenha sido palco para o preconceito e o estereótipo.
FERNANDO STRATICO é doutor em Artes Cênicas e professor da Universidade Estadual de Londrina


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