O caso do HU
Domingos Pellegrini Jr.
  A doença ética dos residentes do Hospital Universitário (HU), na internet, deixa claro obviedades em que só pensamos quando nos traumatizam:
  1) A internet revoluciona a comunicação não só porque é aberta e mundial, mas também porque é auto-editável. Este caso mostra que, em vez de ser usada com liberdade total, já que cada um ‘‘pode’’ fazer na internet o que quiser, é preciso responsabilidade como em tudo na vida. E sensibilidade: destilando ódio, não perceberam estar fazendo mal a si mesmos antes de tudo, emocionalmente primitivos e captadores de energia negativa, quando não represálias e punições, como já se vê. Demonstraram, portanto, também péssima capacidade de avaliação, ou burrice mesmo.
  2) É evidente que esses quase médicos foram criados com frouxa noção de limites e, aprovados no curso de vestibular mais disputado, vestiram a aura de semideuses típica de uma medicina velha e elitista.
  Parte do problema está no próprio sistema educacional que exige de um candidato a médico, por exemplo, conhecimentos de Matemática e Física. Para que um médico precisa saber isso? Assim, acabam sendo aprovados os com capacidade intelectual apenas operativa e com grande memória, capazes de se limitar à estreitura curricular desse sistema vocacionalmente castrador e deformador. Os semideuses são, na verdade, monstrengos entupidos de informação e deformados não só eticamente mas também tecnicamente, visto que a compaixão e a humanidade são essenciais à anamnese, base da Medicina.
  3) Provavelmente sofriam a decepção de ter a profissão, de que esperam grande rentabilidade e status, estagiada num hospital público de carências intensas, e que podem ser muito educativas se encaradas com humildade e humanidade e não com elitismo nazista.
  Agora, autoridades e investigadores serão assediados por pais aflitos, como nos casos do residente que metralhou gente no cinema, dos que afogaram o colega na piscina ou do jovem dentista traficante. É o caso de dizer apenas que devem se calar, pois já fizeram sua parte na educação dos monstrengos.
DOMINGOS PELLEGRINI JÚNIOR é jornalista e escritor em Londrina


Juramento de Hipócrates ou de hipócritas?
Josiane Rodrigues
  Um recente episódio ocorrido em Londrina, chamado de ‘‘caso HU’’, tem trazido à discussão o preconceito, o racismo e a maldade do ser humano. O tema tomou conta dos principais meios de comunicação da região. Para quem não sabe da questão: residentes e ex-residentes (todos da UEL) que trabalham no Hospital Universitário mantinham, desde outubro de 2003, uma ‘‘comunidade’’ na internet em que manifestavam suas ‘‘opiniões’’ sobre os funcionários do hospital e também acerca dos pacientes atendidos por eles. Termos como ‘‘macaca de 15 arrobas’’ (quando se referiam a uma funcionária negra), ‘‘prenhas nojentas’’ (pacientes grávidas) e ‘‘famintos’’ dão uma idéia do teor das mensagens divulgadas na net.
  A notícia e as mensagens vazaram para os funcionários do HU. Indignados, eles procuraram a imprensa e a coisa ‘‘estourou’’. As páginas da comunidade dos residentes falastrões saíram do ar em abril. O caso já está na polícia e promete-se punir os culpados.
  E os culpados? A maioria dos dez envolvidos é da classe média alta que estudou em uma universidade estadual, paga com o dinheiro de nossos impostos. Eles, que estudaram em escola particular e fizeram os melhores cursinhos, certamente ‘‘tomaram’’ o lugar dos ‘‘famintos’’ e das ‘‘prenhas nojentas’’ que são obrigados a atender enquanto fazem residência no Hospital Universitário. É, deve ser um grande sacrifício mesmo para esses residentes.
  A grande ironia disto tudo é que, nos últimos anos, a Universidade Estadual de Londrina tem dado ênfase à formação humana no curso de Medicina, um dos mais conceituados do país.
  O juramento de Hipócrates (460-375 a.C.) faz parte do conhecimento do homem comum. Nele se lê: ‘‘... Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém’’. Será que esses residentes fizeram o juramento de Hipócrates ou o juramento dos hipócritas?
  Para terminar, o texto final do famoso juramento do Pai da Medicina: ‘‘Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça’’.
  É uma boa sugestão, não acham?
JOSIANE RODRIGUES é economista em Londrina


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