A lição de Richa
- René Ruschel

Tive o privilégio de conviver, em períodos distintos, com o ex-governador José Richa. O último, e sem dúvida o mais proveitoso, foi entre 1997 e 2000 quando ele já estava fora da vida pública. Nessa época, por auto-imposição, ele viveu uma espécie de isolamento político, de solidão deliberada. Na ausência de outro interlocutor, tomávamos chimarrão e falávamos sobre política. Fui não só um espectador da história como um confidente privilegiado. Numa dessas conversas, Richa lembrou que ao assumir o governo do Paraná, em 1982, foi taxativo com todos os seus auxiliares: quando se tratasse de desavenças político-partidárias ele estaria disposto e disponível para resolver a pendenga, mas jamais assumiria a responsabilidade por atos que envolvessem quaisquer suspeitas de corrupção. Citava como exemplo um episódio envolvendo dois secretários de Estado no início de sua administração, onde mais do que uma questão política investigada por uma CPI, o processo deu-se de forma tão transparente e democrática que um canal de televisão transmitiu ao vivo toda a discussão travada pelos deputados na Assembléia Legislativa. ''Optei pela imediata demissão de ambos, pois não poderia permitir que o governo fosse afetado'', afirmou.
A estratégia de Richa poderia servir de exemplo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As pesquisas de opinião demonstram que tanto o cidadão como o presidente tem o respeito da maioria da sociedade. Mais: indicam que uma parcela significativa da população atribui a culpa pelos fracassos da administração petista ao governo e não ao presidente. Ou seja: para estes Lula é bem-intencionado, mas o problema está na composição de seus auxiliares. Como não bastasse, o presidente tem como ponto forte de sua personalidade um carisma poucas vezes visto num homem público. No Brasil, só comparável a Getúlio Vargas ou Juscelino Kubitschek. No entanto, uma característica negativa a qualquer político - aliás, que Richa também tinha, mas no episódio acima agiu rapidamente - é a lentidão para tomar decisões que envolvam pessoas de seu círculo pessoal ou político. Lula tem sido refém desta prática. O que pode ser uma virtude humana, para a política é um desastre. Basta recordar o agonizante processo de demissão da ministra Benedita da Silva ou as intermináveis discussões sobre a reforma ministerial.
Mas nada é comparável ao desgaste do presidente da República, do governo e do PT com o episódio envolvendo a denúncia de propina nos Correios. A bomba explodiu no colo do PTB, um partido que compõe a base aliada no Congresso e indicou os dirigentes, mas os estilhaços atingiram em cheio o Palácio do Planalto. Ato contínuo, o governo tentou sob todas as formas impedir a instalação de uma CPI e acabou caindo numa cilada onde seu próprio partido foi o carrasco. O resultado é que o tiro saiu pela culatra. Com todo seu dividendo político, bastaria a Lula exigir do PTB que respondesse pelos seus atos.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


Operação ‘Ali Babá’, desespero dos Josés
- Cláudio Marques da Silva

  Duas coisas incomuns. O Brasil sedia o Fórum contra a corrupção e o encontro internacional de Chefes de Polícia. No primeiro evento haverá uma palestra proferida por Roberto Jefferson e Maurício Marinho cujo tema será ‘‘Como nos pegar’’. No segundo, em Foz do Iguaçu, ‘‘Garotinho’’ ensinará aos chefes de Polícia do mundo inteiro como promover a segurança da população utilizando viaturas sem motor e polícias sem policiais. Não percam, compareçam.
  No Fórum contra a corrupção algumas estrelas do PT, PP, PL e PTB deverão sentar-se nas primeiras fileiras para não dificultar a ‘‘Operação Ali Babᒒ que será desencadeada pela Polícia Federal. Lamentável que o número de ladrões do erário não se restrinja a apenas 40. Roberto Jefferson, assumindo sua condição de ‘‘homem-bomba’’, já começou a denunciar irregularidades que há muito eram de conhecimento de caciques do PT, como é o caso do ‘‘mensalão’’, em que deputados recebiam propinas para votar a favor do governo.
  Com novas revelações, as investigações sobre o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, terá novos e tenebrosos desdobramentos. Não adianta dizer que todos esses lances são uma forma da elite desestabilizar o governo de um operário. O PT discursava sobre ética, mas não sabia exatamente sobre o que estava falando. O PT tem o comportamento de cristãos fingidos que acham que os pecados do vizinho são sempre de maior gravidade. O petista Eduardo Suplicy chorou ao assinar o pedido de CPI dos Correios. Os que não assinaram ou que retiraram suas assinaturas em troca de favores é que deveriam estar chorando de vergonha.
  A dupla de ‘‘Josés’’, Dirceu e Genoino, provou que foi incompetente nos tempos da guerrilha e também agora em tempos de democracia. Foi humilhada e não conseguiu abafar a CPI. Estranho que enquanto Genoino e Dirceu se descabelam, o presidente Lula continua calmo e sereno, o que nos dá uma certa tranqüilidade ao lembrarmos do ditado ‘‘quem não deve não teme’’. Apesar da desconfiança que tenho em relação aos políticos, aliado ao fato de que eles não sabem investigar, sou a favor da instalação da CPI. Os microfones causam um estranho efeito e o depoente acaba revelando coisas interessantes que, de outra forma, jamais seriam reveladas.
  Roberto Jefferson, presidente do PTB, já ameaçou que se for incriminado na CPI dos Correios ‘‘levarᒒ junto José Dirceu, Delúbio e Silvinho. Ótimo. Aos que sabem das falcatruas e se recusam a denunciar é bom lembrar do triste fim de PC Farias. Em nome da transparência que venha a CPI. O presidente Operário está tranqüilo. Suplicy deu uma demonstração de ética. Desesperados estão os ‘‘Josés’’. Por quê?
CLÁUDIO MARQUES DA SILVA é delegado de Polícia da Comarca de Nova Fátima (PR)


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