ESPAÇO ABERTO
Entre o cristal e a fumaça
Maria José dos Santos Rossi
As ''mensagens racistas'' divulgadas na internet por um grupo de residentes do HU servem de alerta para todos nós e para os professores. Isso demonstra a fragilidade do órgão formador e a necessidade da correção da sua rota.
Os professores mais do que ''ensinadores'' devem dar exemplos profissionais que possam construir uma nova concepção de médico orientado por novos paradigmas que incluam os fenômenos ''vida e morte'' e não apenas ''saúde e doença''.
Isto pode significar uma nova forma de assistência ao indivíduo integral e uma forma de convivência em grupos profissionais diferentes com respeito ao alcance das tarefas de cada um.
O trabalho da saúde é feito em grupo por um processo em que cada pessoa tem uma responsabilidade. A falha de qualquer um dos grupos nas suas tarefas do cuidado, desde higienizar o chão, higienizar e confortar o doente, controlar a hotelaria, a infecção hospitalar, os medicamentos, certamente significará a falência de todos em relação aos resultados esperados e devidos ao usuário dos serviços.
Não basta fazer o diagnóstico, solicitar exames complementares, prescrever os medicamentos ou exercer atos cirúrgicos para que a cura seja restabelecida. De um lado, o trabalho da enfermagem se faz necessário para que durante as 24 horas o doente seja servido e acompanhado, e de outro, o próprio doente tem uma função especial na sua cura pelos fenômenos simbólicos característicos do ser humano.
A própria sociedade hierarquizada é uma das grandes responsáveis pelo que Ciro Marcondes Filho (professor da Escola de Comunicação e Artes da USP), chama de ''violência fundadora''. Para ele a cultura brasileira é embasada na ''violência fundadora'' que tolera excessos, o que podemos chamar de sociedade da impunidade.
É uma sociedade periférica baseada em relações autoritárias; parte dela que não se importa com os direitos da ''alteridade''; ela o faz apenas quando legalmente acionada.
Sociedade com um imaginário patriarcal e escravocrata, do ''vale mais quem tem'' dinheiro ou saber que embasam um poder no nível das instituições políticas e das relações sociais.
Assim, ''trolls'' são todos aqueles que não pertencem à tribo, ao grupo, à classe social, entendidos como ''seres abomináveis e extremamente repugnantes, comedores de carne humana''. Esta violência fundadora se caracteriza por um ''agir vândalo'' segundo Marcondes Filho, destruindo assim os alicerces dos símbolos da cidadania, corroendo as formas de civilidade transformando as diferenças em atrito e em violência.
MARIA JOSÉ DOS SANTOS ROSSI é professora sênior de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina
Querem manipular a opinião pública
Marcelo Belinetti Magalhães
A população está sendo alvo de uma série de informações sobre o ''futuro'' dos remédios manipulados. A consulta pública nº 31 da Anvisa - Agência Nacional de Vigilância Sanitária - órgão do Ministério de Saúde que, dentre outras atividades, regulamenta o setor de farmácia, merece atenção especial da população. Após o prazo de 60 dias, a contar de 18 de abril, a Anvisa, consolidará o texto final que poderá excluir da população o direito a pagar menos pelo mesmo medicamento industrializado pelos grandes laboratórios farmacêuticos.
É importante esclarecer que é de grande valia a normatização das farmácias de manipulação, garantindo aos usuários a segurança necessária. Na sua grande maioria, o texto desta consulta pública traz instruções que vêm garantir ainda mais os medicamentos produzidos pelas farmácias de manipulação, criando uma padronização de qualidade, ou seja, todas as empresas do setor terão que adaptar suas instalações e procedimentos internos a uma legislação única, procurando diminuir as diferenças de qualidade encontradas entre uma farmácia e outra.
É extremamente importante que os empresários do setor reconheçam a importância e seriedade de sua responsabilidade com a saúde pública. Porém, é preciso estar atento aos tópicos que ferem o interesse público como restringir a manipulação de medicamentos em dosagens já produzidas pela indústria farmacêutica. Ora, como explicar que a farmácia de manipulação pode produzir Sinvastatina 19 mg e não pode produzir Sinvastatina 20 mg? Será possível provar que a manipulação de 20 mg não é eficaz e a de 19 mg ou de 21 mg podem ser consumidas sem qualquer restrição?
A Anvisa deve proteger os interesses da população, detectando e fiscalizando a saúde pública, dentre elas a farmácia de manipulação. Mas, o que estamos presenciando é uma equivocada política de protecionismo de mercado favorecendo a indústria farmacêutica e em detrimento ao direito de escolha do consumidor.
Cabe ressaltar que em nenhum momento esta consulta pública, e em especial o tópico acima citado, questiona a qualidade dos medicamentos produzidos em farmácia de manipulação. E cabe ainda evidenciar que muitas pessoas que usam hoje remédios de forma contínua em dosagens padrão não terão como pagar pelos produtos industrializados. A população precisa ficar atenta e se manifestar para fazer valer o direito de livre escolha do cidadão.
MARCELO BELINETTI MAGALHÃES é administrador de empresas e proprietário de farmácia de manipulação em Londrina
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