ESPAÇO ABERTO
Por que a Páscoa é a festa mais importante do cristianismo?
Dom Albano Cavallin
A afirmação de que Páscoa é a festa mais importante do cristianismo choca muitas pessoas. Imagine, então, onde fica o Natal com toda sua magia e rituais familiares, verdadeiros patrimônios sagrados de todas as nações?
E, no entanto, é uma grande verdade, sem sombra de dúvidas. Verdade que o Natal é uma festa muito querida, com as músicas mais belas, com suas mensagens de amor e paz cantadas há 2000 anos. Mas, se Jesus nascesse em Belém, aos 33 anos morresse numa cruz e ficasse para sempre nos cemitérios de Jerusalém, nós seríamos seguidores de um líder simpático, bom, mestre de belas mensagens de amor que, entretanto, morreu para sempre deixando-nos como seguidores de um cadáver que apodreceu no túmulo, como todos os outros líderes da humanidade, Alexandre o Grande, Napoleão Bonaparte, Marx, Lenine, Hitler, etc.
Não é este o currículo de Jesus. A história sabe que Ele é o anunciado pelos profetas, registrado e recenseado nos anais do Império Romano, odiado de morte pelos seus conterrâneos; flagelado, crucificado, morto e sepultado como tão bem fotografou o filme de Mel Gibson na ''Paixão de Cristo'' e... depois ressuscitou dos mortos e está sentado à Direita de Deus Pai, como reza o Credo de um bilhão de crentes.
Um perseguidor de Jesus, que foi Paulo de Tarso, ao descobrir esta verdade escreveu: ''Se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é sem fundamento e sem fundamento também é a vossa fé'' (1Cor 15,14). Mas a Páscoa não deve ser confundida com o milagre da ressurreição. A Páscoa é muito mais, ela é a síntese da vida, paixão, morte e ressurreição que inaugurou um novo tempo, um novo estado de filhos de Deus redimidos do pecado.
A Páscoa não é uma festa de cunho social, mas um acontecimento continuado de libertação que inaugura a nossa independência espiritual, como o dia 7 de Setembro marcou a nossa Independência nacional.
Recebi, certa vez, um cartão de Páscoa que em poucas linhas me explicou por que a Páscoa é a maior festa do cristianismo e porque a Páscoa leva a um novo estado de vida feliz.
O cartão dizia assim: Depois que Jesus nasceu neste mundo, viveu entre nós, sofreu, morreu numa cruz e ressuscitou, para um cristão é proibido ser triste. Por isso, com toda sinceridade, apesar dos pesares, das maquinações da política, das corrupções que geram a morte, a fé na Páscoa de Cristo leva-me a desejar com muita sinceridade e confiança, os votos de Feliz Páscoa a todos!
DOM ALBANO CAVALLIN é arcebispo de Londrina
Judeus comemoram a festa de Pessach
Rabino Sami Goldstein
Normalmente, no período em que nossos irmãos cristãos celebram a Páscoa, nós comemoramos a festa de Pessach (passagem), a qual celebra a libertação dos Filhos de Israel do bíblico Egito. Após 210 anos de total escravidão, um grupo de pessoas que, até então, estavam unidas apenas pela fé em um mesmo Deus, toma, finalmente, sobre si, a responsabilidade de guiar seus passos, reger seu destino. A data marca a cristalização de uma crença; a constituição de um povo que, por milênios afora, faria e ainda faz com que seu nome, sua voz e, principalmente, seus ideais, sejam ouvidos, respeitados e admirados.
Pessach traz consigo, inicialmente, a mensagem universal de que a liberdade não pode ser privada do ser humano; muito menos de um povo. Não obstante, denota a importância do equilíbrio social como o sustentáculo da manutenção da liberdade. Os antigos rabinos ensinam que ''mesmo o mais pobre, aquele que vive da caridade, deve, na noite de Pessach, comer somente em posição reclinada, marcando, assim, a liberdade...'' Na noite do Seder (ceia festiva), somos todos iguais: pobres ou ricos; idosos ou jovens; homens ou mulheres. Todos estamos revivendo aquele episódio trágico e que, ao longo da História, repetiu-se em nossas vidas. Nossas diferenças pessoais são esquecidas e o que prevalece é nosso ponto em comum: somos judeus!
''Em toda geração e geração, cada pessoa deve sentir-se como se ela própria tivesse saído do Egito'' (texto da Hagadá, o livro de orações da festa). O Egito, neste sentido, não é apenas um ponto geográfico, mas tudo aquilo que nos impede de ultrapassar nossos limites e alcançar a tão almejada felicidade. Pessach só é motivo de festa se nos lembrarmos daqueles que ainda estão no ''Egito'', escravizados, oprimidos, carentes, desejosos de sua própria libertação. Pois nós, hoje povo, já estivemos na mesma situação. E a alegria do judeu reside no compromisso de lutar contra as desigualdades que fazem de nossos irmãos de todas as crenças escravos da dor, fome, miséria, solidão e descaso.
SAMI GOLDSTEIN é rabino da Comunidade Israelita do Paraná





