O Brasil e a década violenta
Francisca Vergínio Soares

Segundo as Estatísticas do Registro Civil, divulgadas pelo IBGE no final de 2004, nos últimos anos, o Brasil ficou ainda mais violento. Entre 1993 e 2003, o índice de mortes violentas entre homens cresceu 13,7%. O Distrito Federal apresentou os piores índices de violência, 24,5%. O percentual também é superior a 20% nos estados de Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Amapá e Espírito Santo. Na Inglaterra, não passa de 5% o percentual de homens mortos por causas violentas.
Na maioria dos estados, os números são preocupantes e não muito confiáveis em outros, mais pobres, porque lá o índice de mortes não-notificadas é muito alto, lembram os próprios técnicos do IBGE. Assim, o Piauí figurou com o melhor índice, 8,1%, mas também é um dos campeões de óbitos não-notificados. Por outro lado, o número de mulheres permaneceu estável após 10 anos: em torno de 4% do total de óbitos. Em todo o Brasil, o índice de homens mortos por causas violentas, em 2003, foi de 15,7% do total de óbitos. Acima dessa média e abaixo dos 20% estão os estados de São Paulo (18,8%), Pernambuco (17,6%), Goiás (17,5%) e Rio de Janeiro (17,2%).
Os números indicam que a morte violenta de homens, sobretudo os mais jovens, é um problema disseminado por todas as regiões do país, exigindo medidas específicas, de acordo com o técnico Celso Cardoso Gomes, do IBGE. Se comparados os números de 2003 com os de 2002, houve uma ligeira redução do índice em algumas regiões, embora os patamares permaneçam muito altos em relação ao que ocorre nos países desenvolvidos. Em todo o país, de um ano para outro o percentual caiu de 16,3% para 15,7%. No Norte a queda foi de 17,5% para 15,8%, no Nordeste de 17,5% para 17% e no Sul, de 15,3% para 13,3%. No Centro-Oeste e Nordeste, no entanto, a taxa teve uma discreta ascensão, de acordo com o IBGE.
Para os técnicos, os índices preocupantes têm causas variáveis. Na Região Sudeste, por exemplo, a crescente urbanização, com os problemas decorrentes, como a elevada taxa de acidentes de trânsito, assim como a crise econômica e social, caracterizada pelos níveis elevados de desemprego, entre outros fatores. Nas regiões Norte e Nordeste, os índices estão possivelmente ligados aos conflitos no campo e à exclusão social. Avaliam os técnicos que os estados que têm maior taxa de populações em áreas urbanas tendem a apresentar níveis mais altos de homens mortos por causas violentas.
É o caso do Rio de Janeiro, que tem 75% da sua população em área urbana e apresenta um índice de urbanização de 75%. Os dados mostram que o estado apresenta o maior número absoluto de morte por causas violentas. A Região Sul é o destaque positivo em relação ao número de mortes violentas. É o menor de todos os índices (13,3%), sendo que a área tem baixos índices de subnotificação. O Nordeste registra alto índice de mortes não-notificadas, o maior do país (35,2%).
FRANCISCA VERGíNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente da Universidade Estadual de Londrina, da Faculdade Evangélica do Brasil (ISBL) e da Uninorte

A vida antes e depois da vida
Walmor Macarini

A morte não é algo tenebroso mas apenas uma passagem; um adormecer aqui e um acordar ali. Na sequência imediata, para os comuns dos mortais, a vida logo depois do desenlace físico será idêntica à vivida aqui. Sentimentos permanecem no corpo astral, assim como doenças de natureza extrafísica, ódios, apegos, arrogâncias e até idéias de continuidade de opulência ou riqueza, se isto tenha sido obsessivo na existência terrena da pessoa. Tudo continuará tendo de ser curado. E para isto existem todos os aparatos de tratamento, tão iguais quanto os daqui, mas naturalmente adequados a uma nova essência de matéria.
''Na casa do Pai há muitas moradas'', está escrito, e as primeiras delas, para quem sai daqui trôpego e cheio de penduricalhos, são semelhantes à morada terrena, tanto que muitos imaginam nem haver passado desta para outra. Só espíritos muitíssimo evoluídos (talvez meia dúzia em cada bilhão de terráqueos) alçam vôo direto até os arcanos.
Isto não tem muito a ver com o caso de Terri Schiavo, a paciente americana da qual foi retirada a sonda, para que morra, mas trata da morte e é desse caso que desejo falar. A atitude de condenar essa jovem mulher à morte ressalta o pouco avanço espiritual da Justiça e da Medicina e a sua praticabilidade técnica, no que faz coro a bioética.
Preciso seria que essas instituições também buscassem conhecer algo que transcende a vida física, porque a Grande Vida não é conduzida pelo componente carnal do ser. Porém, salvar o corpo é primordial, porque no seu entorno está o espírito, que vem à Terra em cumprimento de uma vontade própria, pré-traçada antes da descida a este plano e que tem um tempo de duração, não incumbindo a ninguém interrompê-lo. A Justiça e a Medicina convencional são ciências (como todas) ainda crentes de que a vida começa no nascimento, quando na verdade essa ocorrência é apenas uma continuidade da Grande Vida de cada ser, que tem origem nos tempos eternos.
O espírito de Terri está consciente do que lhe ocorre e do que ocorre ao corpo ao qual está temporariamente agregado, e se a vida física pulsa é porque o processo cármico ainda não se findou. Ao desconectar a sonda, a Justiça permissora (e também impedidora de recolocá-la), assim como a Medicina e a bioética defensoras da eutanásia, podem estar intervindo no livre arbítrio do espírito da paciente. Se Jesus curou cegos e paralíticos, o milagre pode acontecer com Terri. Ela, supostamente, poderá desejar pedir algum perdão, quem sabe dizer alguma palavra, mas a ciência médica já decretou, com base na dimensão dos próprios parâmetros, que isto é impossível.
O estado a que se deu o nome de vegetativo não é um fim de vida, e a Justiça, desinformada nas questões sutis do fenômeno da vida, não deveria ocupar-se do que desconhece. E a Medicina, que apenas engatinha quanto ao conhecimento acerca da natureza e da origem espiritual da maioria das doenças, apesar dos grandes avanços técnicos a que chegou, pouco estuda e pouco sabe sobre a vida antes e depois da vida. Justiça e Medicina definham com atitudes com esta contra a paciente Terri Schiavo.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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