ESPAÇO ABERTO
Abuso e violência sexual: um problema de todos
Mari Nilza Ferrari de Barros e
Vera Lúcia Suguihiro
A violência sexual é um fenômeno cuja visibillidade tem aumentado em razão da atuação das ONGs (Organizações Não-Governamentais), dos programas sociais e modelos informacionais que cotidianamente aparecem na mídia. Ainda assim, a subnotificação é uma realidade. Os casos de abuso e violência sexual envolvendo crianças e adolescentes são tardiamente revelados, seja pelo constrangimento que tal violência produz, ou pelas ameaças reiteradamente feitas pelo violentador. O corpo violado produz profundo impacto, não só do ponto de vista físico, mas, sobretudo na constituição da subjetividade.
A violação do corpo expressa a invasão mais intensa, pois expropria da criança o direito de experimentar emoções agradáveis de modo a apreender o mundo e dar-lhe um sentido que assegure o reconhecimento como ator social, capaz de ser reconhecido pelos outros como sujeito de direitos. A criança convive por muito tempo com esta realidade de abuso e violência sexual. O violentador além de usufruir o corpo da criança, faz ameaças seguidas, impedindo que essas experiências sejam reveladas. As mudanças de comportamento que seguem estas situações como, por exemplo, evitar o retorno a casa, manifestar medo de ficar sozinha, necessidade de dormir com a presença de um adulto e com a luz acessa, permanecer durante grande parte do dia fechada em seu quarto, além de reações físicas como, tremor, convulsões, dor de cabeça repentina e intensa, não são suficientes para despertar a atenção do adulto.
A violação atinge a criança enquanto totalidade, uma totalidade corporal que sente e se ressente de sua trajetória pessoal e familiar. Experimenta dor, raiva, desamparo e desesperança. A criança aprende a desconfiar dos outros e de si mesma, uma vez que suas experiências não ecoam no entorno social. Desenvolve uma representação negativa de si e das pessoas com as quais convive, pois não obteve a segurança, carinho e cuidados necessários para o seu desenvolvimento físico, psicológico e emocional. O sentimento de insegurança e desconfiança pode se prolongar por toda a vida se não houver oportunidades de vivenciar situações distintas destas.
Os adultos se transformam em armas que produzem sérios danos àqueles que deveriam proteger e o mundo social aparece como espaço que acalenta as sementes do medo e do perigo. A criança ou adolescente violentada desconfia de tudo e de todos, sente-se insegura, fragilizada e instável emocionalmente. As práticas de abuso sexual, via de regra, acontecem em um ambiente de intimidade, cujo violentador é conhecido da criança ou adolescente ou integra o seu grupo familiar. Combater esse tipo de violência pressupõe o envolvimento de diferentes segmentos da sociedade civil organizada, fazendo com que a responsabilidade seja compartilhada.
MARI NILZA FERRARI DE BARROS é psicóloga social e VERA LÚCIA SUGUIHIRO é docente de Serviço Social da UEL.
Dia de Solidariedade à Aids
Sueli Galhardi
O dia 18 de maio, intitulado inicialmente como o Dia de Solidariedade às vítimas da Aids, em 1983, foi um dia designado para a vigília aos mortos pela doença. Retrocedamos à década de 80 em que a Medicina começava a identificar um novo vírus que se alastrava enigmaticamente e se tornava uma epidemia mundial. A sociedade se sentia ameaçada pela aceleração de uma nova peste, e a Medicina apresentava-se impotente na decodificação da letalidade provocada por este estranho. Com os avanços clínicos e medicamentosos, após a introdução da terapia anti-retroviral para doentes de Aids (coquetel), passamos a guardar este dia, não somente às vítimas da Aids, mas às pessoas que vivem e convivem com HIV/Aids.
Após 25 anos aproximados de epidemia nos aliviamos um pouco frente ao controle da doença, e muito avançamos em relação ao conhecimento deste novo vírus, inclusive que ele não pode ser visto apenas do ponto de vista clínico, mas em todo seu entorno social. O vírus já caracterizou vítimas inocentes e/ou vítimas culpadas, quando procurou se dar uma identidade à doença do outro, e também nomear os culpados, segregando pessoas ou segmentos em grupos de risco. Aprendemos que antes das pessoas portarem um vírus, elas são seres humanos contextualizados, que impactam e são impactadas por outros seres humanos.
Bom, mas aí tivemos que olhar para nós mesmos e perceber que todos somos seres humanos e que por apenas este motivo somos vulneráveis a tantos riscos como todos os outros, e que a vulnerabilidade ao HIV depende de uma série de fatores culturais, econômicos, sociais, políticos que determinam nossa inserção social retratada por nossos valores, crenças, hábitos, costumes, cultura e comportamentos. A Aids mobiliza em nós diversos sentimentos como o medo; põe em risco nossos valores e nos impulsiona a resignificar a vida na contraposição da eminência da morte. Assim, este dia de solidariedade é um momento não só de muita tristeza social às vítimas que a Aids fez, mas sobretudo para quem vive e convive com HIV/Aids, o desafio a uma imunidade não somente em relação ao vírus da Aids, mas ao preconceito e à discriminação, pois vivem e/ou convivem com este vírus social.
Os tabus do sexo e da morte ainda rondam nosso imaginário e o nosso medo nos afasta das pessoas e deste enfrentamento. Está na hora de sairmos dos nossos ninhos, sob pena de ficarmos imobilizados diante de nós mesmos. Não nos compete mais julgar e condenar as pessoas e sim avançar na efetivação de direitos humanos do portador do HIV. Está na hora de lutarmos contra tudo que nos oprime, nos massifica e nos impede de sermos livres, autônomos e de vivermos numa sociedade justa, igualitária, solidária e fraterna, o nosso compromisso histórico com as novas gerações!
SUELI GALHARDI é assistente social e coordenadora da Comissão Municipal de Prevenção e Controle de DST/HIV/Aids do Conselho Municipal de Saúde de Londrina
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