ESPAÇO ABERTO
Sua santidade
- Gabriele Greggersen
Com todo o respeito à simbologia do ritual de beatificação e sem discutir o mérito de João Paulo II, o papa que mais beatificou ao longo da vida e que agora finalmente entrou para o longo processo de beatificação, gostaria de fazer aqui uma breve reflexão a respeito do que é ser santo. A Bíblia mostra uma incrível coerência quanto ao conceito de santidade. No livro de Levítico, um dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento, provavelmente escrito pelo patriarca Moisés, há mais de três mil anos, lemos: ''Portanto, santificai-vos e sede santos, pois eu sou o Senhor, vosso Deus'' (Levítico 20:7). No contexto, Deus estava passando o recado ao povo judeu, através do Moisés, líder e profeta daquele povo, para que mantivesse distância das necromantes e dos feiticeiros que promoviam a prostituição.
A palavra hebraica kadosh empregada aqui, significa ser ''separado''. Ela coincide com a grega, hagios, usada no Novo Testamento para dar conta da mesma idéia. Ela é empregada, entre outras tantas passagens, numa citação de mais de 1.500 depois, numa das cartas de Pedro, nos seguintes termos: ''Segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo.''(1 Pedro 1:15b-16).
Por mais importante que seja prestarmos homenagens aos expoentes de nossa fé e a personalidades como Madre Tereza de Calcutá e outros símbolos da prática de um cristianismo autêntico, não devemos nos esquecer, enquanto cristãos, de que somos todos chamados a sermos ''santos''. Viver em santidade não significa viver uma vida cheia de ''não podes'', uma vida chata ou sem graça. Não se trata de uma vida que empenha muito esforço por obter poucos instantes de prazer. Pelo contrário, um santo de verdade costuma ter uma visão de mundo bem-humorada, criativa. Ele é capaz de ter muito prazer em pequenas coisas.
Isto é, santo ou beato, que significa abençoado ou bem-aventurado, é o que devota a sua vida aos valores básicos do cristianismo: amor ao próximo, busca da verdade e da justiça, busca do saber como sabedoria, etc., e coerente com ela na vida prática. Pois santo, é todo aquele que se identifica com esses valores e procura cumpri-los, não por esforço e muito menos para mérito ou interesse próprio, mas movido pelo Espírito Santo e para a glória do Reino de Deus. Daí que possamos usar a palavra ''espiritualidade'' como palavra mais moderna para fazer alusão à santidade que, infelizmente, se encontra bastante desgastada.
GABRIELE GREGGERSEN é professora de Metodologia do Ensino Superior da Faculdade Teológica Sul-Americana em Londrina
O retorno do secular e o sacro
- José Mario Angeli
A passagem do pontificado do Papa João Paulo II para o de Bento XVI pode significar o retorno do círculo sacro e secular. Papa Bento XVI, em sua homilia de posse indicou a marca de seu pontificado, diferentemente de João Paulo II, vai na direção da fé. Ele explicitou que a redução do cristianismo e da religião em geral à ética da boas intenções ou dos bons comportamentos tirou o sentido da fé daquilo que é mais importante para o cristão: buscar Deus na transcendência e não na imanência da história. Ao fazer uma dura crítica aos relativismos da vida moderna, ele deixou claro que fé ultrapassa os valores fundamentais do mercado da vida moderna. É uma crítica ao pensamento pós-moderno que se sustenta na interpretação do fato e não no fato em si.
Bento XVI fala de uma fé adulta não superficial e que não pode estar exposta à moda das últimas ondas de pensamento, sobretudo à do consumismo. Há, por parte do pontífice, uma atenção profunda para que a crítica não desemboque num neofundamentalismo religioso, pois se trata de uma fé adulta. E, por isso, o cristão não deve dar uma resposta superficial para a onda de pensamento liberalista fundada no mercado. E, neste sentido, a caridade proposta pelo cristão não pode ser simplesmente moral, mas ela deve ser uma escolha da fé. Além do que, esta prática dever ser empenhada na defesa da verdade, não com as armas e a força, mas com o diálogo.
Ele indicou que a relação da Igreja com o mundo deve ser marcada por uma fé que não dispensa a razão. Ao dizer que quanto mais a religião se assemelha com o mundo mais ela se torna supérflua, equivale a dizer que a religião só tem sentido, quando ela rompe com os valores neoliberais conservadores, que corrompe os valores humanos. Ora, traduzindo esta afirmação para o mundo secularizado, do nosso cotidiano, pode-se parafrasear o pontífice dizendo que: mais a política se assemelha ao mundo - isto que é assim como é ou é isto que é possível fazer - mais ela se torna supérflua.
Nesta sociedade do capitalismo financeiro global, a política vem deixando de ser o espaço de lutas ideológicas para que a economia de livre mercado tornasse o único elemento capaz de regular as relações sociais. A fé adulta deve fazer a crítica à sociedade de mercado, sem se secularizar. A secularização risca de ser um simples seguimento do tempo rápido da produção e da técnica. Mas, é através da secularização que os cristãos se contrastam com o sacro. E, assim o sacro pode tornar-se o único elemento em grau de operar dentro desta contradição, enquanto necessidade religiosa e humana, num momento em que as relações dos homens com o mundo, risca de tornar-se uma relação puramente econômica e técnica. A fé adulta rompe com a secularização exatamente no momento em que o sacro transcende a lógica do mercado.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina
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