Racismos
-Luiz Carlos Ferraz Manini

Cada dia mais percebemos como vivemos em um mundo (ou pelo menos em um país) que não consegue conviver, conciliar suas diferenças. Casos recentes demonstram como o racismo cada vez mais retorna com força impressionante.
Em situações como a dos residentes do Hospital Universitário de Londrina, percebe-se que a percepção do diferente, do outro, diria Sartre, descamba para formas simbólicas de violência que em nada ficam a dever às SS hitleristas.
O racismo em si não é um mal, é uma percepção do diferente que permite ao indivíduo ''colar-se'' a um determinado grupo que lhe acolha enquanto próximo. A questão situa-se na forma como esta não-identificação se processa. Temo-la agora (e não somente) na forma de ataques contra aqueles cuja renda é inferior, contra aquelas cujas gravidez incomoda, contra aqueles que não têm o mesmo nível de instrução.
Da mesma forma, vemos um magistrado de Curitiba propor a adoção de um sistema de cotas para negros em empresas, de modo a lhes garantir o emprego. Aqui, tal como no caso das cotas universitárias, coloca-se o problema pelo seu revés. A discriminação parte dos grupos ''minoritários'', que se põem à margem da democracia e exigem direitos diferenciados, assumindo a diferença como algo que lhes garanta um mundo à parte.
De fato, possuímos um problema estrutural, em uma sociedade que se polarizou em dois blocos antagônicos por quase quatrocentos anos. Mas querer derrubar uma árvore cortando meia dúzia de galhos não é algo que possa dar resultados duradouros e/ou convincentes.
O combate ao racismo, em qualquer uma de suas formas, parte da educação, mas não esta que se preocupa em transmitir grandes conteúdos eruditos e considera que a expressão ''serviço de preto'' seja apenas uma forma bem-humorada (?) de designar uma tarefa mal-executada. A educação deve mostrar que o racismo, e também o racista, não é um judeu sartreano, que é fabricado pelo olhar do outro; o racismo está em nós, e devemos começar o embate partindo de uma autocrítica.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina


Kant e o racismo
-Aguinaldo Pavão

  É interessante ler textos que, ao se oporem, corretamente, aos preconceitos raciais, louvam Kant como o pensador do esclarecimento, da autonomia da razão. É interessante porque Kant, ao contrário do que esses textos sugerem, não oferece qualquer base teórica para juízos morais peremptórios, isto é, a condenações definitivas do caráter de um homem, tendo em vista alguma falha sua - afinal, é uma verdade trivial que todos falhamos. Ademais, Kant mesmo representa um caso claro de pessoa preconceituosa.
  Que Kant seja um ilustre representante de opiniões preconceituosas, a passagem seguinte não deixa dúvidas. ‘‘Os negros são muito vaidosos, mas à sua própria maneira, e tão matraqueadores, que se deve dispersá-los a pauladas’’ (Observações sobre o sentimento do belo e do sublime, p. 103). Eis aí um exemplar de hostilidade racial, o qual, por si só, revela a irracionalidade de tal pensamento. Considero, assim, dispensável qualquer comentário adicional a declarações dessa natureza.
  Quanto ao fato de Kant não oferecer bases teóricas para juízos morais rigorosos, vale citar a ‘‘Crítica da Razão Pura’’. ‘‘A moralidade própria das ações (mérito e culpa), mesmo a de nosso próprio comportamento, permanece-nos totalmente oculta [...] Quanto [...] se deve imputar ao efeito puro da liberdade, quanto à simples natureza e quanto ao defeito de temperamento do qual não se é culpado, ou à natureza feliz (merito fortunae) do mesmo, eis algo que ninguém pode perscrutar e conseqüentemente, também não julgar com toda a justiça’’ (B 579, n. 80). Note-se que ao admitir que ninguém julga ‘‘com toda a justiça’’, Kant não está apregoando a eliminação de todo julgamento moral. O que ele pretende é simplesmente introduzir cláusulas de reservas quanto ao caráter peremptório de nossos juízos. No fundo, não sabemos nem se nós próprios agimos moralmente, quanto menos os outros. É claro que temos indícios da imoralidade das ações. Mas são somente indícios que, embora permitam juízos morais, admitem apenas censuras frágeis, pois nunca poderemos decidir especulativamente se somos livres ou não. Tal posição de Kant, por certo, deve frustrar aquelas pessoas que, citando o seu nome, apressadamente condenam moralmente os outros.
  Kant certamente é um dos maiores filósofos que já pisou o solo deste planeta, mas devemos ter mais cuidado ao enaltecer o seu nome quando queremos atacar o preconceito racial. No mínimo, deveríamos distinguir entre seus princípios filosóficos e suas opiniões - nada filosóficas - sobre o assunto. Ademais, precisamos aprender com Kant - o Kant filósofo, não o Kant das meras opiniões infundadas - que nenhuma condenação moral deve ser emitida por nós de modo absoluto. Não que as condenações morais não devam ser absolutas. É que nós não temos poder para sondar nem as verdadeiras motivações nossas e muito menos a dos outros.
AGUINALDO PAVÃO é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina


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