Terry Schiavo e o bombeiro Donald
Paulo Rogério Sanches
  No dia 4 último foi noticiado que um bombeiro americano, de nome Donald, depois de dez anos inconsciente e sem falar, quis conversar com sua esposa e, logo após, teve a conversa com ela e seu filho por 16 horas seguidas. Os médicos diziam que o caso era irreversível, que a lesão do cérebro foi grave e que não haveria possibilidade de reabilitação.
  Talvez, alguns dos que estão lendo esta coluna só estejam sabendo do caso Donald (desculpe, mas o sobrenome eu não sei) agora, com esta minha referência. Porém, muitos se lembram de um caso semelhante, de Terry Schiavo, e que também era um caso ‘‘irreversível’’ e o ex-marido (porém curador da sua ex-esposa) autorizou a morte dela.
  Estou provocando esta lembrança comparativa para sensibilizar, nós seres humanos, da nossa condição medíocre diante dos mistérios da vida, apesar de sempre nos acharmos os ‘‘donos’’ da verdade, ‘‘inteligentes’’, animais ‘‘racionais’’. Somente com estes dois casos podemos tirar lições importantíssimas e que muitas vezes, devido ao nossa egoísmo, deixamos que as coisas vão acontecendo: não é com nós mesmo!
  Para começar a pensar nos ensinamentos dos casos acima, pergunto: como a Justiça americana pôde deixar que um ex-marido se mantivesse curador de uma pessoa que nem parente era, nem tinha o mesmo sangue? Colocou-se os pais de Terry de lado como se não fizessem parte da vida daquela pessoa.
  Será que a ciência já não errou demais, a ponto de pensarmos em primeiro lugar na vida e depois na ‘‘irreversibilidade’’ de suas conclusões? Os casos de Donald e Terry eram ‘‘irreversíveis’’; com Donald aconteceu um milagre e com Terry um assassinato.
  Será que não dever-se-ia acreditar na dúvida da vida que na ‘‘certeza’’ científica? Quando acontece o que aconteceu com Donald, Deus é que queria e, portanto, aconteceu um milagre, mas será que Terry também não tinha Deus a seu lado na voz ativa de seus pais?
  Sou a favor da vida, mesmo que debilitada, pois a vida de uma pessoa pode ser motivo de vida de outras, seja mediante a esperança, ou seja pelo possível transplante de órgãos.
  A esposa de Donald esperou por um milagre e ele aconteceu, os pais de Terry esperaram também por um milagre, mas receberam o assassinato de sua filha. Pensem na vida (mesmo que única) como sendo algo mais valioso que todas as riquezas da Terra, pois é com a vida (mesmo que única) que se produz a riqueza, sem ela (a vida) não há o valor.
PAULO ROGÉRIO SANCHES é advogado em Londrina


O choque do nu
Célia Musilli
  O Dia do Nada, comemorado por um grupo de artistas de Londrina na semana passada, rendeu mais do que performances na rua, rendeu prisão para três integrantes que tiraram a roupa em praça pública. O ato considerado ‘‘obsceno’’ que justificou a prisão dos artistas, deixa no ar interrogações e indica que a reflexão é o caminho para compreender o que não pode ser taxado apenas como manifestação sem pé nem cabeça. Quem viu no happening apenas os artistas sem roupa não atentou para o título da instalação que justificava o nu: ‘‘Corpo sem roupa, roupa sem corpo’’. A oposição dessas idéias indica que se pretendia mais do que chocar a opinião pública. Um choque também questionável porque o nu, no país do Carnaval, já ganhou as ruas há muito tempo.
  Quem se chocou com o nu num contexto diferente do carnavalesco ou do show que a mídia oferece diariamente com mulheres e homens expondo corpos como mercadorias, talvez não tenha compreendido que no Dia do Nada o nu significava a retomada da individualidade numa sociedade massificada. Mais do que corpos sem roupa e também desprovidos de qualquer apelo erótico, chamaram minha atenção as ‘‘roupas sem corpo’’, aquelas ‘‘embalagens’’ de gesso vazias que fazem sentido para quem observa que a roupa não é mesmo nada se não tiver conteúdo, de preferência conteúdo humano e de qualidade. As ‘‘roupas sem corpo’’ foram o protesto mais contundente do Dia do Nada a um mundo sem conteúdo, onde a roupa vale mais que o indivíduo. Um mundo onde se valorizam grifes que massificam identidades. E quando, enfim, o artista fica nu, diluem-se num corpo de carne e osso as expectativas de poder a partir de signos que formatam as aparências. E as aparências enganam.
  O nu nunca esteve dissociado da arte que, libertária por natureza, sempre absorveu a beleza ou feiúra dos corpos indicando que somos apenas humanos, demasiadamente humanos, e assim nus podemos ser representados nas esculturas gregas, na fotografia contemporânea ou num happening no fim da tarde. Está certo que na ‘‘terra brasilis’’ a nudez passou a ser vista como pecado desde que vestiram os índios. Mas um passeio rápido pelo repertório da cultura nacional aponta nichos onde o corpo, o erotismo e o sexo são tratados de forma grosseira e simplista e ninguém se choca. A mesma sociedade que considera inofensivo o refrão da música ‘‘Festa no Ap꒒, que fala em orgia e bunda-lê-lê, não suporta a nudez sem revestimento erótico à luz do dia. E foi isso que os artistas do Dia do Nada fizeram, tiraram a roupa sem apelo erótico e sem imprimir no gesto qualquer contestação a não ser a do direito de retomar sua identidade humana. Nus em pêlo como vieram ao mundo. A contradição dos que se escandalizam é aceitar a banalização do corpo e reprimir a nudez sem apelo sexual.
  A mim choca mais ver um cachorro vestido do que um ser humano nu. Dias desses vi na rua um cão de colete que não conseguia coçar o pescoço porque uma ‘‘gravata’’ o impedia. Aí sim, deu vontade de gritar para o guarda: ‘‘Solte o lulu e prenda a madame.’’
CÉLIA MUSILLI é jornalista da Folha e editora do Caderno Folha2 e da Folha Cidadania


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