ESPAÇO ABERTO
Uma estrela cadente
- Gaudêncio Torquato
O governo do PT execra a herança maldita que diz ter recebido, não aceita que escândalos flagrados por câmeras indiscretas tenham algo que ver com o governo - como se a parte podre não fizesse parte da fruta -, mas faz imenso esforço para abafar uma CPI - inviabilizando sua instalação -, temendo que parlamentares da oposição dilapidem a imagem de uma administração que, a esta altura, se mostra corroída por gatunos, sacripantas e quadrilhas nela incrustadas. Por que o governo Lula não quer ser investigado? Porque receia receber resultado positivo de um teste de paternidade sobre corrupção. E por temer que a esfera investigativa seja ampliada com a lupa sobre patrimônios públicos repartidos entre a afilhadagem política. Para embaralhar a opinião pública o presidente Lula manda a Polícia Federal investigar os Correios, acreditando na hipótese de que, patrocinando a causa, muda a posição do governo, de réu para acusador.
Não se quer dizer que a corrupção é fruto da atual gestão. Nada disso. Os feudos e a atual cultura fisiológica reproduzem o patrimonialismo dos tempos de colônia. Mas o que mais impressiona, hoje, é a desfaçatez com que dirigentes nos querem impor a existência de um Estado moral, ético e responsável. Como? Os nomes dos envolvidos em escândalos não foram aprovados pelo governo Lula? As licitações arrumadas, os perfis corroídos, os negócios escusos, as operações verticais - o fluxo hierárquico da gatunagem - ocorrem ou não na esfera da atual administração? Causa estranheza a solidariedade do presidente da República a dirigentes partidários envolvidos em fraudes, sem mesmo esperar a apuração das denúncias.
Há, como se sabe, um acervo de normas e estruturas e sistemas para combater a corrupção na vida pública. Tais sistemas têm sido até atuantes e vigilantes. Por que, então, a corrupção não dá tréguas, abrigando-se com força nos domínios de um governo de quem se esperava ser o ícone da ética e da moral? Porque a cultura política brasileira contorna a rigidez do Estado legal. Há sempre uma saída, uma composição capaz de flexibilizar a aplicação da lei e a punição de condenados pela Justiça. E também porque o Judiciário não consegue ser eficaz na administração da justiça. Nessa moldura, aparece o governo do PT abrindo flancos com exóticas alianças. Partidos sôfregos, aproveitando-se da inexperiência e da inação governamental, ocupam espaços e montam esquemas.
Enquanto Lula fica refém das circunstâncias, a ladroagem encontra campo para se alastrar. E começa a se enxergar um retrato vermelho-encarnado, roto antes do tempo, de um governo desarticulado na política, ineficaz na gestão, com programas-símbolo desmoralizados, fragmentado pelas querelas do PT e atingido em cheio por barganhas e denúncias. Pode ser a primeira visão de uma estrela cadente nesse início de inverno austral.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista em São Paulo e professor da Universidade de São Paulo
Ingestão de milho transgênico
- Durval Ribas-Filho
A notícia que o Brasil vai importar milho transgênico da Argentina para suprir o abastecimento interno despertou algumas dúvidas sobre eventuais efeitos na saúde humana e animal do consumo do grão, sem qualquer fundamento científico. O milho em questão é o milho geneticamente modificado por meio da inserção do gene da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), que o torna resistente ao ataque de insetos.
Dentre suas vantagens, está a menor incidência de micotoxinas, substâncias tóxicas originárias do metabolismo de fungos que se alastram nos alimentos por conta da ação dos insetos na planta.
Os problemas gerados pela ingestão de micotoxinas, infelizmente, são desconhecidos por grande parte da população. Essas substâncias agem nos organismos dos animais e humanos inibindo a síntese de proteínas e a queda no nível de anticorpos, o que pode levar à hemorragia, lesões e até ao câncer. Um artigo elaborado pelos cientistas norte-americanos, Bruce Chassy e Drew Kershen, revela que ao contrário dos milhos convencionais e orgânicos, a variedade transgênica pode ajudar a prevenir essa anomalias provocada pelas micotoxinas.
O estudo foi realizado em diferentes países como China, Guatemala, África do Sul e EUA e indicou que a dieta das mães à base de milho convencional pode ter relação com o índice de defeitos neurais nos fetos, devido à presença da fumonisina, uma substância altamente tóxica que bloqueia a capacitação de ácido fólico pelas células, responsável pela redução da incidência dessas anomalias.
Cabe lembrar que o milho já vem sendo estudado há mais de 20 anos, muitos anos antes de ser introduzido no mercado. Além disso, os respeitados órgãos científicos e organizações internacionais, como a Agência das Nações Unidas para a Alimentação, Organização Mundial de Saúde e CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), já atestaram a segurança das plantas transgênicas.
Ainda no campo da alimentação e nutrição, o uso da biotecnologia em alimentos poderá, em breve, beneficiar ainda mais diretamente o consumidor, uma vez que já estão sendo pesquisados produtos que possuem substâncias funcionais e que poderão favorecer a prevenção e também o tratamento de doenças agudas e crônico-degenerativas.
DURVAL RIBAS-FILHO é presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) em São Paulo
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