ESPAÇO ABERTO
O que há com o e-mail?
Abraham Shapiro
Lembro-me de quando imaginei que o e-mail - correio eletrônico, em português - seria o substituto definitivo do fax. Uma experiência pessoal fez-me sentir o quão longe estamos do sonho que tive 1995. Eu tentava agendar uma audiência com um empresário. Queria apresentar a ele uma proposta. Após conseguir todos os dados de que precisava: nome completo, número do telefone, fax, o e-mail dele e o da secretária, escrevi uma mensagem de e-mail para me apresentar. Anexei os dados mais importantes. Tudo muito bem diagramado. Da forma que estava eu despertaria seu apetite para o meu produto sem nenhuma dúvida.
Em duas semanas enviei a mensagem duas vezes. Não obtive sucesso. O passo seguinte foi copiar todo o texto do e-mail, colar no word no formato de uma correspondência comercial, imprimir e passar por fax. Vinte e quatro horas depois, a secretária dele me ligava. Vendi meus serviços, mas foi grande a decepção. Minha mensagem eletrônica foi sumariamente ignorada. O aparelho de fax foi por onde consegui o novo cliente. Minha análise. Estou começando a achar que conseguimos diminuir muito o brilho, a grandeza e a praticidade da comunicação eletrônica. Foram tantas piadas, correntes, lixos e besteiras que deixamos passar pela peneira do bom senso e da educação que o resultado foi a desconfiança generalizada em relação a tudo o que se recebe pela internet. Por isso, desejo propor uma jornada coletiva a todos que lerem este artigo. Vamos iniciar uma campanha de uso moralizado e profissional do e-mail em nossas empresas.
Primeira iniciativa proposta: empregue o e-mail estritamente para questões profissionais, difusão de conhecimento, informação e comunicações úteis concernentes ao trabalho. Segunda iniciativa: tenha um horário dedicado a abrir, ler e responder todos os e-mails. Faça-o da mesma maneira que você se portaria com uma carta comercial ou um fax. Trate-o com importância. Terceira iniciativa: em seu trabalho não abra nem retransmita qualquer mensagem que estiver fora dos critérios que apresentamos. Com isso, o volume de lixo e futilidades tenderá a diminuir. Quarta iniciativa: tenha um endereço eletrônico pessoal - para ler mensagens em sua casa - e outro profissional - exclusivo para o trabalho. Não é preciso ser duro com aqueles que entopem sua caixa com piadas e fotos. Diga-lhes que enviem para seu endereço pessoal. Com isso, você certamente poderá manter seu network com maior sabedoria.
ABRAHAM SHAPIRO é empresário da área de Treinamento e Desenvolvimento Humano em Londrina
Quem casará com quem?
Gaudêncio Torquato
Se o partido A casa com o partido B sob o teto da catedral de Brasília, terá de fazer o mesmo tipo de casamento nos estados, sob os tetos das igrejas locais. Esse é o princípio da verticalização partidária, em torno da qual se voltarão as atenções nas próximas semanas. Como se sabe, até o momento, a regra continua valendo para as próximas eleições presidenciais. Isso quer dizer que qualquer partido que fizer coligação com o PT, no apoio ao projeto de reeleição de Lula, terá, necessariamente, de fazer o mesmo tipo de aliança nos 27 estados da Federação. Regra exposta, emerge a questão: quem leva a melhor com a verticalização partidária?
Resposta: o PT. O Partido dos Trabalhadores só tem ganhos ao reunir em torno do presidente Lula o maior número de partidos, principalmente as grandes agremiações. Com a verticalização, o quadro político-eleitoral ficaria menos embaçado, propiciando leitura mais clara de estruturas governistas e oposicionistas. A partir deste entendimento, pode-se deduzir que aos dois grandes partidos de oposição - PFL e PSDB - pode interessar a verticalização partidária, principalmente quando se leva em conta uma polarização entre situação e oposição. Nesse cenário, o mapa eleitoral exibiria dois fortes candidatos, Lula, de um lado, e um oposicionista, saído da coligação de tucanos e pefelistas.
Mas o fiel da balança é o PMDB. Maior partido brasileiro, em função da capilaridade - maior número de prefeitos, vereadores e deputados estaduais - ao PMDB não interessa muito a verticalização. E a razão é plausível: o partido conta com candidatos bem viáveis em 17 estados, a partir da reeleição de Germano Rigotto (RS), Luiz Henrique (SC) e Roberto Requião (PR). O melhor que poderia ocorrer ao PMDB, dentro da meta de eleger o maior número de governadores, deputados federais e estaduais, seria a alternativa de uma candidatura própria à presidência da República, na medida em que seu candidato puxaria as campanhas estaduais, movimentando as bases.
Coligado ao PT, por exemplo, o PMDB continuaria muito fracionado. Teria de ceder ao PT, em muitos estados, o nome do candidato para encabeçar a chapa. Seria formado um nó difícil de ser desfeito. O PT apoiaria, por exemplo, Rigotto no Rio Grande do Sul? Pouco provável. Requião cederia a vaga a um candidato petista no Paraná? Inimaginável. E assim por diante, as realidades estaduais praticamente enterram a possibilidade de uma coligação entre PMDB e PT, razão pela qual a decisão da convenção peemedebista, em dezembro de 2004, de ter candidatura própria, continua valendo.
Se as pesquisas melhorarem muito, muito mesmo, a posição de Lula, no primeiro quadrimestre de 2005, seria possível que, por votação de 2/3, o PMDB decidisse apoiar, na convenção de junho, a reeleição do atual presidente. Até lá, as bandas peemedebistas vão brincando de gangorra, subindo e descendo, na esteira de pesquisas em torno da imagem presidencial. Há, ainda, os chamados fatores endógenos, internos, que exibem a cota de prestígio de líderes nos diversos ciclos da conjuntura. Renan Calheiros, por exemplo, o presidente do Senado, vive seu inferno astral, nesse momento em que ganham destaque denúncias em torno de seu afilhado, o ministro Jucá, da Previdência. A política brasileira é um poço de imprevisibilidade. O forte de hoje poderá ser o frágil de amanhã.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor na Universidade de São Paulo e consultor político em São Paulo





