ESPAÇO ABERTO
Sogra: aliada ou inimiga?
- Moacir Costa
Esse é um tema polêmico, motivo de piadas e gozações, mas pouca coisa tem sido escrita sobre a sogra.
É claro que você encontra sogras que demonstram muito bom senso, que evitam tomar partido nas brigas ou atritos do jovem casal. Algumas se dão tão bem com o genro que demonstram admiração por ele ou agem de forma sedutora que tem como finalidade apenas agradá-lo com o intuito de proteger a própria filha no casamento.
Os casos mais complicados são aqueles em que a relação do filho com a mãe é de extrema dependência. Para essas mães, nenhuma nora irá merecer integralmente o seu filho, que para ela é perfeito (inteligente, trabalhador, o homem que toda mulher gostaria de ter como marido).
Nessas condições de forma clara ou velada tem início uma guerrilha entre sogra e nora. Muitas vezes o relacionamento entre elas parece razoável, mas se esconde atrás de falsidades ou partem definitivamente para claras hostilidades.
Esse homem que sempre teve uma relação de dependência e simbiose com a mãe, naturalmente vai agir como um marido-filho da sua parceira. Ele reproduz no casamento atitudes semelhantes que tinha com a mãe. É importante observar que sogras e noras têm muita coisa em comum. Podem ter traços autoritários, dar palpite em tudo e demonstram habilidade em conseguir tudo aquilo que desejam.
É importante para a sobrevivência e manutenção desse modelo de casamento uma conversa franca que reafirme os laços de confiança entre o casal e que consigam delimitar o espaço próprio onde a privacidade e intimidade deles sejam respeitadas.
É necessário negociar acordos para evitar a obrigação dos tradicionais almoços de domingo na casa da sogra, e um passeio ou cinema a três. A nora deve colocar limites com habilidade para não gerar desconforto, mas marcar de forma clara a sua posição.
Quando o jogo de sedução não funciona mais com o filho, o próximo alvo serão os netos, onde afeto e sedução irão se confundir.
Esses conflitos quando não resolvidos podem ser motivo de ressentimento, de discórdias que vão sendo escondidas embaixo do tapete. A conseqüência é que o relacionamento conjugal vai se fragilizando e, a partir daí, se agrava e o casal passa a falar de separação.
Essa situação pode interferir, é claro, na sexualidade. Quando você tem alguém sempre dando palpite no cotidiano do relacionamento, o interesse e o entusiasmo entre o casal diminuem muito. Por isso, é necessário que haja muita transparência e sinceridade: deve-se conversar com a sogra, para que ela também possa canalizar sua energia para os seus próprios projetos, compartilhando com o filho e nora um relacionamento de respeito e admiração.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo
A bestialização do humano
- Elson Alves de Lima
Immanuel Kant, ao analisar o Alfklarüng (Esclarecimento), avaliou a passagem humana do homem bruto, ignorante, a besta-fera, num ser dotado de práticas, conhecimento e saberes universais, através da busca por um conhecimento para além de esclarecedor. Tal conhecimento, transformaria esse inumano, em um ser dotado de razão, sentido e humanidade amplas. O agente, autônomo e esclarecido, o homem público, conhecedor de sua vida real, estaria afastado do embrutecimento medíocre, originário de seu espaço doméstico.
Se, por ventura, falta conhecer a origem deste humano, Friedrich Engels contribui com o debate apontando os fatores da passagem do macaco em humano, este processo ocorre quando o símio livra-se do hábito da utilização das patas dianteiras, passa a andar de forma ereta, sobe em árvores para obter alimentos. Assim, seu trabalho torna-se menos penoso. A mão é libertada e utilizada como órgão de trabalho e, fundamentalmente, como produto deste seu trabalho. Na evolução de todos os demais sentidos, o macaco se constituiu no humano. Este último, por sua vez, é o único animal capaz de dominar e transformar a natureza, através do trabalho. O fator crucial da existência humana.
Mas, como este humano, tornado diferente dos demais animais, pode retroceder? O recente episódio, ora nominado de escândalo do HU, revelou que um grupo de médicos formados ou em formação (residentes e internos) se pronunciaram racista e inumanamente contra a própria humanidade a qual dizem pertencer. Numa linguagem jocosa e direta, utilizaram-se do espaço reservado aos novos eleitos, entre as atuais seitas secretas virtuais (orkut), para agredirem pacientes (prenhas nojentas), funcionários e funcionárias (viado, traveco da noite, macaca de 15 arrobas), professores (sem comentários), demonstrando como uma parcela da decantada humanidade culta e esclarecida do mundo médico, o pós-símio humanizado, tenha chegado ao seu mais baixo e primitivo estágio de involução mental e constituição.
A besta-fera conseguiu ultrapassar o pouco ou o nada de humano que existe ou tenha existido nestes seres. Aos culpados, além de ampla defesa, o rigor da lei na apuração e reparação do dano causado. A UEL não pode ter entre seus quadros: bestas-feras, e, muito menos, abrir espaços para atuação de (anti)profissionais em qualquer tipo de sociedade que seja considerada, de fato, humana.
ELSON ALVES DE LIMA é mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná e docente na Universidade Estadual de Londrina
- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].





