ESPAÇO ABERTO
E o idealismo? Cadê?
Nelson Villa Junior
No curso da história da humanidade o ideal por um mundo melhor norteou a luta de inúmeros personagens que, ainda hoje, são lembrados pela forma através da qual, não raro, dispuseram de suas próprias vidas em prol do bem comum.
O iluminismo, por exemplo, foi marcado pelo surgimento de pessoas como Rousseau, na França; Beccaria, na Itália; Locke, na Inglaterra; Grotius, na Holanda, etc. As idéias dos aludidos lutadores até hoje tangem a todos. A proposta do Contrato Social, da divisão dos poderes, da humanização das penas, do trinômio ''Liberdade, Igualdade, Fraternidade'' trouxeram à tona uma tendência positiva no processo de valorização do homem, influenciando na elaboração da grande maioria das Constituições hoje vigentes. Mas, para conseguirem isso, muitos sucumbiram nas festas sangrentas da ''Praça de Greve'', motivadas pela invenção do sr. Guilhotin.
Mas não é preciso ir tão longe. Num passado recente, numa época que a todos envergonha, esteve vigendo no Brasil o AI 5. Sem pretensões políticas, personalidades brasileiras importantes, a despeito do cale-se imposto pelo Estado, não hesitaram em marchar de forma inteligente contra a opressão, através de discursos, de grandes composições, de charges sutis, etc. Exilados do país pela ''Roda Viva'' à qual se referia Chico Buarque de Holanda, jamais cessaram a busca pela liberdade, por entenderem tratar-se de um bem que a todos deve alcançar.
Conforme se denota, todas essas pessoas e tantas outras de episódios históricos aqui injustamente não-mencionados traziam consigo algo comum: o idealismo. E é de idealismo que se precisa. Idealismo não é acreditar em algo e, logo em seguida, não mais acreditar, sob o argumento de que aquilo em que se acredita não é popular. Ser idealista é tentar difundir suas idéias, lutando por elas, seja a idéia popular ou não. O político que adota uma idéia e, ulteriormente, abandona-a, em face de ser ela impopular, não é idealista, mas demagogo. Faz o que é popular para não perder votos, e não o que é correto. E mudanças nem sempre são populares.
Talvez isso seja fruto de uma distorcida idéia do que seja um representante do povo. Um representante do povo expõe seus pensamentos, luta por eles e é eleito por eles. Desde que, após eleito, possua ele idéias legítimas, não deve delas desistir por medo de impopularidade. Com medo da impopularidade, um certo homem, num momento importante de nossa história, lavou suas mãos permitindo a execução do homem mais perfeito que por este mundo passou.
Acontecimentos interessantes ocorreram recentemente em Londrina. Embora certas atitudes políticas visem agradar a grande maioria, não se pode esquecer que, quem volta atrás uma vez, pode voltar outra. Essa instabilidade deve nos remeter a uma séria reflexão: nossos dirigentes são irresponsáveis a ponto de tomarem atitudes coletivamente impensadas ou apenas nadam conforme a maré? E o idealismo? Cadê?
NELSON VILLA JUNIOR é pós-graduando em Direito e Processo Penal na Universidade Estadual de Londrina
Política severina
Julio Cesar Campano Floriano
A greve dos servidores municipais em Londrina nos proporcionou um exemplo muito caro de como a sociedade e, infelizmente, os próprios políticos têm concebido a idéia de ação política hoje. Mas também nos mostrou como é que não devemos compreender tal ação. Com o desenrrolar de sua história, a política foi reduzida tão-somente a um meio de defesa de interesses que, em um terreno marcado pela desigualdade socioeconômica (que produz a desigualdade na correlação de forças existentes em um embate de posições divergentes) tomam um significado contraditório.
Isto significa afirmar que, apesar do discurso da igualdade de direitos e atitudes políticas, a necessidade de recusar a política enquanto tal, tem servido perfeitamente para ocultar a deturpação de seu significado real e manter a desigualdade no embate de interesses beneficiando os mais fortes.
A ''peleja'' entre o prefeito de Londrina e o presidente do Sindserv transformou-se em uma queda-de-braço onde o objetivo mais se pareceu com a disputa de um prêmio digno de um Big Brother. Enquanto um esvaziava o sentido da ação política, negando-a e classificando a ação política do outro apenas como via de pleito eleitoral, o outro afirmava que a defesa de interesses contrários aos do seu grupo, trata-se de ''política''.
Dentro de um terreno de posições divergentes, a participação política ativa nos embates figura como secundária e nada mais benéfico para a defesa de seus interesses que a desqualificação do ato político alheio. Ou seja, a recusa da ação política, seja ela reduzida à disputa eleitoral, partidária ou imputada unicamente ao outro, reflete a real negação da política enquanto espaço de participação e mais drasticamente, a desigualdade de condições em que os atores são lançados em um embate. Assim, aquele que conseguir provar que o outro está fazendo ''política'' ganha o prêmio.
Além da luta por reposição salarial (que é também, pela valorização do serviço público) a greve é um aprendizado político real para os servidores municipais. Qualquer pessoa minimamente sensata sabe disso. Mas a greve não é um movimento político apenas por decreto de seu líder ou de seu oponente, mas sim por proporcionar um espaço de participação coletiva nas decisões e encaminhamento destas.
Os servidores devem saber disso. E é exatamente aí que reside o elemento que pode transformar a política em algo muito além do que a definição tomada ultimamente. O mais importante para a recuperação do real significado do fazer política é o afastamento da política ''severina'' e da política ''jogo-não-jogo'' estilo BBB. Enquanto isso não acontece pra valer, o prêmio vai para...
JULIO CESAR CAMPANO FLORIANO é sociólogo em Londrina e professor pós-graduado em Economia do Trabalho pela Unicamp





