João de Deus educador
Sem entrar no mérito do que distingue o ensino católico daquele de qualquer outra confissão, religiosa ou não, não posso deixar de manifestar a minha admiração por João Paulo II nesses dias, principalmente como pensador e educador. Como se sabe, o pontífice abriu mão do seu nome polonês para se colocar diretamente na corrente da tradição de outros papas-educadores de nome ''João'' e outros ''Paulos'', que, como o apóstolo, tiveram uma grande contribuição no cumprimento do mandato cultural de Jesus Cristo (''Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado'' - Mateus 28,19-20) e, portanto, para a expansão do cristianismo, ao menos, nos países em desenvolvimento.
Sua postura humilde, a simplicidade no tratamento de questões complexas como as relações familiares, é trazida até nós numa linguagem acessível. Suas 13 encíclicas e dezenas de outros escritos são prova de sua força moral e seu constante convite a uma vida regrada por grandes nortes éticos, como as virtudes cardeais (justiça, moderação, coragem e prudência). Particularmente nessa, considerada a mais importante e notória encíclica, Fides et Ratio (Fé e Razão), equiparando-se, quem sabe, a Veritatis Splendor (Esplendor da Verdade), ele atualiza questões já discutidas amplamente na Idade Média e que procuram dar conta das consequências nefastas do racionalismo e cientificismo, rumo a uma síntese articulada.
Obras literárias como essa são prova da sua vocação, não apenas como grande teólogo e líder religioso, mas, principalmente, como pedagogo, se entendermos pedagogia no seu sentido greco-judaico de ''condutor'', ou do grego, paidagogo.
A marca registrada de sua atuação à frente da Igreja Católica foi, assim, o seu papel de mediador e pacificador, com suas mensagens educativas de fé, esperança e paz, numa era anuviada de relativismo e crise de valores.
Assim, apesar do encolhimento geral do catolicismo por todo mundo e aumento dos fundamentalismos e radicalismos em todas as religiões, foi explícita e notória a sua contribuição com novas perspectivas de harmonização de um homem excessivamente fragmentado e sem esperança de futuro que está na raiz da crise da educação por todo o mundo. Quiçá o próximo papa siga os passos desse educador.
GABRIELE GREGGERSEN é professora de Metodologia do Ensino Superior da Faculdade Teológica Sul-Americana em Londrina


A república do velho Lima
No delicioso ‘‘O Conto da Vida Burocrática’’, Artur Azevedo, escritor maranhense, ele mesmo um burocrata durante 30 anos, retrata o velho Lima, empregado de uma repartição pública, caindo enfermo em 14 de novembro de 1889, véspera da proclamação da República. Restabelecido, voltando ao trabalho oito dias depois, o funcionário, que não lia jornais, surpreendeu-se ao ser chamado de cidadão (em vez de ilustre, termo da época) e ver coisas inimagináveis: vândalo arrancando coroas imperiais de prédios públicos, o amigo comendador que perdera a comenda, uma nova bandeira, serventes maltrajados cheios de orgulho e, para coroar, a retirada do retrato do imperador Pedro II da parede da repartição. ‘‘Por quê?’’ indagou. ‘‘Ora, cidadão, que fazia ali a figura do Pedro Banana?’’. Sentando-se, o perturbado Lima pensou com tristeza: ‘‘Não dou três anos para que isto seja República.’’
  Passados 116 anos, a República profetizada pelo velho burocrata é um projeto ainda tosco. O Brasil rural da Primeira República, que dominou a vida social e política até 1930, cedeu lugar ao Brasil urbano. O populismo, que ganhou força entre 1930 e 1937, na esteira da mobilização nacional – com a multiplicação de sindicatos, associações classistas, partidos e movimentos de massas – e amparado na legislação social criada pelo ‘‘pai dos pobres’’, Getúlio Vargas, é pálida lembrança.
  O que se vê hoje é um ensaio de democracia participativa, no seio da qual uma miríade de núcleos agita a alma nacional, fazendo pressão e exigências. Mudou o perfil do povo como agregado apático e incapaz de discernir politicamente. Demonstração recente do ânimo participativo foi a mobilização social contra a famigerada Medida Provisória 232, que sufocava setores de serviços. Quer dizer que a República conseguiu alcançar a meta para a qual foi concebida, a de instaurar o governo dos cidadãos, enterrando privilégios da monarquia?
  Em termos. Vícios do passado continuam fortes. Ao adotar o federalismo, a República reforçou lealdades estaduais, em detrimento do civismo nacional. Em conseqüência, elites locais se fortaleceram. Os coronéis, depois de perderem o posto mais alto na hierarquia militar da Guarda Nacional, transferiram o poder para a esfera política. E o que se viu, desde então, foi a consolidação do cartorialismo, mazela que herdamos das sesmarias coloniais, pela qual o novo coronelato usa o escudo do mandato para se apropriar de pedaços da ‘‘res publica’’. Essa é um pouco da feição da República neste início de terceiro milênio. Se antigamente o apoio ao governo redundava em indicação de delegado de polícia, juiz, agente dos correios, coletor de impostos, agora, o apoio aos governos – federal, estadual e municipal – implica nomeação para ministérios, autarquias, empresas e repartições.
  Por que o presidente da República, em vez de reduzir o número de ministérios de 35 para 20 ou até menos, e impor a racionalização de estruturas de gestão, agregando eficácia, qualidade e probidade, mantém a mesma quantidade de ministros, aumentando a taxa de desarticulação política e incentivando a improvisação administrativa? Porque coloca o projeto da reeleição em primeiro lugar. O horizonte de 2006 inspira as decisões de Lula. Por isso, a reforma ministerial está inconclusa. É o caciquismo que continua a dar as cartas.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da Universidade de São Paulo e consultor político


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