A 'farra dos bancos'
Paulo Muniz

A Caixa Econômica Federal registrou um lucro de R$ 1,419 bilhão. O Banespa lucro de R$ 1,750 bilhão. O campeão dos lucros foi o Itaú, que atingiu R$ 3,776 bilhões, batendo recorde de resultado da história dos bancos no país. Já o Bradesco registrou lucro de R$ 3,060 bilhões em 2004, seguido pelo Banco do Brasil (R$ 3,024 bilhões) e Unibanco (R$ 1,283 bilhão).
Enquanto isso, nós, pobres mortais, continuamos pagando a mais alta taxa de juros do mundo. Segundo uma pesquisa da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade, os brasileiros pagam 8,31% de juros ao mês no cheque especial em média, o que significa 160,63% ao ano. No caso de empréstimos pessoais, a taxa de juros cobrada é de cerca de 6,21% mensais, ou 106% ao ano.
Todos sabemos que nenhuma atividade - industrial, comercial ou de serviços - consegue alcançar números tão elevados. A indústria, o comércio e o setor de serviços do Brasil passam por dificuldades todos os anos. Os trabalhadores também. Se precisamos de empréstimo ou cheque especial, pagamos juros exorbitantes. Mas se por acaso temos um dinheirinho extra e colocamos na poupança, recebemos um retorno miserável, menos de 1% ao mês.
Até quando nossos governantes ficarão passivos com esta chamada ''farra dos bancos''? Não é possível que o setor bancário brasileiro obtenha lucros tão grandes. E o pior: não gere nenhum benefício para o país. ''Trabalha'' com o nosso dinheiro e não nos deixa nada em troca. Quem deve ou já deveu a um banco sabe o que acontece! Que o digam nossos agricultores, todos os anos em busca de rolar a dívida e, na maioria das vezes, obrigados a vender a terra para pagar compromissos bancários.
Precisamos que o nosso dinheiro - sim, nosso dinheiro! - que está nas mãos dos banqueiros retorne em obras de infra-estrutura, em custeio da agricultura, em empréstimos para o crescimento do setor produtivo (indústria, comércio e serviços), com taxa de juros adequada e não proibitivas como acontece hoje. Os governantes precisam taxar mais o setor especulativo e financeiro e menos, muito menos, o setor produtivo. Para isso, é necessário diminuir a taxa de juros e cobrar mais dos bancos que estão sem nenhuma dificuldade para obter lucros exorbitantes.
Por que não criar um imposto maior para os bancos e diminuir a carga tributária dos trabalhadores e daqueles que produzem riquezas para colaborar no crescimento do país? É mais fácil descontar o imposto de renda na fonte? Os trabalhadores têm menos força e fica valendo o ditado de que a corda arrebenta sempre do lado mais fraco. Mas chegou a hora de modificar esta estrutura nefasta que cria uma casta de milionários e uma multidão de necessitados.
PAULO MUNIZ é empresário em Londrina

Caso 'Schiavo': o direito à vida e à morte
Kiyomi Nakanishi Yamada

O avanço da Medicina nas últimas décadas tem propiciado grandes discussões no campo da bioética clínica. No caso da paciente americana Terri Schiavo há que se compreender o significado de três termos amplamente discutidos por Leo Pessini e Christian P. Barchifontaine no livro ''Problemas Atuais de Bioética'' - eutanásia, distanásia e ortotanásia.
A eutanásia não deve ser confundida com homicídio, ela designa a satisfação de uma ''boa morte'' ou quando a morte é abreviada nos pacientes que passam por um grande sofrimento, como nos casos de câncer em fase terminal sem chances de cura. Utiliza-se o termo distanásia quando são adotadas medidas que causam grande sofrimento, que prolongam o processo de morrer, medidas estas que em nada contribuem para a recuperação do paciente.
Entre a eutanásia e a distanásia, a ortotanásia pode ser acompanhada de eventual desligamento de aparelhos de manutenção artificial de uma vida sem qualidade, mas sem deixar de prestar cuidados básicos como higiene, analgesia, hidratação e alimentação. Quando o tratamento não consegue mais restaurar a saúde, insistir representa obstinação ou futilidade terapêutica; além de adiar a morte, prolonga-se a agonia e sofrimento para o paciente.
Os profissionais envolvidos no atendimento ao paciente terminal devem direcionar sua conduta no sentido de interromper o que é inútil e fútil mas sem deixar de prestar cuidados que garantam o respeito à integridade e à dignidade do paciente - estar próximo de seus entes queridos, receber assistência profissional especializada e, acima de tudo, que lhe seja garantido o direito a uma morte digna e serena.
Embora o tema ''morte'' seja um tabu na sociedade ocidental, há que se iniciar uma discussão sobre o ''living will'', uma forma de testamento antecipado em que o paciente declara em vida sobre procedimentos terapêuticos a serem adotados quando ele se apresentar no futuro impossibilitado de tomar decisões.
Com o objetivo de formar profissionais mais humanos, menos técnicos e capazes de estabelecer um diálogo permanente com pacientes, familiares e demais membros da equipe de saúde, muitos cursos da área da saúde como Medicina e Enfermagem passaram a incluir a discussão de temas ligados à bioética como ''seiva'' permeando os conteúdos das disciplinas ofertadas no curso.
KIYOMI NAKANISHI YAMADA é enfermeira, docente do curso de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina e membro do Núcleo de Bioética de Londrina

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