ESPAÇO ABERTO
Papa e moral conservadora. O que fazer?
- Mary Neide Damico Figueiró
Diante da escolha do Papa Bento XVI que, possivelmente, continuará conservador nas questões ligadas à sexualidade, penso que os sentimentos que podem estar tomando conta de algumas pessoas sejam a insegurança e o medo, neste terreno. Uma demonstração do que significa este conservadorismo nos foi dada pela posição defendida pela irmã e filósofa do Vaticano, Elena Lugo, que esteve em Londrina no mês passado.
Transcrevo trecho da reportagem da Folha de Londrina, do dia 15/3, que resume o pensamento de Elena: Quanto ao uso de contraceptivos e preservativos, a irmã reflete a opinião do Vaticano: é contra. Uma mulher solteira só deve usar anticoncepcional se esse for o único remédio para uma enfermidade. Nunca para evitar gravidez, afirma. Já no caso de mulheres casadas, a filósofa acredita que há a possibilidade de fazer um planejamento familiar sem necessidade do remédio. Se tiver um diálogo entre o casal, não será difícil se abster por um período para evitar outro filho, explica.
Com toda esta postura, ela denota não estar sintonizada com a época em que vivemos; está remando contra a maré! Como esperar que nossa juventude deseje aderir ao catolicismo, se este propõe um jeito de viver que não mais condiz com a realidade? A filósofa também afirmou que é contra o aborto em qualquer situação e que, em caso de estupro, aconselha não interromper a gravidez e entregar o filho a uma instituição. Para mim, é uma atitude extremamente fria e desumana diante de uma criança que vem ao mundo! O que impera é a regra de nunca aprovar o aborto e de nunca rever esta regra, não importa que vida levarão, a criança nascida, ou a mãe que deu à luz.
Numa das publicações do Instituto Superior de Estudos da Religião (ISER), em 1992, Carmen Cinira Macedo afirmou que, diante do descompasso entre o que a Igreja prega como norma sexual e a realidade atual, muitos católicos acabam por cultuar uma religiosidade popular, na qual o indivíduo assegura seu sentimento de pertença ao catolicismo, enquanto que, num contato direto com Deus, gerencia sua vida sexual sem conflitos e culpas. Segundo esta estudiosa, o povo acredita que toda a Igreja Católica guia-se pelas posturas antigas e reacionárias em relação ao sexo.
Afirma que há, no entanto, uma parcela do clero que tem assumido, nos últimos anos, inclusive no Brasil, uma postura aberta e atualizada, na qual o cristão é orientado, não a seguir ao pé da letra as regras morais determinadas pelo Vaticano, mas sim, a guiar-se pelos valores morais cristãos, tais como: o amor, o respeito pelo outro e por si próprio, a justiça, a igualdade e a fraternidade. Assim, diante de cada questão relacionada à sexualidade, o cristão pode, pautado nestes valores, decidir por si próprio, com liberdade e responsabilidade, o que é certo ou errado. Se a Igreja continuar radical nas questões da sexualidade, sabemos que temos este caminho que nos ajudará a sermos livres da repressão, sem esmorecer na fé. É animador saber que Bento XVI tem como lema fortalecer, nas pessoas, a fé e a amizade com Jesus; torçamos para que isto se dê paralelo à revisão de toda moral sexual, a fim de que a adesão ao catolicismo seja mais forte, íntegra e verdadeira.
MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ é psicóloga, doutora em Educação e professora do departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina
O cão e o sem-teto
-João Aparecido Paes
No Brasil e no mundo, onde há bancos de praça, uma sombra legal, um chão macio, existe a possibilidade de amigos desfrutarem das belezas do dia e da noite. Não falo dos amigos em férias ou que tomam um sorvete num dia típico de verão, mas de uma amizade nascida da ausência de recursos, que fez das praças um lar. Assim, o sem-teto e o cão de rua têm em comum o fato de que são parte de uma realidade invisível.
A perda da dignidade abstrai do ser humano seu significado de importância e o coloca à margem dos seus semelhantes, passando a ser um mero corpo em movimento que ruma a lugar nenhum. Ele fala nossa língua, mas não há ouvidos disponíveis e, numa matemática de variáveis onde tudo se soma, subtrai, divide e multiplica, o resultado é sempre o mesmo: inexistente!
Já os cães não falam nossa língua, não conspiram, nem abandonam a quem amam. São, como muitos outros animais, de extrema utilidade para o homem: podem ser cobaias nas faculdades de medicina veterinária, chutados para descarregarmos o stress do dia, jogados fora como um brinquedo do qual se cansou. Pode-se atropelar um ou dois e seguir em frente.
Homem e animal, compartilhando do mesmo descaso, da mesma comida ou falta dela. De fato, o olhar de um cão é como um espelho que deixa, por um momento, de refletir tão-somente o ego das pessoas, mostra que ao dividir aquele chão macio da praça, ali pode estar a dignidade que nos falta. Numa história em que exclusão é a visível e constrangedora verdade, entre o cão e o sem-teto, já não se pode afirmar quem acolheu a quem!
JOÃO APARECIDO PAES é estudante de Administração de Empresas na Faculdade de Educação, Administração e Tecnologia de Ibaiti
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