Cianorte, o endereço da alegria
René Ruschel

A primeira vez que assisti uma partida de futebol entre clubes profissionais foi em Cianorte. Não me recordo exatamente a data, mas aconteceu no final da década de 60. Nativo de Cruzeiro do Oeste, cidade vizinha, num domingo à tarde fomos ver o ''Cafe de Cianorte'' enfrentar o Atlético Paranaense. Ao contrário do que muitos imaginam o nome da equipe nada tinha a ver com a rubiácea, ou seja, o café que fazia fortunas e girava a economia da região. Cafe era a sigla de Cianorte Associação Física e Educativa. O resultado final do jogo foi 3 a 1 para o Atlético. Após mais de 30, cá estou outra vez cruzando os dedos e torcendo pelo time. No jogo da última quarta-feira, contra o Corinthias, como milhões de brasileiros não tirei os olhos da telinha da TV enquanto o juiz não deu a partida por encerrada. Foi uma vitória inesquecível. Fiquei imaginando a cidade em polvorosa, explodindo em alegria como se fosse uma final de Copa do Mundo. Sem dúvida havia razões de sobra: os ''galáticos'' se prostraram ante os heróis anônimos por 3 a 0 com direito a gol de bicicleta.
A beleza do futebol - como em qualquer outro esporte - está exatamente na capacidade da superação, na busca pelo impossível, na emoção e na paixão. Ninguém, por maior que seja o poder, é capaz de impor a outrem a decisão de torcer por este ou aquele clube. Não se transfere por decreto nem por DNA. Como todas as paixões desenfreadas o futebol caminha na linha tênue entre amor e ódio. Durante muito tempo fui incapaz de entender este fanatismo quase sem limites, mas aprendi que de alguma forma temos que fazer valer o que há de mais sublime na espécie humana: o amor, afinal, é justamente esse detalhe que nos difere de outros gêneros animais. E havendo amor, necessariamente o ódio caminha em paralelo.
Entre a intelectualidade nativa ainda há quem pense que o futebol é o ''ópio do povo''. Não importa. Para superar as crises, os medos, a fome, o desemprego, a insegurança, é preciso buscar um vertedouro que expurgue os temores da vida. No futebol, as mazelas arraigadas n'alma saem pelo berro que ecoa nas arquibancadas; na decisão do juiz ''filho da p...'' que insiste em prejudicar nosso time; na jogada que não se consuma ou no erro de cada passe, até explodir em alegria num gol que faz o povão esquecer suas amarguras.
Certamente nos bares em Cianorte não se discute outra coisa. Na missa de domingo o padre pedirá orações e pelas ruas os torcedores desfilam com a camisa azul anil, como se o céu descesse à terra. Pra que não faltem deuses os jogadores rondam cada esquina da cidade. São os leões indomáveis que com seu rugido sacudiram a nação corintiana. Agora ''a alegria ancorou'' por lá e até o próximo jogo, em São Paulo, está em porto seguro. Como diria o imortal Vinicius de Moraes ''que seja eterno enquanto dure''.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

Pioneiros e leninistas
Domingos Pellegrini

Professores ainda leninistas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), com aquela visão de mundo que rendeu, por exemplo, a última greve pela qual ainda pagamos, torcem o nariz para o Memorial dos Pioneiros do Museu Histórico de Londrina ''Padre Carlos Weiss'', dizendo que isso de pioneiros não tem mérito.
Ou seja: não tem mérito aquelas pessoas terem deixado sua terra natal, migrando de país ou região, muitas vezes só com uma mala, para encarar vida nova numa clareira na floresta, vivendo entre o barro e a poeira, trabalhando com garra e esperança, aguentando os trancos e barrancos enquanto muitos desistiam. Ah, isso não tem mérito!
Terem os pioneiros investido suas economias de anos, ganhas ''no cabo da enxada'', para plantar uma vida nova, com tolerância e convivência, isso não tem mérito. Decerto teria mérito se tivessem se engalfinhado em lutas de classes ou se tivessem se amotinado contra a capitalista Companhia de Terras, que tanto louvam e que lhes permitiu acesso à terra com pouco ou mesmo nenhum capital, desde que quisessem trabalhar. Mas o trabalho também não deve ser meritório para os acadêmicos ainda cultores de Lenin, cuja sepultura política foi a queda do Muro de Berlim, mas para os leninistas temporãos o muro ainda não caiu.
Será a preguiça intelectual, acomodada com cartilhas de séculos lidos há décadas, que impede ver claramente? Ou será o ranço sindical e corporativo que teme tudo que lembre iniciativa e empreendendorismo? E os pioneiros tinham iniciativa e queriam empreender.
Mesmo os que não progrediram, por incapacidade ou conformismo, ou, vá lá, falta de oportunidades naquele tempo pleno de oportunidades, mesmo esses poderão ter seus nomes no Memorial, desde que a família assim queira. O memorial é aberto a todos, expressando a receptividade da nossa colonização, nisso tão diferente das colonizações e invasões socializantes que, enquanto conduzidas ideologicamente, acabam em fracassos.
Mas os leninistas aplaudem incondicionalmente o facão do MST e lastimam a inclusão convivente do Memorial. Sinal do tempos? Não. Miolo mole.
DOMINGOS PELLEGRINI é escritor em Londrina

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