A capacidade de somar
Pedro Branco
Ultimamente tem se discutido muito sobre as perdas significativas nas lavouras brasileiras. Segundo pesquisadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de um milhão de toneladas de arroz são desperdiçadas no pós-colheita. Isto é justamente a quantidade que o Brasil importa para suprir a demanda interna. Alguns especialistas, principalmente da área governamental, consideram que este desperdício é fruto da falta de competência do produtor rural. Porém, esquecem de se preocupar em estipular políticas públicas para escoamento e armazenamento da produção. No momento, o grande interesse do governo federal é divulgar números, recordes, e tão pouco ele se preocupa em legislar a favor do setor agropecuário nacional.
Se a safra brasileira é sustentada no patamar de mais de 100 milhões de toneladas de grãos, tudo se deve a alta capacidade do produtor rural. Somos competentes e auto-suficientes para suportar a ganância tributária de todos os setores do Governo e de conviver com as dificuldades climáticas que o nosso país apresenta.
Na comunidade européia e nos EUA, o agronegócio é tratado com mais respeito. A produção de máquinas e implementos agrícolas recebe subsídios de até 50% do valor final do equipamento, disponibilizando assim, um alto nível tecnológico e uma melhor maximização do uso dos insumos agrícolas. No Brasil, o que vimos é totalmente inverso: com os encargos, taxas e impostos, o preço final de uma máquina agrícola é superior em 50% ao seu preço de custo. Ou melhor, um trator que custa X tem um acréscimo de 50% no seu valor final. E isto vale também para outros segmentos, como o de insumos e de rações.
É necessário que o governo entenda que o setor precisa de condições para trabalhar, gerar novos empregos e renda. Quero dar uma sugestão: se houvesse interesse do Governo em retirar a cobrança da alíquota máxima dos impostos aplicados sobre as peças para reposição de máquinas e implementos agrícolas usados que atualmente varia de 8% a 16%, sendo sempre aplicado o teto máximo, garanto que o produtor, seguramente, melhoraria seus índices de produção. Seria um grande estímulo para o setor, sem derramar ''caminhões'' de dólares ou euros, como é feito lá fora.
Outra certeza é que a queda no recolhimento dos cofres públicos seria compensada num período bem curto creio que já na primeira safra com uma produção nacional 10% superior a deste ano, gerando novas divisas e muitos alimentos para a população. Para quem vive reclamando do desperdício, sem tomar atitudes convenientes, já seria um bom começo. Basta apenas querer e saber somar forças!
PEDRO BRANCO é engenheiro agrônomo, produtor rural em Londrina


Paisagens históricas
Humberto Yamaki
  A Praça Rocha Pombo foi tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná em dezembro de 1974, sob a justificativa de ser ‘‘praça que dá boas condições de perspectiva à Rodoviária de Londrina’’.
  Vazio simbólico e importante no Plano Inicial de Londrina de autoria de Razgulaeff (1932), o local era a primeira paisagem urbana avistada pelos pioneiros que chegavam de trem e olhavam para o alto da Catedral. No entanto, durante anos foi considerada invernada da cidade, tendo havido até mesmo a proposta de construção de um Mercado Central.
  Nos seus limites seriam construídas as novas Estações Ferroviária e Rodoviária, consideradas ‘‘as melhores do Estado por sua grandeza arquitetônica’’.
  Em 1949 existiam na cidade 43 hotéis e pensões, localizadas no Centro e imediações da Rocha Pombo. Constituíam com sua arquitetura austera, um conjunto expressivo. Os hotéis e pensões, algumas delas ‘‘pensões alegres’’, e seus personagens fazem parte da memória coletiva, quase um mito na frente de colonização.
  Hotéis pioneiros como Viajantes, Triunfo e Cravinhos foram sucessivamente demolidos nos anos 90 sob a fúria das marretas. Entrar em alguns hotéis que sobreviveram é respirar a atmosfera dos anos 50: tetos altos, largos corredores de granitina, venezianas de madeira e móveis ‘‘Cimo’’. A um visitante mais atento, o passado também estará presente no silêncio dos pátios internos.
  No momento em que se fazem reflexões sobre a proposta do Memorial do Pioneiro, a reforma dos jardins, assistimos a instalação da Casa do Estudante e o surgimento de novos empreendimentos no entorno, a Rocha Pombo poderia ser um laboratório de intervenções urbanas.
  As três décadas de tombamento da Praça poderiam ser de reconhecimento e incentivo à preservação de paisagens históricas, do patrimônio enquanto conjunto, de re-uso de estruturas vernaculares e de revitalização integrada.
  Levi Strauss (1970) observava que em nossas cidades a ‘‘falta de vestígios não permitem a leitura fora do seu tempo. Desaparecem sob as demolições que uma nova impaciência exige’’. A revisão de planos e adequação a estatutos deveria estar associada a uma política de preservação.
HUMBERTO YAMAKI é docente de mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento na Universidade Estadual de Londrina


- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup