E agora José?!
-Manuel Joaquim dos Santos

  Joseph Ratzinger aos 78 anos de idade tornou-se o 265º papa da história e o oitavo alemão. Adotou o nome de Bento XVI. A fumaça branca, não clara em sua cor, gerando nos peregrinos da Praça de São Pedro dúvida e apreensão foi com certeza augúrio dos questionamentos que agora pairam pelo mundo afora, sobre o pontificado do ex-prefeito para a Congregação da Fé, antiga Inquisição. O cardeal alemão detentor de sete doutorados honorários e o guardião da Fé católica durante 23 anos, já foi chamado de vice-papa, pela sua proximidade ‘‘intelectual’’ com o papa anterior, João Paulo II.
  Não foi uma surpresa para o mundo. Apesar do desejo confessado de uma boa parcela dos católicos, que preferiria ouvir um nome mais sonante para nós latino-americanos, os cardeais optaram pela continuidade e deram o voto ao seu decano. Nos anos 80 enfrentou a Teologia da Libertação e pessoalmente o seu ex-aluno Leonardo Boff e tem manifestado posições peremptórias no que diz respeito a assuntos considerados delicados dentro da esfera do relacionamento Igreja-Mundo.
  ‘‘Nas horas de seu maior apogeu, a Europa parece ter se tornado vazia por dentro, paralisada por uma crise que ameaça sua saúde e a faz depender de transplantes’’, escreveu ele num livro recente. Quanto ao ecumenismo também foi duro: ‘‘A Igreja católica é a mãe de todas a igrejas cristãs. Por isso, outras igrejas não devem ser consideradas irmãs da Igreja Católica’’. Assuntos como aborto, eutanásia, casamento de homossexuais, clonagem e outros, tem no novo pontífice um posicionamento definido que dificilmente mudará. Nas pegadas do predecessor ele combate ‘‘a ditadura do relativismo que não reconhecendo nada como definitivo, tem como seu maior valor o ego e os desejos de cada um’’.
  A tarefa de Bento XVI é árdua e com certeza carregada de uma alta conotação transitiva. Ele tem 78 anos. Esse fator, por incrível que pareça, pode ter sido eleitoralmente favorável. A Igreja talvez não tivesse ainda na manga a carta certa para este momento delicado de substituição de João Paulo II. Estamos no início do Novo Milênio. Dizer que as questões éticas e filosóficas são novas para a Igreja é muito pouco. A Igreja precisa ser do Novo Milênio para as enfrentar!
  Ratzinger, o papa, saiu da sombra de João Paulo, o Grande, e ocupou o trono de Pedro. Será que conseguirá proporcionar a um bilhão de católicos, uma sombra frondosa e refrescante que lhes dê alento na longa caminhada rumo ao Pai? A apreensão é grande e legítima. Afinal se é para dar continuidade ao papa morto, a tarefa talvez seja para o atual mais difícil e ingrata do que impor novos caminhos e o seu próprio sol. Resta-nos sempre a convicção profunda de fé de que a história tem em seu bojo a delicada, discreta, mas eficaz mão de Deus. Seja bem-vindo Bento XVI!
MANUEL JOAQUIM RODRIGUES DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina


Os fiéis em busca de respostas
Walmor Macarini

  A humanidade está tão voltada para as coisas do mundo que, agora que é eleito um novo Papa e tantas opiniões se manifestaram, não se ouviu uma única voz sobre a função primordial da Igreja, que é a busca da elevação espiritual dos fiéis. Todos cobram que a Igreja continue olhando para os pobres e oprimidos, como se esta fosse sua incumbência fundamental, quando tal é atribuição do Estado e da sociedade. Se a Igreja também compõe o tecido social, ela existe para semear em outra seara e assim melhor preparar o seu rebanho para a vida terrena e para a eternidade. Porque a condição de pobreza a que chegaram enormes bolsões da população deve-se à ausência de espiritualidade, e a Igreja, ao enfrentar corpo a corpo a problemática do mundo, ocupou-se dos efeitos sem atentar para as causas, que têm origem na consciência de cada indivíduo.
  ‘‘Amai-vos uns aos outros’’, foi o ensinamento, que posto em prática extingüiria as misérias humanas – sociais e existenciais – assim como os conflitos entre os homens. João Paulo II, em sua cruzada pela defesa dos caídos e desassistidos, operou sozinho e não levou de arrasto a Igreja, por esquecer que atrás de si estava um exército de 1 bilhão de católicos, atentos ao seu comando mas que ele não motivou. Uma coisa era o Papa e outra a nação católica com pouco amor para dar. Esta permaneceu inerte, porque faltou a palavra motivadora do incansável sacerdote. Melhor teria sido o Pontífice haver tocado o coração de seu rebanho.
  O novo Papa, sem grandes inovações, tenderá a seguir os passos do antecesssor, que fez girar tão veloz a roda política da Igreja nessa jornada em defesa dos fracos e excluídos que, agora, ela terá de continuar nesse ritmo. Não se entendeu bem as palavras de Joseph Ratzinger, pronunciadas no ano passado, quando disse que ‘‘quanto mais uma religião se assimila ao mundo, mais ela se torna supérflua’’. Há que esperar o tempo para saber o real sentido desse seu pensamento.
  A Igreja progressista, que Ratzinger tanto combateu, trilha, também ela, pelo campo da temporalidade, embora a profundeza de certos pontos da teologia do padre Leonardo Boff. As duas linhas – a conservadora ou a progressista – não levarão os católicos a uma expansão da espiritualidade – que não deve ser confundida com cega obediência aos dogmas – e cada fiel terá de fazê-lo por conta própria, se é que o desejar. A debandada de muitos crentes é o sinal de que algo falta – o que o novo Papa não irá suprir, a menos que algo surpreendente surja.
  A Igreja Católica é resistente em seus seculares fundamentos e tudo indica que será, sempre, uma poderosa instituição político-religiosa, com olhar voltado mais diretamente para o próprio globo terrestre. Assim, poderá conquistar simpatizantes mas não despertar a espiritualidade adormecida nos seus fiéis e ter dificuldade em angariar novos, ambos em busca de respostas para muitas indagações que a Igreja não está sabendo responder.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


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