Escritores e escritores
Julio Cesar Campano Floriano

Com a polêmica em torno do Memorial dos Pioneiros em Londrina, alguns escritores foram ao Paraíso! Ao paraíso dos disparates. Sem fundamento algum, suas afirmações abusaram do bom senso daqueles que procuram através de um olhar mais claro e realista da história, desvendar os fantasmas que assombram nossas memórias. E não precisam ser eles, acadêmicos, políticos, sindicalistas ou escritores. Apenas, o bom senso basta. Coisa que aliás, falta.
Ninguém precisa ser ''leninista'' ou ''professor da UEL'' para conjugar de uma posição contrária. Posição que, aliás, bebe em um conservadorismo que nega e desqualifica qualquer forma de luta. Porém, não conseguem compreender que o mecanismo que obscurece fatos da história de Londrina é o mesmo mecanismo que os fazem ver como algo negativo, o leninismo, o sindicalismo, as greves e o MST. Diria que é isso que se pode chamar de incapacidade, preguiça intelectual ou conformismo.
Que pessoas vieram para a região Norte do Paraná trabalhar e fincaram suas vidas aqui nesta terra vermelha, todos estão de acordo. Mas pensar que isto é a gênese de um paraíso é algo grotesco. A desigualdade é produto econômico, social, e também histórico. Londrina não constitui um caso à parte. Nem todos aqueles que aportaram nesta terra eram empreendedores astutos e muito menos o seu desenvolvimento colocou todos em patamar de igualdade. E exatamente porque a desigualdade não desapareceu (nem os mecanismos que a produzem) que expressões de luta como o leninismo, como o sindicalismo e como o MST emergem nesta sociedade. A história da sociedade é também a história das desigualdades, e ocultar esta história é contribuir para a manutenção delas.
Procurar compreender como a sociedade produz e mantém a desigualdade, e mais ainda, procurar mostrar de maneira clara a todos aqueles que são vítimas destas, contribui muito mais para a memória daqueles que ajudaram a avermelhar essa terra com sangue e suor, como todos os trabalhadores do mundo. E contribui também para a superação deste modelo anacrônico social. Porém, há quem aplauda a manuntenção da história que oculte as desigualdades e suas causas. Sinal dos tempos? Não. Covardia. Miolo mole? Não, falta de miolo.
Embora não negue minha condição, desta vez, não assinarei como sociólogo. Mas apenas como professor, preocupado em ensinar e compreender com os alunos a realidade. Assino também como londrinense. Londrina está vermelha de vergonha porque esconde algo. Há escritores e escritores. Alguns devem escrever, outros devem ir para o que se transformou a Academia Brasileira de Letras. Ao lado de Sarney, e Paulo Coelho. Quem conhece esses dois, não compra!
JULIO CESAR CAMPANO FLORIANO é professor pós-graduado em Economia do Trabalho pela Unicamp

O Ano Mundial da Física e Cidadania
Alcides Goya

Na abertura oficial do Ano Internacional da Física (Ano Mundial da Física), em Paris, Claude Cohen-Tannoudji, prêmio Nobel de Física em 1997, afirmou: ''A Física pode contribuir para uma compreensão melhor do mundo e para a paz entre os povos''. Na ocasião, esse renomado cientista destacou que a física pode melhorar a vida cotidiana em diversas áreas como o ambiente, a saúde e a energia.
O desenvolvimento da capacidade de conhecer o mundo que o cerca faz parte da formação de um cidadão. É natural no homem querer saber os princípios gerais que explicam esse grande desenvolvimento tecnológico do qual todo ser humano usufrui diariamente. Ele deseja compreender o mundo microscópico dos átomos, os aparelhos eletrônicos e os computadores, as diferentes formas de energia e até o mundo macroscópico das galáxias. Corroborando com a conferência da abertura do Ano Mundial da Física, poderíamos afirmar: ''A física pode contribuir muito na formação dos cidadãos''.
A física ensina o ser humano a ver o mundo no seu aspecto mensurável, pois, segundo Galileu Galilei, ''a linguagem da natureza é a linguagem da matemática''. Ela nos ensina a decifrá-la através das observações e do raciocínio, levando o ser humano a ganhar confiança na capacidade de dominar o mundo material através do conhecimento ao invés da posse.
A física enriquece o cidadão para utilizar a inteligência e a imaginação para compreender as coisas que são invisíveis aos nossos olhos. Do ponto de vista experimental, os físicos desenvolvem instrumentos para tornar mais ''visível'' o mundo, pois a maior parte do universo é ''invisível'' aos sentidos do homem. Todas as áreas do conhecimento humano se enriquecem com essa ampliação. Do ponto de vista teórico, a física ensina o cidadão a usar corretamente a razão e a imaginação para compreender os fenômenos, ampliando e fornecendo subsídios para que ele possa progredir e interpretar melhor o complexo mundo no qual ele vive.
O estudo da física desperta boa parte dos jovens para as diversas carreiras científicas ou técnicas, sempre muito necessárias para a nossa sociedade. Como construiríamos os nossos edifícios sem a física? Como viajaríamos rapidamente sem a física? Como cuidaríamos das nossas doenças se a física não propiciasse o desenvolvimento dos instrumentos médicos? Não é difícil concluir que a física contribui muito para o bem estar atual do homem.
Apesar da física estar restrita ao mundo da matéria e da energia, ao procurar compreender a origem e a evolução do universo cósmico, ela procura contribuir também para ajudar o ser humano a responder aquelas perguntas fundamentais que qualquer leitor já se fez: De onde viemos? Quem somos nós? Para onde vamos?
ALCIDES GOYA é doutor em Relatividade Geral e professor do departamento de Física da Universidade Estadual de Londrina

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