ESPAÇO ABERTO
Teologia: papo de mulher?
Gabriele Greggersen
Que tem a mulher a ver com teologia? O campo, só recentemente regulamentado pelo MEC, é dominado por homens no Brasil e no mundo. Nesse sentido, a Faculdade Teológica Sul-Americana (FTSA) em Londrina é inovadora, contanto com 25% no quadro docente. Isso corrobora a tendência de penetração da mulher em setores ''masculinos''. Temos aí caminhoneiras, torneiras mecânicas, aviadoras...
Mas que bem isso trouxe para elas ou para a sociedade? Isso não cheira a uma forma pós-moderna de exploração do trabalho, já que a mulher costuma ganhar menos para exercer funções idênticas, produzindo mais?
Independente dessas polêmicas infindáveis, podemos já identificar alguns benefícios da participação da mulher na teologia: combate ao academicismo e patriarcalismo; resgate do papel das histórico das mulheres no desenvolvimento de várias religiões; sensibilização para os problemas sociais, como dos excluídos, em prol do bem comum; resgate dos aspectos femininos de Deus; atenção para questões ecológicas e éticas; e articulação da teologia com uma espiritualidade transformadora e coerente.
Não defendemos nenhuma ''teologia feminina'' oposta a alguma ''teologia machista'' (com o devido respeito à ''teologia feminista'' já existente há décadas). Contudo, não há como negar a intuitividade da mulher em relação às coisas espirituais, haja vista sua presença notória nas igrejas e locais sagrados. A fé, longe de ser assunto exclusivo da mulher, apela de forma especial e misterioso a ela.
Um fato recente nos alerta para isso: o crescimento alarmante de casos de mulheres-bomba no Oriente. Seu auto-sacrifício por questões religioso-políticas é simplesmente absurdo, não apenas pelo ''terror''. No caso dos homens, podemos até imaginar o porquê da sua disposição à morte em prol da causa: medo, expectativa de uma vida melhor no além, etc. Já para as mulheres, o céu descrito no Alcorão não tem nada de atrativo! Pelo contrário. Tudo indica que elas não passarão de escravas sexuais, menos providas de direitos do que no mundo ordinário.
Poderíamos citar outros tantos abusos praticados contra a mulher em todo o mundo por motivos religiosos. Mas esse exemplo basta para notarmos a urgência de se dar ouvidos à voz feminina nos meios teológicos, supondo que é ali que se formam os futuros líderes religiosos e formadores de opinião. Isso não representa nenhum privilégio e, sim, um grande desafio.
GABRIELE GREGGERSEN é professora de Metodologia do Ensino Superior da Faculdade Teológica Sul-Americana em Londrina
A condição feminina
Claudemir Lopes Bozzi
Alguém já dizia que ''as flores vão até a ponto de perfumar as mãos que as oprimem''. Correto! Mas onde reinam há flores, há espinhos! Vejamos! Educados no bojo paradigmático da civilização ocidental greco-romana e cristã nem sempre nos damos conta das armadilhas sexistas e machistas que impregnam o nosso ''modus operandi'' de agir e pensar. Pior: nem sempre percebemos nossa cultural ''herança maldita''. Nosso universo linguístico está permeado de pérolas'' (e não pétalas) discriminatórias. Meras sutilezas despudoradas, mas não inocentes! E não venha com aquele papo de que ''foram as mulheres que nos educaram assim!''. Isto não exime nossa preguiça ética!
Na chamada Magna Grécia, no auge do que se chamou ''milagre grego'' expressão do mais alto ''espírito crítico'' literário, filosófico, artístico e político , Sócrates (469-400 a.C.) ensinava em praça pública que ''aos homens a política, às mulheres a casa''. Ensinamento superado? Ora, se dos 513 deputados brasileiros, 468 são homens (91,2%), e apenas 45 mulheres (8,8%), não é sinal que o espaço público continua sendo monopólio do varão?
Veja o Novo Dicionário Aurélio: ''homem público'', aquele indivíduo que se consagra à vida pública. ''Mulher pública'', meretriz, prostituta. Sentença condenatória também o faz a cosmovisão romana e seus ''grandes legisladores''. Segundo Villers, em ''Roma a mulher não era sujeito de direito... Sua condição pessoal, os laços da mulher com os pais ou com o marido são da competência da 'casa' (Domus), da qual o pai, o sogro ou o marido são os chefes todo-poderosos... A mulher é apenas um objeto''.
Basta analisar o direito civil pré-Carta Magna (1988) e nosso ultrapassado Direito Penal no tocante à mulher! Mas não é apenas a herança greco-romana que nos legou esta macabra perversidade: Eva foi culpada de expulsar o homem do paraíso, obrigando o homem a viver com o suor do próprio rosto o trabalho-castigo! O próprio Deus dos cristãos teria encarnado em um varão! E entre os seus discípulos não há mulheres! Determinação divina ou machismo cultural?
O próprio Apóstolo Paulo dizia: ''A cabeça de todo homem é Cristo, que a cabeça da mulher é o homem (...). Pois o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher foi tirada do homem. E o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher foi criada para o homem''. Ora o próprio Tomás de Aquino segue Paulo, ao atribuir ''racionalidade'' ao homem: ''O varão dá o ser ao filho. A mulher apenas administra a matéria'', ou ainda, ''A mulher está, por natureza, sujeita ao homem, pois que o homem desfruta com maior abundância do discernimento da razão''.
Até Tertuliano chamava a mulher de ''porta do diabo''. Veja só a literatura rabínica - judeu piedoso elevava a Deus sua oração dizendo: ''Eu te bendigo, ó Senhor nosso Deus, porque não me fizestes mulher''. Portanto, não nos é politicamente correto apenas lembrarmos de flores por ocasião destes 148 anos de triste recordação daquelas 129 operárias queimadas em uma indústria têxtil de Nova York em 8 de março de 1857. Não há porque apreciar rosas, quando isto nos faz esquecer os sofrimentos advindos da peleja e arranhões deferidos pelos espinhos!
CLAUDEMIR LOPES BOZZI é Filósofo e professor de Ética e Filosofia na Unopar em Londrina





