O PT dos 25 anos e as contradições atuais
Manuel Joaquim Rodrigues dos Santos

São inegáveis as contribuições que o Partido dos Trabalhadores (PT) forneceram ao processo de redemocratização deste país. Os movimentos sindicais que o geraram, os líderes dos grupos de jovens igrejeiros e os intelectuais das mais diversas universidades, combateram nos mais variados flancos o regime totalitário e contribuíram para que os brasileiros pudessem ter garantidos os principais direitos e assegurada a liberdade essencial ao regime democrático. Por tudo isso, a dívida para com esse partido de esquerda começou a ser paga há anos quando os companheiros conquistaram inúmeras prefeituras e Estados e, agora, quando o companheiro Lula chegou ao Palácio do Planalto. O Brasil se rendeu às teses da esquerda e até a classe média deixou que a esperança vencesse o medo!
Pouco temos a comemorar desde que as peças deste complicado xadrez político trocaram de posição. Estarrecidos, vimos que a linguagem de quem está no poder continua a mesma, independentemente de quem o detém. Constatamos também que as incoerências não poupam nem sequer aqueles que sempre fizeram questão de as denunciar em outras épocas. E, finalmente, acordamos percebendo que no poder, o PT pouco serviço presta à própria democracia em suas várias tentativas de controlar certas instituições.
O que nos deixa mais impressionados em termos locais é a situação da greve dos servidores públicos. Até ontem sindicalistas (e ''grevistas''), os atuais ''patrões'' mudaram sua conduta e postura e por que não falar sua pose. Até ofício é exigido para um reinício de conversações. A controvérsia em torno de números nada mais é do que a revelação do engodo da tal ''casa arrumada'' e da intransigência que sempre caracterizou os que agora ocupam o poder. Chega a agredir nossa sensibilidade e bom senso a prepotência manifestada, na queda-de-braço, apostando no ''desgaste'' do movimento sindical. É pura ironia. Se não fosse traição. A agilidade na criação de cargos comissionados na Sercomtel contrasta pateticamente com a demora na solução dos problemas que envolvem a população prejudicada pela greve.
Não existe muito para celebrar. Que o digam os companheiros da UEL estupefatos com a transformação da rádio local, de órgão de apoio da universidade, em diretoria subordinada à Coordenadoria de Comunicação Social do ''dia para a noite''. A falta de discussão por parte da comunidade universitária se transformou apenas num detalhe aos olhos de quem fez a mudança regimental.
Enfim, o que toda a sociedade deveria estar repensando com este nefasto exemplo de hegemonia petista, é de que não adianta mudar de nome ou de posição. São mudanças estruturais que nos faltam. São reformas políticas, sociais e trabalhistas que estamos necessitando para construir um Brasil melhor.
MANUEL JOAQUIM RODRIGUES DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina

Pesquisa com embriões: apoiá-las ou não?
Renata Rabello de Oliveira

Após tantas notícias divulgando jubilosamente a aprovação da Lei de Biossegurança a favor das pesquisas com embriões no Brasil, senti que não poderia deixar de escrever algumas linhas para proporcionar poucos minutos de reflexão. Sou enfermeira neonatal e estudo a vida fetal. Sou bioeticista pela UEL e a bioética criou em mim a busca, não por respostas, mas pela análise de paradigmas de forma mais humana. Não há dúvidas que temos que nos curvar a muitos feitos da ciência durante os últimos anos e não atesto ser contra esta evolução. Porém, o que vemos hoje é uma ciência que muitas vezes não está alicerçada sobre uma consciência ética sólida. Segundo Léo Pessini, ''a ciência não tem a missão de salvar a humanidade, porém, detém poderes sobre o desenvolvimento futuro desta''. E que futuro nos aguarda?
Quando falamos de pesquisa com embriões, nos esbarramos em uma grande questão ética: quando se inicia a vida humana? Acredito que este questionamento atualmente nos leva mais a ''interesses'' do que propriamente a uma simples, porém, complexa reflexão. Atestar que a vida se inicia após a 5 semana de gestação quando se ouvem as primeiras batidas do coração, sugere a liberação do aborto; atestar que a vida se inicia após a 4 semana quando o sistema nervoso primitivo começa a se desenvolver, sugere a liberação das pesquisas com embrião porque não é ''entidade formada''. Claramente vemos que adotar o conceito de início da vida no momento da fecundação do óvulo pelo espermatozóide fere interesses.
Apoio a Igreja Católica e me detenho no conceito celular para caracterizar o início da vida. Se acreditamos que célula é algo vivo, por que não acreditar que algumas células em divisão já são vida? Uma vez iniciado o processo da concepção, não existe nenhum ponto particular que seja mais importante que qualquer outro. A vida é um ''continuum''.
Será que um bem social pode se sobrepor ao de um indivíduo? Bernard afirma que ''o princípio da moralidade médica e cirúrgica é nunca realizar um experimento no ser humano que possa causar-lhe dano, ainda que o resultado seja altamente vantajoso para a sociedade''. Diante de nós, outro paradigma: descarte ou pesquisa com os embriões congelados em clínicas de fertilização? Qual a posição menos antiética? Onde vamos parar? Será que a ciência se contentará com os 30 mil embriões congelados disponíveis para o estudo? Em muito pouco tempo, talvez, vejamos uma comercialização desenfreada de embriões.
É preciso que tenhamos consciência e postura madura frente à modernidade e à preservação da vida humana. Temo que a ciência, com suas práticas atuais, não seja capaz de prevenir consequências futuras. Como Hans Jonas escreveu, temos que ''respeitar o direito de cada vida humana encontrar o seu próprio caminho e de se surpreender a si própria''.
RENATA RABELLO DE OLIVEIRA é enfermeira em Londrina

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