ESPAÇO ABERTO
Mulher: vocação para a felicidade?
Moacir Costa
A mulher moderna pensa muito em trabalho e pouco em sexo? A cada dia, essa pergunta torna-se mais constante, na medida em que a participação da mulher em todos os setores da sociedade tem crescido bastante, deixando uma boa parcela dos homens perplexos e inseguros.
Essa geração pós-feminismo está vivendo uma fase de entusiasmo e deslumbramento com a possibilidade de seguir uma carreira, crescer profissionalmente e fazer sucesso. Isso é tudo o que a mulher sempre sonhou, porque até então constituía uma área exclusivamente de domínio masculino.
É, portanto, natural que a mulher se sinta envaidecida de poder competir com os homens. Hoje, ela não quer somente ''ocupar seu tempo'' ou apenas ''ganhar seu dinheirinho'', mas também ser valorizada socialmente como uma profissional capaz de vencer e destacar-se em todos os setores existentes na sociedade.
Para muitas mulheres, essa nova posição tem exigido uma dedicação quase exclusiva à vida profissional, restando pouco tempo para namorar e viver um grande amor. Isso acaba provocando muita angústia, pois é difícil para a mulher abandonar o ideal romântico de formar um ninho, um vínculo e construir uma vida com alguém.
Para o homem, esse desprendimento é mais fácil, pois ele foi educado para dar prioridade ao sucesso profissional, deixando para segundo plano o casamento, a vida a dois, a família. Já a mulher que hoje está na faixa dos 30 anos precisa lutar muito para se firmar profissionalmente e tornar-se independente, tendo de deixar para mais tarde a maternidade. Por isso, nos dias atuais é comum o casamento ocorrer cada vez mais tarde, após os 30 anos.
De fato, um dos problemas que a mulher moderna precisa resolver é quanto à sua disponibilidade de ter ou não filhos. Para encarar esse conflito, ela precisa ter a seu lado um homem que a ajude a manter o equilíbrio entre o lado profissional e a vida pessoal e afetiva. Talvez ela precise também de uma psicoterapia que a prepare para equacionar melhor os problemas, livrando-se das culpas e permitindo uma relação mais positiva com a maternidade.
A situação fica complicada quando a mulher tem um companheiro machista e inseguro, incapaz de valorizar e aplaudir seu sucesso. Quando ela tem uma remuneração maior que a dele, os atritos aumentam ainda mais e, inevitavelmente, acabam afetando de forma perigosa o relacionamento afetivo e sexual.
Esse crescimento profissional e afetivo é fruto de muitas lutas e sofrimento, e deve ser motivo de orgulho e admiração, inclusive dos homens. Afinal de contas, é por esse caminho que muitas mulheres demonstram maior vocação para a felicidade, e isso facilita a formação de parcerias, a superação de dificuldades e uma vida com maior prazer.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo
Poder: para que o queremos?
Silavana Aparecida Mariano
A discussão sobre poder é um tema caro aos movimentos feministas, no Brasil e no mundo. Alimentou as lutas feministas quer pelo aprofundamento e radicalização da democracia, quer em defesa de relações sociais mais horizontais entre dominadores/as e dominados/as. Exigiu também que se fizesse a crítica interna, pois logo se percebeu que não bastava lutar pela democratização das relações entre Estado e sociedade civil, homens e mulheres, brancos e não-brancos, patrões e empregados. Era preciso questionar as relações de poder entre as próprias mulheres.
Com isto foi necessário enfrentar as contradições dentro dos movimentos de mulheres. Fazer crítica às relações sociais de dominação implica em fazer também a autocrítica de como nós reproduzimos determinados aspectos dessa relação, inclusive nas relações privadas. Por isso também a ênfase no lema ''o privado é político''. Uma sociedade democrática exige, por exemplo, a democratização das relações de trabalho, políticas, familiares, eróticas, amorosas e de todas as demais relações que estruturam posições de poder.
Com este espírito, as feministas passaram a advogar uma noção de poder que emancipa e não o poder que oprime. O poder que afirma e não o poder que solapa as capacidades dos sujeitos. O poder que permite ao indivíduo decidir sobre sua própria vida e não o poder que anula tal autonomia. Enfim, o poder como positividade.
Contudo, ainda hoje é possível que identifiquemos experiências que vão contra esses princípios, mesmo no interior de organizações de mulheres. Às vezes tenho a impressão de que a herança de radicalização da democracia, forjada pelo feminismo ao longo dos anos 70 e 80, foi sendo esgarçada da década de 90 para cá, na esteira do processo de institucionalização do feminismo, que, muitas vezes, tem recolocado, de forma perversa, a centralização, a hierarquia e, por que não falarmos, a opressão.
Essas indicações de contradição apenas reforçam a necessidade de insistirmos na crítica radical às formas de poder que oprimem, bem como à apropriação indevida do discurso feminista.
SILVANA APARECIDA MARIANO é socióloga em Londrina e doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp/Campinas





