ESPAÇO ABERTO
O que é leninismo?
Domingos Pellegrini Jr.
A propósito de artigo anterior publicado pela Folha ''Pioneiros e leninistas'' (12/3) , perguntam o que é leninismo. Leninistas são os seguidores de Lênin, o líder da Revolução Russa, cujo máxima era que os fins justificam os meios.
Para conseguir uma sociedade livre e justa, comunista (com direitos comuns a todos e as propriedades sendo de todos), o leninismo justificava tudo, desde a luta armada até os massacres contra oposicionistas quando já no poder.
Os massacres de Stalin têm origem nessa visão vale-tudo de Lênin, que a legitimou usando 150 vezes, em seus poucos livros, uma expressão que Marx usou apenas 6 vezes em seus muitos livros: ''ditadura do proletariado''.
Os comunistas tomaram o poder, instalaram partido único, confiscaram todas as propriedades, censuraram a imprensa, perseguiram e massacraram, tudo em nome da ''ditadura do proletariado''. O proletariado entrava nessa história com o nome e ficava com a miséria socializada, enquanto os comunistas de carteirinha ficavam com privilégios e mordomias.
''O capitalismo não consegue distribuir a riqueza, mas o socialismo distribui igualmente a pobreza'' - este chiste só foi possível graças ao leninismo, que encarcerou as idéias socialistas num regime autoritário e centralista, que queria controlar tudo: a imprensa, as artes, as ciências, a educação, a agricultura, a indústria, o comércio, a arquitetura, a família. E deu no que deu, esboroando diante da pluralidade e da diversidade próprias da natureza humana.
Mas de tudo fica um pouco, conforme o poeta, e hoje temos uma medicina em muito socializada, além de muitos avanços sociais graças às propostas socialistas, que se perenizam quando implantadas pela via democrática. Por via autoritária, são rejeitadas pelas sociedades democráticas, que são maioria crescente no mundo.
Sempre, no entanto, há governos querendo controlar mais do que devem, apesar do pluralismo avançar até nas sociedades islâmicas. Controlar tudo é apenas resquício leninista altamente perecível.
DOMINGOS PELLEGRINI JR. é escritor em Londrina
A morte de Giovanni Paulo II
José Mario Angeli
A morte de Giovanni Paulo II coloca algumas questões para a Igreja Católica Se, pensarmos que durante um quarto de século (tempo do seu pontificado), a sua ação teve interferência ao menos em duas grandes mudanças ocorridas no mundo: o fim da União Soviética e o ingresso de uma época marcada pela guerra preventiva sob a hegemonia americana.
A ação papal foi vitoriosa, enquanto combateu o comunismo e, com lágrimas derramadas no seu interior, também combateu a Teologia da Libertação, pois enfatizava a espiritualização mais que a prática social transformadora. E ainda, representou uma abertura às religiões monoteístas judaicas e muçulmanas, possibilitando uma reação positiva em todo o mundo cujo resultado estamos assistindo agora por ocasião de sua morte.
Se por um lado, o florescimento da espiritualização apareceu com intuito do Papa de reforçar o poder temporal da Igreja, por outro ele deixou uma herança difícil para o futuro pontífice administrar e quem sabe poderá até alongar o tempo do espetáculo de Karol Wojtyla. Como administrar essa herança deixada por ele sem ter que desmenti-lo ou sem ter que insistir na espiritualização do mundo? Com quem o Colégio de Cardeais poderá contar para continuar a insistir nesta mesma linha, ou em corrigi-la? Que representação, de que continente? Ela será velha ou nova? Tudo isto tem implicações para o novo pontificado.
Na atual fase do capitalismo armado e guerreiro insistir sob o poder temporal da Igreja, não poderia tornar-se uma ação perigosa da Igreja? Não tendo mais uma guerra contra o comunismo que unificava oponentes diversos e conflitivos, resta, no entanto, uma guerra interna entre similares muito menos justificável ideologicamente ou religiosamente. Paradoxalmente, Karol Wojtyla foi contra a guerra do Iraque, se confrontando com George Bush, mas se identificando nas questões morais. O que parece é que, com a saída de cena do comunismo e do Papa, dificultaram-se as coisas para Deus que sempre teve a necessidade do diabo para se confrontar.
Resta saber, como o novo Papa, irá enfrentar o capitalismo. Será o capitalismo personificado com o diabo, como foi empregado para combater o diabo comunista? Se assim o for, o futuro pontífice, terá pela frente a negação do poder temporal da Igreja, tarefa nada fácil de ser permitida pela Cúria Romana. A morte de Giovanni Paulo II e o círculo midiático ao seu redor é a mais pura representação do espiritualismo de seu pontificado, e, ao mesmo tempo, é a temporalização para que o futuro chefe da Igreja, não incorra numa ruptura do poder temporal da Igreja. Esta representação que assistimos corrobora para celebrar o passado, mas a angústia e a preocupação com o futuro permanece.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina





