A cultura e a cidadania
Luiz Carlos Ferraz Manini

Conceito primordial na antropologia, a cultura é uma idéia de difícil definição, por não lidar com materiais palpáveis. Situa-se no nível do pensamento, das ações, dos sentimentos. Está escondida naqueles recantos nos quais tudo parece ''natural'', naquelas pequenas coisas que fazemos sem pensar.
Morelli, crítico de arte italiano, no século XIX, criou um novo sistema de identificação da autenticidade de obras de arte: não buscava nos grandes traços a autoria de um quadro. Prestava atenção em pequenos detalhes: no formato de uma orelha, no modo de dispor o cabelo, na feitura de uma unha. Era nestes locais que encontraria a originalidade do artista, seu traço mais marcante, por ser aquilo que o mestre realizava ''sem pensar'', sem prestar atenção, mais preocupado com o contexto geral da obra.
É nestes traços particulares que reconhecemos, então, a originalidade, a personalidade do autor. Do mesmo modo, percebemos assim a cultura em geral, nas pequenas coisas que fazemos mesmo sem perceber.
Mas como na obra de arte, esses detalhes se prestam a um objetivo maior. E na cidadania que pensamos ao enfocar a cultura. Esta é uma condição essencial para a prática daquela, pois somente se conhecemos nosso povo, nossos modos de ser, pensar e agir, podemos contribuir para a melhoria do mundo em que vivemos.
A Escola Livre de Música de Londrina chega para ajudar a cumprirmos este papel: voltada para a população carente, em geral sem acesso a uma parcela maior de nossa cultura, não servirá apenas para produzir arte, uma arte vazia e sem significado. Estará a serviço de escopos maiores: o de integrar e tornar cidadãos aquelas crianças cujo destino parecia incerto.
Trabalhando a partir do som, a música atuará da mesma forma na vida destes futuros cidadãos: retirando-os do silêncio imposto pela falta de informação e cultura, trazendo-lhes uma nova linguagem e uma nova vida.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina

O PMDB nunca foi o MDB
Nonato Cruz

No início dos anos 80 o saudoso senador Franco Montoro (MDB-SP) se lamentava, na tribuna do Senado, da obrigatoriedade das agremiações políticas passarem a ser denominadas ''partido'': ''É um golpe no Movimento Democrático Brasileiro - MDB, que está em crescimento acentuado.'' Em aparte, o senador baiano Lomanto Júnior (ARENA) fulminou: ''Ora, Montoro, por que vocês não acrescentam a palavra 'partido' ao MDB?''
E foi assim que acabou surgindo o PMDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro, sem os componentes originais do velho MDB (único conduto do voto oposicionista), dada a migração de muitos dos seus membros para as novas siglas (PT, PDT, PPS, PTB etc). Mas, no fundo, como ''carona'' da antiga sigla! O Movimento Democrático Brasileiro (MDB), surgido nos anos 60, com a extinção dos antigos partidos, fora o estuário onde desaguavam os votos oposicionistas ao regime militar. Quando o quadro partidário se abriu - eliminando o bipartidarismo - o que sobrou do PMDB se reuniu sob o guarda-chuva do dr. Ulysses Guimarães, um antigo pessedista conservador que, em 1964, com seu colega Nelson Carneiro (PSD-GB) quis aumentar as cassações de quatro para oito anos.
Quem ''montou'' o MDB foi o marechal Castello Branco, chefe do golpe militar, pedindo a seus amigos, o general-senador Oscar Passos (MDB-AC) que acabou primeiro presidente do partido , o almirante-senador Amaral Peixoto (MDB-RJ) e o senador Rui Carneiro (MDB-PB) todos do velho e conservador PSD (Partido Social Democrático), que fundassem o partido. Depois, Ulysses sucedeu o general Oscar Passos, no momento em que o eleitorado passou a acreditar no MDB (1974) como conduto legítimo do voto oposicionista.
O sucesso do MDB nas eleições de 1974 e 1978, talvez, tenha dado a Ulysses a ilusão de irreversibilidade da ida para o poder quando os militares se exaurissem. Em meio a este sonho, chega-lhe um deputado federal de primeiro mandato, Dante de Oliveira (MDB-MT), pedindo-lhe a assinatura na sua emenda que restabelecia as eleições diretas. Levou um pito de Ulysses que, se o espantou num primeiro momento, depois, ante a repercussão da iniciativa, a ela aderiu incondicionalmente. Virou até o ''sr. Diretas''!
Era tarde! O dr. Tancredo Neves (MDB-MG), confiante de que a Emenda das Diretas não passava, fez-se candidato indireto (para implodir o colégio eleitoral) e garantiu aos militares, através do general Ernesto Geisel, o ''não-revanchismo'' que os tranquilizasse. E faturou, se o imponderável não o retirasse da cena política.
Nas eleições de 1989, Ulysses foi traído pelo grupo de Fernando Henrique Cardoso, que apoiou Fernando Collor (PRN), e abandonado pela linha ideológica do partido, que se decidiu entre Lula (PT) e Brizola (PDT). Em 1998, o PMDB abriu mão de ter candidato próprio para favorecer a reeleição de FHC. E, finalmente, em 2002, deu a vice (deputada Rita Camata - ES) na chapa de José Serra (PSDB).
Esta é a síntese das trajetórias do MDB e do PMDB, porque um não é o outro. Por isso, seria um equívoco mudar pura e simplesmente a sigla, sem os componentes históricos. Hoje o PMDB é um aglomerado pobre de idéias e objetivos. Por mais que um segmento lute para desatrelá-lo do governo Lula, outro mais enraizado e com melhor cota no governo não quer largar a carne. Por isso, o papel do ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, dos governadores Roberto Requião (PR) e Jarbas Vasconcelos (PE), pode ser o de reposicionar o PMDB no seu caminho de defesa das grandes bandeiras nacionais. Fora disso, continuará o grande aglomerado que é! Um aglomerado de grupos sem contextura. E sem idéias...
NONATO CRUZ é jornalista no Rio de Janeiro

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