Escravos, anúncios, abolição



Florisvaldo Fier





''Precisa-se alugar um preto ou uma preta que saiba cozinhar e o mais arranjo de uma casa de família. Na rua das Flores, nº 13.''

''Fugiu no dia 9 do corrente um preto, de nome Matheus, crioulo, alto e magro, idade 38 anos, barba cerrada, camisa e calça de riscado azul. Quem o entregar nesta cidade a Soares & Garcia ou, em Antonina, a Manoel Soares Gomes, será gratificado.''

Os anúncios acima estão reproduzidos no livro ''Na invenção do Paraná'', de Wilson Martins. Foi publicado no jornal ''Dezenove de Dezembro'', que circulava em Curitiba em 1854, quando o Paraná acabara de se tornar um Estado.
Na época, o Paraná tinha uma população constituída por 57,2% de brancos e 42,9% de ''negros, mulatos e pardos''. Portanto, quase a metade da população era de negros, percentual este que começou a diminuir com a chegada de brancos europeus.
Por ocasião da assinatura da Lei Áurea, em 1888, cerca de 95% dos descendentes de africanos já eram livres. Eles conquistaram a liberdade por diversos mecanismos.
Muitos eram os libertos que conquistaram a liberdade pela fuga. Nos anos imediatamente anteriores à lei, houve muitas fugas, muitas delas em massa, principalmente na região Sudeste do país. Teria sido talvez o maior movimento de desobediência civil da história do país.
Os negros, apesar dos raros registros históricos, existiram no Paraná. Resistiram à escravidão e lutaram pela conquista da liberdade.
Uma das lutas do movimento negro, nas suas diversas matizes ideológicas, era - e continua sendo - para que conste, nas pesquisas demográficas (conquista recente), e nos registros de qualquer ocorrência, a cor de cada cidadão.
No início do século XIX, levantes populares foram feitos no Nordeste contra tal registro. Alegação para tanto: o simples registro de categorias raciais para efeito de recenseamento poderia ser usado para escravizar os negros.
Como resultado de tais manifestações, a partir de 1840 o registro da cor das pessoas em documentos oficiais deixou de ser realizado.
É bem provável que a inclusão da cor nos documentos, no período da escravidão, servisse realmente para identificar onde estava a população negra. Caso não fosse para escravizá-los, serviria, no mínimo, para o controle policial dessa população.
No entanto, esse registro hoje é importante, justamente para que, através de uma justa política de cotas, haja melhores condições para se fazer uma reparação histórica.

FLORISVALDO FIER, o dr. Rosinha, é médico pediatra e deputado federal (PT-PR)








Racismo: de que cor é a estupidez?



Mara Vitorino




Nesta sexta-feira 13 o Brasil pede perdão pela maior estupidez que um ser humano pode cometer: a escravidão e o racismo. Este pedido de desculpas, em síntese, deveria ser com verdadeiro arrependimento e, mais longe ainda, extirpando todo o qualquer tipo de comportamento que se refere ao que passou nos séculos passados. Mas será que isto ocorre? É uma reflexão que devemos fazer, não apenas na verborragia, nos discursos demagógicos, em comportamentos politicamente corretos, mas sim na consciência. O que vemos hoje é um país que vive nas rédeas do colonialismo e discrimina o negro, o pobre, o miserável, o índio, achando brechas para incluí-los em ambientes elitistas, como os das universidades, na política de cotas.

Nos anos 80 Lobão dizia, em plena redemocratização, ''a favela é a nova senzala''. É, caro Lobão, as coisas não mudaram muito desde aquela época e, talvez, nem mudem tão cedo. Hoje, quando o mito da democracia ronda as ideologias divulgadas pela mídia, pela escola, pelo Estado, entre outros porões, ainda vemos que não só a favela, mas as prisões, os becos, os barracos nos morros e o mundo do crime continuam sendo a senzala e a ferida do brasileiro. Tudo visto e revisto pelo mundo no filme ''Cidade de Deus'', do cineasta Fernando Meirelles. As lentes do personagem, um jovem e negro morador da favela, mostram, em película, que continuamos caminhando pelos passos dos capatazes.

O que podemos pensar neste 13 de maio é que a estupidez não cedeu, mesmo com o tempo, a evolução, a revolução industrial e tecnológica, ela é humana, não é parda, nem negra, nem índia, é terrivelmente e somente humana, uma espécie capaz de discriminar seu igual, de olhar para o rótulo, de venerar negros, de construir ídolos, a partir daquilo que eles jamais poderiam ser.

Quando vemos os perfis do preso brasileiro, em caras bonitas nas novelas da Globo, em capas das revistas, no conto de fadas das celebridades, não vemos nem índios, nem negros. Com raras exceções, quando jogadores de futebol, cantores ou uma outra atriz estigmatizada como vitoriosa por estar entre as brancas. Onde vivemos? Por que pedir desculpas? O questionamento é pertinente numa época em que pedir perdão virou moda. O Lula pede perdão aos negros, em viagem à África; homens do primeiro escalão pedem perdão aos índios; os alemães aos judeus; tão simples, basta pedir desculpas, implementar medidas paliativas, como reserva de cotas, dar mais terras aos índios, aprovar medidas de inclusão e está tudo bem.

O engraçado é que quando a princesa Isabel aprovou a Lei Áurea, bonito nome, houve uma suposta extinção do regime: 750 mil escravos foram entregues à própria sorte. Os negros mostram no olhar que o Brasil e o mundo vivem, na realidade, um mito da democracia racial e da igualdade entre os povos que nenhuma lei conseguiu extirpar.

MARA VITORINO é jornalista e professora de Letras na Unioeste em Cascavel

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