A expressão do Papa João Paulo II
Clemente Ivo Juliatto

Gostaria de destacar as onze razões que tornam o Papa João Paulo II uma das figuras mais expressivas da história da humanidade e da história da Igreja na era contemporânea:
1. Pela sua vigorosa atuação na conciliação dos povos, sistemas econômicos e políticos e lideranças mundiais.
2. Pela convicção profunda que o progresso econômico e o desenvolvimento social são consistentes quando estão embasados na solidariedade pessoal e coletiva, na paz, na harmonia e no bem-estar das pessoas, indistintamente.
3. Por ser corajoso promotor do entendimento entre as nações e as religiões e dialogar intensamente inclusive com os não-crentes.
4. Por ser um lutador sem tréguas e sem descanso contra a violência, o materialismo e o intolerância em todos os setores da sociedade.
5. Pelo apoio e significado que atribuiu ao trabalho intelectual, às artes, ao teatro e à literatura, naturalmente com conhecimento de causa, por ser um intelectual e professor universitário.
6. Por mudar o foco, acelerar e dar sentido humano ao movimento da globalização da solidariedade.
7. Por ensinar e dar exemplo aos profissionais da educação, da comunicação e da saúde de como devem servir com qualdiade a comunidade, particularmente os menos privilegiados social, econômica e intelectualmente.
8. Por inspirar projetos pedagógicos, programas comunitários e ambientais das Universidades Católicas do mundo inteiro.
9. Pelo carinho extraordinário que sempre teve para com os comunicadores, crianças e jovens, revigorando entre eles o diálogo entre a fé, a ciência e a cultura transcontinental.
10. Por ter enfrentado com serenidade e firmeza toda espécie de dificuldades e perseguições religiosas e políticas.
11. Por ter se empenhado em prol de valores que conduzem ao bem e à santidade, que são a verdade, a justiça, a fraternidade e a transcendência.
CLEMENTE IVO JULIATTO é reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná em Curitiba

João Paulo II entra para a história
Manuel Joaquim Rodrigues dos Santos

''O papa retornou à casa do Pai''! Com estas palavras se anunciou oficialmente a morte de Karol Wojtyla. Um anúncio aplaudido por milhares de peregrinos que misturavam suas lágrimas de saudade e comoção com a fé que gritava mais alto! O papa chegou ao final e morreu de pé! Assim morrem os heróis, os campeões! Os fiéis o honraram como sempre gostaram de fazê-lo, aplaudindo-o! E assim, João Paulo atravessava o limiar da vida e entrava na eternidade.
Ao entrar na história e sendo uma pessoa pública, o papa polonês enfrentará inevitavelmente o julgamento inerente ao próprio processo. Isso não é bom nem ruim. É apenas a lógica sequencial que obedece à liturgia do momento. Quantas vozes se levantarão do norte e do sul, quantas páginas de leste a oeste e quantos analistas discorrerão sobre os 27 anos de seu pontificado! Ele foi sem dúvida nenhuma, maior na sua exposição mediática que o próprio cristianismo que representava! Ele era a figura! O ator que sabia melhor do que ninguém, onde queria chegar e utilizava os recursos adequados para isso. Podem acusá-lo de tudo, menos de miopia em relação a claros e determinados objetivos!
Eleito em 1978 fez de suas viagens apostólicas - inauguradas imediatamente no início do ano seguinte - uma prioridade. Ele queria ''confirmar os seus irmãos na fé'' e para isso viajou 129 países. Mais de um milhão de quilômetros! Em 1979 decorreu a visita ''polêmica'' à Polônia no aniversário de São Estanislau padroeiro do país. O então presidente da União Soviética, Leonid Brejnev, quis impedir a viagem mas os poloneses em massa o impediram! A Polônia, o comunismo e a Europa de Leste nunca mais foram os mesmos a partir de junho desse ano! Era decididamente o papa da queda do muro, anos mais tarde. Seus anos de juventude passados no antigo regime não lhe foram alheios ao protagonizar esse papel de intervenção no processo histórico. É hoje uma certeza em sua biografia.
Ao lado das batalhas vitoriosas e internacionalmente reconhecidas como tais, vieram outros conflitos internos externos que se constituíram em espinhos na sua caminhada pontifícia. A Teologia da Libertação aqui na América Latina que mereceu do Vaticano condenações explícitas, foi o começo de muitas outras controvérsias que ficarão também para a futura classificação do pontificado de João Paulo II. Foi um papa radical em seus posicionamentos sobre a teologia moral. Nem conservador, nem progressista, apenas assumida e tenazmente coerente com suas idéias. Chegou a dizer um dia, que a moral cristã não poderia ser fruto de uma maioria ou minoria pensante! Ele carregou nos ombros desde os momentos iniciais de seu pontificado, a convicção férrea de que dirigia a Igreja rumo ao Novo Milênio com determinação e como instrumento de Deus. São também palavras dele em Castel Gandolf de que sentia constantemente que uma força exterior a ele comandava suas iniciativas pessoais e as legitimava. Era um homem de fé.
Substituí-lo? Penso que ninguém de bom senso em Roma pensará assim. O próximo papa não poderá nem desejá-lo, nem sucumbir à tentação de dar continuidade ao reinado do papa polonês! A Igreja precisa discutir abertamente questões que hoje surgem em tempo real nas universidades, nos meios de comunicação, nos debates públicos. Isso se fará, não na fidelidade ao papa maravilhoso que está morto, mas na docilidade ao Espírito que tudo renova e mergulhando profundamente no carisma que brota dos documentos do Vaticano II.
A Igreja no início do século XXI ainda precisa se encontrar internamente, em suas estruturas e leis e externamente, sendo, não só o sinal de salvação, mas um sinal convincente para o homem hodierno, num constante diálogo ecumênico com as outras religiões e com a cultura que ela própria pode ajudar a (re) criar. Assim surgirá a civilização do amor, por que tanto lutou Karol Wojtyla.
MANUEL JOAQUIM RODRIGUES DOS SANTOS é padre da Arquidiocese de Londrina

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