ESPAÇO ABERTO
Cotas: igualdade ou discriminação?
Gabriele Greggersen
Desde que chegou ao Brasil a onda das ''cotas'' para negros na universidade, confesso até hoje não entender bem seu significado. Será que se trata de uma medida de inclusão, como destacada recentemente pela revista Newsweek, que configura a chamada ''revolução racial brasileira''?
Para começar, vejo um problema ''técnico'': como ''(com) provar'' a cor da pele de uma pessoa e sua origem? Não precisa ser expert em genética para saber que ela nem sempre se manifesta de forma visível. Mais do que o aspecto genético e biológico, porém, a questão diz respeito à cidadania, pois, quem é que declara a cor da pele nos seus documentos de identidade? Só mesmo os poucos cidadãos brasileiros, que tiram o passaporte.
A legitimidade dos critérios usados para definir quem é efetivamente negro já levou algumas cidades como a nossa a anular candidaturas de vestibulandos, incapazes de provar sua ''inocência''. Outro problema que vejo é: como ficam os demais excluídos? Se o grande motivo alegado para as cotas é a busca da igualdade, por que não concedê-las também aos deficientes, portadores do HIV, ex-presidiários, judeus, etc.? Quem sabe, porque a minoria negra dos EUA é, na verdade, uma maioria, que ''inverteu'' o preconceito e quer partir para a desforra dos brancos? Afinal, o que é bom para os EUA...
Independente do aspecto ideológico, porém, urge perguntar-nos se os negros serão realmente tratados com equidade com o advento das cotas. Como impedir que eles acabem sendo tratados como ''intrusos'' e ''ladrões de vagas'' no meio acadêmico, que já é elitizado? Isso nos parece incentivar ainda mais a recriminação e ódio racial.
Mas se não é a igualdade, o que pode estar de fato em jogo? Trata-se, a nosso ver, do processo de massificação ou produção em série de uma ''unicidade'' artificial imposta à força, sob o pretexto da democracia e justiça social. O que acharíamos, se o governo resolvesse reservar uma parcela das vagas para participação de atletas negros nas Olimpíadas? (Graças a Deus, isso nem seria necessário...) Ou cedesse vagas para médicos ou especialistas em todas as áreas a negros com formação duvidosa.
Por fim, perguntamo-nos junto com Charlie Chaplin em ''Tempos Modernos'', até quando vamos continuar confundindo ''igualdade'' com formas veladas de discriminação e tirania?
GABRIELE GREGGERSEN é professora de Metodologia do Ensino Superior da Faculdade Teológica Sul Americana em Londrina
Triste discrepância
Mary Neide Damico Figueiró
Temos acompanhado, ultimamente, vários aumentos nas verbas para contratação de assessores de deputados. A princípio, talvez, para que possam ter reforços em sua equipe de trabalho. Pois bem, eles que já têm assessores, desde longo tempo, alegam precisar de mais. E os profissionais da Educação, que muito necessitam de assessores, continuam tendo que arcar sozinhos com as muitas tarefas que lhes são incumbidas, desdobrando-se para dar conta de atividades que, muitas vezes, extrapolam sua função básica. Certamente, poderiam executar com mais qualidade suas funções, se tivessem auxiliares à altura e devidamente remunerados.
Numa escola, por exemplo, uma professora precisa, sozinha, dar conta de sua sala de aula, geralmente, uma de manhã e outra à tarde. Ninguém para ajudá-la no trabalho de corrigir os exercícios dos alunos; ninguém para ajudá-la a acompanhar mais de perto os alunos que apresentam dificuldades; ninguém para resolver um problema de saúde, que o aluno possa apresentar; ninguém para ajudar enquanto ela tem que atender a pais, e assim por diante.
Se a escola decide realizar uma atividade cultural e/ou social, como uma feira de Ciências, ou uma festa comemorativa do dia das mães, a diretora, a supervisora e os professores, que já têm mil afazeres, é que devem se virar sozinhos para realizar as atividades-suportes para fazer o evento acontecer. E quando é preciso realizar reuniões com os pais, quem vai dar conta desse trabalho em horário extra? Certamente, os professores.
Nos departamentos de uma universidade pública, como é o caso da UEL, temos em média uma secretária para 30 ou mais professores. E, quando alguns docentes decidem organizar um evento científico, têm de fazê-lo contando apenas com a ajuda dessa secretária, quando possível; acabam, eles próprios, desempenhando várias tarefas burocráticas. Daria para enumerar centenas de atividades, nas quais, assessores, como os deputados reivindicam, poderiam vir a potencializar a atuação, não só de professores, mas também de médicos, de assistentes sociais e de outros profissionais.
Além disto, sem nenhum auxílio extra para despesas, educadores precisam comprar livros para se atualizar, ou, como acontece nas universidades públicas, para emprestar para alunos. Também, sem nenhum auxílio extra e com um salário injusto e insuficiente, professores precisam investir em sua formação continuada e participar de eventos científicos. Sobretudo, os da universidade têm o compromisso de participar destes eventos apresentando os resultados de suas pesquisas, algumas vezes, sem apoio financeiro.
Sei que isto não tem saída e que pensar em assessor para educadores é utopia. Mas, chamar a atenção da sociedade para essas discrepâncias faz ver, com mais clareza, o quanto estamos distante da valorização do profissional que educa, que forma o cidadão. Resultados? Todos vêem claramente, todos os dias.
MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ é psicóloga, doutora em Educação e professora do departamento de Psicologia da UEL





