A origem da desigualdade
Roberto de Paula

Anapu. Goiânia. Faixa de Gaza. Madri. Iraque. Londrina. As localidades são diferentes. As línguas são diferentes. Mas, um aspecto de igualdade salta aos olhos: a humanidade em profundo colapso. Vivemos uma crise sem precedentes. Os estudiosos nominam-na de crise dos paradigmas da pós-modernidade. Preferimos, de nossa parte, dizer que estamos mergulhados numa contradição: nunca se avançou tanto no domínio da natureza por meio de biotecnologias e nunca se regrediu tanto no tocante à dignidade humana, ao respeito pelo mínimo do ser humano e à autodeterminação dos povos.
Sem a pretensa arrogância de explicação cabal, busquei em Rousseau (pensador do século 18) uma resposta. Afinal, não é isso que ele tentou fazer? Não deparamo-nos com respostas, mas com um prenúncio da barbárie. A tese do filósofo é bem simples: na obra ''Discurso sobre a desigualdade entre os homens'' descreve o homem bom e em harmonia com o universo vivendo em estado de natureza (primitivo) e descreve o homem que se deixou corromper no estado da sociabilidade. Quando o homem decide viver em sociedade cria as instituições com suas normas e com a possibilidade de sanção aos que transgridem, cria o Direito, a religião, o Estado, o exército. A desigualdade, segundo Rousseau, nasce no ''momento em que o primeiro homem, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer: isto é meu!'' - criava-se assim a propriedade privada.
Soa um tanto quanto simplista, antifilosófico e fora de moda creditar à endeusada propriedade privada os males da pós-modernidade. No entanto, ela é a ''corda atada entre o abismo'' (Nietzsche) do capitalismo e do comunismo. Sabemos o que significa ter ou não propriedade privada no capitalismo. Entretanto, nada sabemos no tocante ao comunismo, no máximo temos algumas experiências deformadas vividas no socialismo. Porém, é a propriedade privada a pedra-de-toque entre um sistema e outro.
Chegamos ao extremo pós-moderno de considerar existente o que possui um número, uma conta em banco, uma senha. O outro, que não possui, é indigente. Um é o ser, o outro não-ser. Na ânsia de ser e ter, tudo é justificado. Pode-se tirar a vida, a cidadania, a soberania, a liberdade, seja em Londrina, Anapu, Goiânia, Gaza, Iraque. Rousseau, faz menção a uma estátua grega de Glauco construída à beira-mar. De tanto as ondas baterem na estátua acabaram deformando a imagem original e dando aspecto de um animal. Afinal o que deforma e atesta a desigualdade do homem e da mulher?
ROBERTO DE PAULA é estudante de Direito na Universidade Estadual de Londrina

Fazer as coisas com sentimento
Walmor Macarini

Quando fazemos as coisas com bom sentimento elas resultam boas e satisfazem quem delas fizer uso. Se for ao contrário, não dão certo em nada e causam incômodo a quem as usar ou consumir. Por isso que tudo deve ser feito a partir de uma impulsão que emane do coração.
Se o sapateiro faz um par de sapatos não apenas para vendê-lo e obter dinheiro, mas pensar também que irá beneficiar quem o calçar, esse sapato com certeza será confortável. Do contrário, se o confeccionista o fizer com raiva (da vida, do pouco ganho, da empresa onde trabalha, do patrão), esse produto poderá criar calos nos pés de quem o utilizar.
As coisas ficam impregnadas do sentimento, daquele momento, de quem as produziu, e geram consequências, boas ou más. A alegria da cozinheira, ao fazer a comida, e o seu desejo de satisfazer quem a saborear, resultará nutritiva e não causará mal.
Certos negócios têm tudo para dar certo mas não frutificam. Já outros progridem. Isto não tem a ver apenas com incapacidade, no primeiro caso, ou extremo esforço, no outro, mas também com o sentimento que motivou instalá-los. Se a idéia é ganhar dinheiro mas também servir e dar prazer ao usuário, e se isto for algo forte e contínuo, o negócio será impulsionado a prosperar.
Há pessoas que fazem as coisas com vistas a derrubar o concorrente, mas quem assim procede aciona retornos desagradáveis para si próprio, na mesma intensidade. Esta é a lei. Já há pessoas que apreciam partilhar as coisas. Louvam o progresso alheio e fazem tudo com tanta satisfação que parecem fazê-lo tão-somente para agradar aos outros. A tendência é se darem bem, porque coisas boas movem e atraem coisas boas.
Os elogios e agradecimentos da freguesia, por um bom produto, um bom trabalho ou um bom atendimento, recaem em forma de boas graças sobre o dono do negócio ou o confeccionista. Quando sentimos o conforto de um par de sapatos e gostamos dele, estamos indiretamente fazendo um agradecimento ao sapateiro, sem nem conhecê-lo, e ele captará isso de alguma forma e se sentirá bem, sem saber por que. Por isso que boas correntes vibratórias de pensamentos, sentimentos e palavras fazem tão bem e são capazes de alastrar-se e dar a volta ao mundo, porque não conhecem distâncias.
Não há mal em desejar o ganho com nosso trabalho e com as coisas que fazemos, mas é preciso adicionar o ingrediente do sentimento e do amor naquilo que fazemos. Isto dá um toque de harmonia e beleza e propaga-se como os círculos que se formam quando lançamos uma pedra nas mansas águas de um rio.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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